Para David, o cristão se torna discipulador reproduzindo discípulos. Ele também precisa influenciar de forma positiva para alcançar mais e mais pessoas

Segundo a Bíblia, discípulo deve fazer discípulos. Faz parte da vida da igreja. Referência no assunto, o pastor David Kornfield diz que o discipulado deve ser uma ferramenta de aprendizado e amadurecimento para o cristão, principalmente para a liderança pastoral.

E muitos pastores, segundo David, desprezam a necessidade do discipulado por, provavelmente, julgarem que já são autossuficientes e seguros na fé. Mas como engajar de forma que a igreja forme verdadeiros seguidores de Jesus e não apenas uma religião?

Autor de mais de vinte livros, é fundador de organizações que servem a pastores e líderes, como o MAPI (Ministério para Apoio de Pastores e Igrejas) e a REVER (Restaurando Vidas, Equipando Restauradores), David responde a esse e outros questionamentos nessa entrevista exclusiva para Comunhão.

Doutor em Educação pela Universidade de Chicago, missionário da Sepal (OC Internacional) e coordenador da Aliança Evangélica Mundial do Grupo de Trabalho de Pastoreio de Pastores, David compartilha sua vasta experiência em questões relacionadas ao discipulado. Ele também fala das prioridades que devem nortear o líder cristão e aponta um caminho frutífero para quem deseja atrair mais pessoas para Jesus. Confira!

Comunhão – Como uma igreja pode ser um agente transformador na sociedade hoje com base na Palavra de Deus?

David Kornfield – É a palavra de Deus realmente transformar a nós como pessoas, pois nós somos transformados pela Bíblia. Nosso conhecimento é muito além de nossa vivência. Quando nós não somos transformados não há chance para a igreja ser transformadora. Isto fica evidenciado na parábola do semeador. Depois de contar a parábola, os discípulos fazem uma pergunta e Jesus responde com outra pergunta em Marcos 13: ‘se vocês não entendem essa parábola como compreenderão todas as outras’. Aparentemente Jesus está dizendo que esta parábola tem a base para entender todo o ensino d’Ele e tem a ver com a Palavra de Deus chegar em nosso coração, mas a maioria das vezes não penetra. O que me impacta e que tem tudo a ver com o discipulado é quando Paulo fala em 1º Coríntios 13, que ele semeou, Apolo regou e Deus deu o crescimento. Nesse mesmo trecho ele diz que nós somos colaboradores e vocês são lavouras de Deus. A maioria de nós não temos alguém que está plantando em nossas vidas e intencionalmente falando, não temos alguém que está regando o nosso coração e a semente do semeador não penetra e por isso não acabamos sendo pessoas transformadas. Sem essa transformação nunca seremos uma igreja transformadora.

E qual o maior desafio da igreja evangélica brasileira hoje mediante da banalização do evangelho?

Nosso maior desafio é que não estamos pregando e vivenciando um evangelho do reino de Deus. Pelo contrário, estamos pregando um evangelho com graça barata. Estamos contentes com as pessoas levantando a mão ou vir para a frente com música bonita tocando, mas não há, na maioria dos casos, um profundo e verdadeiro arrependimento. Jesus deixou muito claro em Mateus 3 e 4 que arrependimento é a porta ao reino de Deus. Na medida em que o nosso evangelho não leva ao senhorio de Jesus e apenas curti Jesus como salvo, não temo o evangelho do reino de Deus penetrar. A igreja está sofrendo terrivelmente a falta de verdadeiros cidadãos do reino de Deus, cheio de membros e com pouquíssimos discípulos e discipuladores.

O Senhor Jesus ordenou para que fizéssemos discípulos? O que seria isso na prática e como discipular pessoas, sendo um verdadeiro discípulo?

David ministrando no encontro Sepal 2019. Foto: Sepal

O coração de fazer discípulos é ser discípulo. Ninguém pode criar, fazer ou reproduzir o que a pessoa não é. Um verdadeiro discípulo requer um compromisso vertical e horizontal.

Nós crentes somos mais ou menos bons em dizer: ‘eu tenho um alto compromisso com Jesus’, mas somos péssimos em dizer: ’eu tenho alto compromisso em ser um alto aprendiz com outra pessoa, ou de andar com discípulo ou com mentoriado’.

