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quarta-feira, 28 outubro 2020

Depressão: Um mal que não respeita barreiras

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Ela não é sinônimo de possessão demoníaca, falta de comunhão com Deus ou fé. Significa doença, e pode até levar à morte. É a depressão!

Perda do ânimo, da alegria, da motivação. Um estado de espírito em que tudo parece sombrio e nem mesmo um glorioso dia de sol, as maravilhas da Criação, o sucesso material ou as bênçãos do amor e da amizade conseguem restituir a alegria de viver. Assim é a depressão, classificada pela ciência médica como “o mal do século”.

Infelizmente, quando se trata desse assunto,o cenário não é nada bom. E mais preocupante ainda, as coisas tendem a piorar. Hoje no Brasil há mais de 20 milhões de pessoas que sofrem com a depressão e, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), até 2020 ela deve se tornar a doença mais comum no planeta e a segunda que mais irá matar.

Atualmente, são 340 milhões de pessoas no mundo afetadas pelo problema – mais do que a população de todo o Brasil. Os dados da OMS comprovam que, diferente do que muitos pensam, a depressão é considerada doença e precisa de tratamento qualificado, ministrado por profissionais especializados.

A insistência nessa afirmativa não é à toa. Em muitas igrejas é rotineira a realização de cultos de libertação e muitos pastores prometem livrar pessoas desse mal porque o “diagnosticam” como possessão demoníaca ou algum outro problema espiritual, ligado à falta de comunhão com Deus e ainda a uma vida entregue ao pecado.

O resultado, muitas vezes, é desastroso, trágico. Recentemente, aqui mesmo no Estado, uma jovem senhora se suicidou após confessar ao seu pastor que estava depressiva e ouvir dele que ela precisava de auxílio espiritual, de oração.

É certo que oração é sempre bem-vinda. É mesmo. Mas, em determinadas situações, ela precisa vir casada com alguma outra atitude, outra ação. Se você quebrar a perna, não basta orar para o osso consertar. É preciso ir a um ortopedista. Se estiver com câncer, uma cirurgia, sessões de quimioterapia ou radioterapia deverão fazer parte do seu dia a dia por alguns meses ou anos.

“Oração nunca é demais, mas essa palavra nos remete a outras duas: orar e ação. Temos que fazer algo para mudar aquele cenário e quando o problema é a depressão, é preciso agir o quanto antes. Como cristãos, temos alguma dificuldade em buscar ajuda psicológica ou psiquiátrica. Se a depressão atinge um crente, logo pensam que é falta de comunhão, falta de oração, de fé, ação de demônios. Temos que buscar mais conhecimento para vermos que isso é, na verdade, uma doença, um transtorno psicológico”, declara o pastor Joel Félix, da Igreja Batista da Glória, em Vila Velha.

Depressão é o grande mal do século, considerado por muitos estudiosos uma doença igual ou pior que o câncer, porque, como ele, atinge pessoas saudáveis e aos poucos vai trazendo destruição. Poderíamos até mesmo dizer, leigamente,que é “um câncer da mente”, em que o psicológico é atacado por algum motivo específico ou mesmo sem uma razão aparente. E essa doença, que tem maior incidência entre pessoas de 20 a 30 anos e acima dos 60 anos, já começa afazer vítimas até entre as crianças,arruinando a vida de muitos cristãos e suas famílias.

Há causas e efeitos

A psicóloga, psicanalista e terapeuta familiar Cássia Rodrigues explica que há a depressão endógena, aquela que tem origem interna, como genética e hormonal; e a depressão exógena, que aparece por alguma circunstância da vida, como a perda de uma pessoa querida, dificuldades financeiras, familiares ou amorosas.

“Uma das causas da depressão endógena pode estar na falta da serotonina, um neurotransmissor que dá sensação de prazer e felicidade. Por que alguns pacientes são tratados com medicamentos? Muitos são para repor a serotonina. Não tem nenhuma ligação com problema espiritual. É uma disfunção do corpo”, detalhou Cássia Rodrigues.

No caso das mulheres, por exemplo, que são maioria entre os pacientes com depressão, já está comprovado cientificamente que a doença está muitas vezes ligada às mudanças hormonais, mais precisamente à queda do estrogênio, que está relacionado ao controle dos níveis de serotonina. Não é à toa que grande parte dos tratamentos para depressão consiste em aumentar as taxas de serotonina.

“É bom destacar que não é porque a pessoa tem uma boa família, um bom emprego, uma vida estável, que ela está imune à depressão. Há muitas pessoas assim com essa doença”, diz a psicóloga. Relembrando histórias de grandes homens de Deus que são narradas na Bíblia, o pastor João Carlos Siqueira, da Assembleia de Deus da Volta do Rabaiole, na Grande Santo Antônio, em Vitória, mostra como pessoas tementes ao Criador podem sofrer de algum mal psicológico.

Ele cita, por exemplo, a vida de Jó, que chegou a orar a Deus dizendo que não havia sentido na vida dele. “Jesus, no Getsêmani, entrou em um estado emocional tão extremo que chegou a transpirar sangue. É uma questão polêmica, mas há cientistas que afirmam que para um homem suar sangue ele tem que estar em um estado de profunda amargura, em um estado extremo de depressão”, relata o pastor.

