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quarta-feira, 5 agosto, 2020

Davi Lago e Leonardo Gonçalves: a crise e a oportunidade de fazer diferente

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Como será o mundo após a pandemia? Davi Lago e Leonardo Gonçalves garantem que o que mais importa é manter a simplicidade, a solidariedade e a esperança nos dias difíceis.

Por Priscilla Cerqueira

Como será o mundo após a pandemia? Certamente essa pergunta tem sido feita com frequência por todos, mas muitos ainda buscam respostas para o que está acontecendo neste momento difícil que o planeta vive.

Esses e outros questionamentos foram abordados no “Papo de Comunhão”, apresentado em formato de live em maio. Na conversa, Davi Lago e Leonardo Gonçalves falaram sobre a quarentena e a incerteza que temos em relação à vida profissional, familiar e social.

Davi Lago é pastor, escritor, pesquisador do Laboratório de Política Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo e capelão da Primeira Igreja Batista de São Paulo; e Leonardo Gonçalves é cantor e compositor há 18 anos, além de ser mestrando em Teoria Literária.

Afinal, que tempo é este e o que realmente queremos? “Ninguém tem essa resposta. O que precisamos fazer é a pergunta certa: queremos que tudo volte ao normal?”, argumenta Leonardo. “De que adianta correr se você está no caminho errado?”, complementa Davi.

Para ambos, é preciso observar os valores da nossa vida interior e aquilo por que realmente vale a pena lutar. Nesse quesito, entra em cena o valor da simplicidade, da solidariedade, da fé, da esperança e do amor nos dias difíceis de pandemia. Confira!

Nossa geração está presenciando a maior tragédia nominal da história, e muitos dizem que o mundo não será o mesmo depois da pandemia do novo coronavírus. Como é que vai ser o mundo depois que tudo isso passar?

Leonardo – Ninguém tem essa resposta. Na verdade, o que precisamos é fazer a pergunta certa, pois nunca vamos saber a resposta certa se a pergunta estiver errada. Uma pergunta que fazemos agora, que nasce de uma ansiedade, é: o mundo vai voltar ao normal? Então, respondendo à pergunta com outras perguntas, né?: “A gente quer que volte ao normal anterior?” “Que mundo é esse que queremos de volta?” “Será que queremos esse mundo de volta?” Para sabermos para onde estamos indo, precisamos saber aonde queremos ir. Nunca vamos saber se chegamos a algum lugar se não sabemos que lugar é esse a que queremos chegar. Às vezes caminhamos, caminhamos, andando em círculo, e isso diz respeito aos nossos ideais. Que normalidade é essa? Algo foi roubado de nós.

Davi – Sobre isso, me lembrei de uma frase de C. S. Lewis: “De que adianta correr se você está no caminho errado?”. Isso me chama atenção para o primeiro aspecto muito importante: a oportunidade. Efésios 5 fala que devemos aproveitar ao máximo cada oportunidade, não só dizer o que vai ou não acontecer depois.

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Mas esta é a circunstância favorável que está sendo dada para cada um de nós de refletirmos sobre o que pode mudar para melhor neste momento. Uma segunda reflexão é: o que é possível fazer? Muitas vezes existe um triunfalismo ingênuo que não é ensinado na Bíblia e às vezes a gente alimenta como se fosse aqui e agora um lugar onde tudo já fosse ser resolvido. É como se nós não precisássemos ser luz, perfume ou fermento de nada, como somos ensinados nas Escrituras.

Então, sob a ótica espiritual, o que podemos aprender com isso?

Davi – Uma das reflexões gerais do mundo é que muitos pais estão se reconectando com seus filhos. Isso é real, pois muitos famílias estavam distantes.

Um exemplo que percebemos disso é que os membros da família não faziam as refeições juntos, cada um tem seu celular e sua TV no quarto e assiste ao que quer.

Essa descentralização é uma oportunidade de revermos isso e nos traz uma reflexão: será que é esse o estilo de vida que desejamos ter com os nossos pais e filhos?