Quando olhamos para o grande mandamento é nítido que o vertical e o horizontal são inexplicáveis e não dá para separar os dois. Não importa qual área de nossa vida, quando procuramos separar esses dois, enganamos a nós mesmos e nada diferente quanto ao discipulado. Para que o discipulado seja realmente uma força transformadora precisa ser tanto vertical, que é uma relação de discipulado com Jesus, como horizontal, uma relação de discipulado, mentoria, em direção espiritual, pois precisamos ter essa relação com alguém que nos ajuda a crescer de forma intencional para que tenhamos autoridade e confiança no Deus de como ajudar os outros e assim nos tornamos discipuladores. Em resumo o discípulo é uma pessoa que cresce intencionalmente com a ajuda de outra pessoa. O discipulado é uma relação comprometida e pessoal em que um discípulo de Jesus Cristo ajuda outro discípulo a tornar-se mais como Jesus e, assim, reproduz. O discipulado cristão é a multiplicação de pessoas com a vida e missão de Jesus Cristo.

Mas não são todas as igrejas que trabalham o discipulado. A liderança precisa de despertamento para isso? Como e quais os maiores desafios?

Eu estou impressionado com o grande e poderoso movimento de discipulado na igreja brasileira. Estou agradecido a Deus por coisas impressionantes, entre eles a Convenção Batista Brasileira, Igreja Videira, Comunidade da Graça, entre outros. Porém, diria que esses movimentos em conjunto não chegam a 10% da igreja brasileira. Então a grande maioria da liderança das instituições religiosas não tem uma visão clara de ser discipuladora, de ir e fazer discípulos. Nunca haverá um avivamento da igreja quanto ao discipulado se os pastores não experimentarem o discipulado ou mentoreamento em suas próprias vidas. O verdadeiro discípulo se torna discipulador reproduzindo discípulos. Se não temos uma igreja de discípulos é porque o pastor não é discipulador. Hoje, os pastores estão ocupados com tudo, menos com a missão de fazer discípulos. Jesus vivia uma vida simples, não fazendo quase nada das muitas atividades dos pastores de nossos dias, para poder dedicar-se ao discipulado. Por isso meu altíssimo compromisso com o discipulado e pastoreio de pastores.

Qual o conselho o senhor daria para que a igreja seja mais voltada para a obra missionária, que é um mandamento bíblico e que seja um canal de transformação na sociedade?

A grande comissão é o coração de missões. Fazer discípulos, ser discipulador e formar discipuladores, não teremos missões verdadeiras. Enviamos missionários que não são discípulos, não fazem fazer discípulos e formar discipuladores realmente não terá sucesso. Outra coisa para ter sucesso é uma visão prática da igreja saudável. A maioria dos missionários não vem de uma vigreja saudável e por isso não sabem como reproduzir uma igreja saudável. Se pudesse escolher os dois maiores pré-requisitos para um missionário seria vivenciar um discipulado e uma igreja saudável. É preciso ter experiência nessa área.

E sobre ser um canal de transformação na sociedade?

Foto: Reprodução

Se a igreja está cheia de discípulos e discipuladores de pessoas transformadas e sendo transformadas, é um processo eterno que nunca termina, não tem como não impactar o seu bairro, vizinhos e sociedade.

Se fazemos o erro de pensar que o discipulado é apenas para a igreja e dentro dela, então se o discipulado entendido de forma errada, acaba sendo

entendido dentro de uma perspectiva que Peter Wagner chamou de “koinonite”, doença de enfermidade de comunhão exagerada, olhando apenas para dentro.

Por isso muito entendem que o evangelismo e o discipulado estão contrários um ao outro e que a igreja vai ser forte em um ou outro. Mas se entendemos de forma certa tanto o evangelismo como o discipulado, entendemos que o evangelismo não vai acontecer sem o discipulado e discipulado de forma certa não vai acontecer sem grande envolvimento na vida de pessoas, levando ele a conhecer a Jesus que é o coração da transformação, sem dúvida há outras expressões de responsabilidade social, de estruturas politicas, mas o coração sempre será os próprios corações das pessoas.

E qual o futuro da igreja evangélica no mundo?

A Igreja evangélica está crescendo, especialmente no Brasil e na América latina. Mas a pergunta é que tipo de igreja, evangelho e de discípulos estão crescendo e se não estamos crescendo como igrejas saudáveis baseados e comprometidos com o reino de Deus e discipulado. Nosso suposto crescimento até em missões é apenas espalhar uma igreja fraca, nominal para mais e mais lugares. Então, ou mudamos o cerne de nossas igrejas para sermos mais saudáveis como igreja porque vamos reproduzir o que somos, cada um reproduz segundo a sua espécie.


Leia mais

Igreja multiplicadora: Oração, avivamento e evangelismo 
A Igreja deve governar a terra de forma ousada