João Carlos Siqueira acrescenta a história do profeta Elias, que mesmo depois de uma grande vitória contra os profetas de Baal, teve medo e foi se refugiar em uma caverna (I Reis 18 e 19).”Ele estava no ápice, mas se escondeu e pediu: ‘Deus, mata-me’. Isso é possessão demoníaca? Não. Era um estado emocional extremo”, afirma.

Já Reneé Cavalcante Leão Borges, professora do curso de Terapia Familiar da Faculdade Unida de Vitória (antiga FTU), cita outros exemplos bíblicos: “Paulo e Davi também tiveram dias de grande melancolia e tristeza. Não podemos afirmar com certeza que passaram pela depressão, mas eram sinais muito claros de alerta”.

Ela ainda complementa: “As pessoas são diferentes umas das outras. Há algumas que vão ao fundo do poço, retornam sozinhas e nunca mais afundam. Há outras que vão e voltam esporadicamente ao fundo do poço e precisam de um pouco de ajuda para sair de lá. E há outras que vão e não voltam. É o tão falado conceito de resiliência, que é a capacidade que temos de lidar com os problemas, superar os obstáculos da vida. Nesse ponto, a igreja e os pastores podem ajudar, e muito. O líder espiritual tem como função fortalecer as ovelhas e fazê-las entender que devem lutar pela vida”.

Sofrimento que não poupa ninguém

Mas, por incrível que pareça, há depressivos até nos gabinetes pastorais. Camuflados, inclusive porque acham que precisam sempre se mostrar fortes, firmes, como se não passassem por crises na família, no relacionamento, nas finanças. Há vários casos de pastores que sofrem com a doença, mas poucos são os que se abrem emocionalmente e procuram ajuda nos consultórios de Psicologia e Psiquiatria.

“Eu faço aqui um alerta aos pastores e líderes: temos que reconhecer quando o problema não é de nossa alçada. Há muitos que, quando desconhecem o problema, logo dizem que é espiritual. Isso é o mais fácil para nós. Mas temos que procurar conhecimento, ler sobre os problemas atuais do mundo, para termos como ajudar as pessoas e a nós mesmos”, disse.

Admitir que um problema extrapola a esfera espiritual talvez seja o ponto mais difícil para os líderes das igrejas. “Como já afirmei, a função do pastor é fortalecer as suas ovelhas, mas não pode toda vez atribuir a culpa à espiritualidade, dizer que um transtorno é possessão demoníaca. Hoje em dia muitos pastores têm entendido isso, mas há outros que ainda insistem em acreditar que depressão está ligada à ação do Diabo, e isso pode causar grandes estragos”, salientou a professora Reneé Cavalcante.

Dados da Organização Mundial da Saúde apontam que cerca de 10% dos pacientes diagnosticados com depressão chegam a cometer suicídio e apenas 25% das pessoas afetadas pela doença no mundo recebem o tratamento adequado, como terapias e antidepressivos. O problema normalmente se alastra para outras áreas da vida, segundo a OMS, que mapeou que 44% dos depressivos ficam com sua capacidade de trabalho comprometida e 11% perdem o emprego por causa da enfermidade.

“A origem dessa doença é biológica, psicológica ou social. Não é falta de fé. E ainda tem pastor e líder de igreja que acha que depressão é possessão demoníaca. Falta instrução! O pastor é um líder espiritual, não é psiquiatra ou clínico. Ele não trata problemas cardíacos, ortopédicos, dermatológicos ou oncológicos. O pastor trata da alma e pode ajudar muito se fizer o encaminhamento para o profissional especializado. Depressão não é doença na alma. Precisa ser tratada por quem estudou isso, que são os psicólogos e os psiquiatras”, orienta Cássia Rodrigues.

A busca por tratamento, por respostas, por soluções, não é algo errado, não é pecado. Faz parte até mesmo da orientação de Jesus. Em vários de seus ensinamentos Ele deixou claro que cabe ao homem fazer a sua parte. Ele ressuscitou Lázaro, mas mandou que tirassem a pedra do sepulcro (João 11). Ele proporcionou uma pesca maravilhosa aos primeiros discípulos, mas mandou jogarem a rede (Lucas 5: 1-11). O Mar Vermelho se abriu, mas o povo já estava pronto a caminhar água adentro quando Moisés a tocou com a vara (Êxodo 14:15-31).

Deus criou o homem para desfrutar das maravilhas criadas por Ele e para o louvor da Sua glória. Mesmo que o sentimento durante a crise depressiva seja de solidão, a autoestima esteja extremamente baixa, não haja ânimo para nada, o Pai está presente e resgata os seus, seja através da Ciência ou após ouvir orações como a que Davi fez: “Inclina, Senhor, os teus ouvidos, e ouve-me, porque sou pobre e necessitado. Preserva a minha vida, pois sou piedoso; ó Deus meu, salva o teu servo, que em ti confia. Compadece-te de mim, ó Deus, pois a ti clamo o dia todo. Alegra a alma do teu servo” – Salmo 86: 1-4.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.

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