Leonardo – Sei que tem pessoas dizendo dos benefícios da pandemia: que a água e o céu estão mais limpos, que a camada de ozônio está se fechando. Não estou dizendo que não existem lados positivos que precisam ser considerados. Mas não estou pronto para ver nenhum lado bom nisso, pois o preço que estamos pagando é muito alto. Nenhum lado positivo compensa a perda da vida de tantas pessoas.

Esse preço está sendo pago com sangue de seres humanos. É muito importante nos sensibilizarmos com essa dor, termos respeito às vítimas da Covid-19 e das consequências dela. Em segundo momento, concordo que as famílias estão se reconectando.

Mas essa necessidade de convivência do confinamento pode e deve ser usada de uma forma para conectarmos uns aos outros, tanto os que estão conosco na mesma casa, dividindo o confinamento, como aqueles que estão nas redes sociais.

É um tempo que ganhamos, pois tinha pessoas que havia muito tempo não se falavam. A conexão humana, seja através da internet, seja com as pessoas na própria casa, é absolutamente fundamental e, como indivíduos, é muito importante mantermos a comunicação e o contato.

Podemos dizer que este é um tempo de repensarmos o nosso ser, espiritualidade, condição cristã e de seres humanos iguais aos outros, independentemente de credo, cor, religião, idade e classe social? É tempo de compartilhar o que se tem?

Leonardo – Hoje o mundo está dividido em dois grupos de pessoas: as que estão passando necessidade – e isso tende a aumentar à medida que o número de infectados pela doença está aumentando – e as que ainda têm alguma reserva. Isso já está acontecendo. Um dos conceitos que estão muito presentes na sociedade é o pensamento de “eu ainda tenho porque guardei”.

E não há outro caminho a não ser compartilhar com quem não tem mais. Não vejo outro caminho possível para o mundo, nem para o momento da crise nem para o pós-pandemia, a não ser a partilha.

Se você realmente está preocupado com quem está passando fome, eu pergunto: você tem compartilhado o que ainda tem? Está fazendo a sua parte? Tenho visto umas lives solidárias pelas redes sociais e ficado extremamente feliz com os resultados. Muitos estão arrecadando bastante para ajudar as pessoas e sustentar famílias.

De maneira geral, vejo que as pessoas têm até compreendido isso. Então, se você não tem como ajudar alguém, é preciso compreender que você precisa pedir ajuda. Existem muitas iniciativas de pessoas que distribuem cestas básicas para moradores de rua, instituições e outros.

Davi – Muito interessante essa análise, pois às vezes a gente se acostuma com tanta coisa supérflua. No Brasil, uma das grandes discussões é o que é considerado serviço essencial. As pessoas estão tentando definir o que é isso, sendo que na vida cristã Jesus mesmo estabeleceu: amar a Deus e ao próximo, como mandamento bíblico. O sermão do monte diz: busque em primeiro lugar o reino de Deus e a Sua justiça. Em Romanos, o reino de Deus não é comida nem bebida, mas as outras coisas são essenciais, e o próprio Deus vai acrescentá-las. Solidariedade é o imperativo para cada um de nós.

O compartilhar e o repartir são o que nós chamamos na história de marco civilizatório, em que surgiram constituições dos Direitos Humanos, a Organização das Nações Unidas com sua assistência solidária e outros.

Este é o momento em que podem surgir novos marcos civilizatórios de solidariedade de modo prático, com atitudes do dia a dia. É de repartir o pão com o vizinho, de perguntar se alguém está precisando de algo, de as igrejas se mobilizarem entre seus membros, de as próprias lives na internet continuarem a arrecadar milhares de toneladas de alimentos para investir nas famílias.

Temos que ter simplicidade e solidariedade. Discordo das pessoas que falam que o mundo não vai ficar mais solidário após a pandemia. Na História, percebemos que em momentos agudos tivemos um fluxo de solidariedade. Basta ver as obras que foram produzidas após a Segunda Guerra Mundial, como as de Primo Levi.

Creio que a nova geração que está crescendo será marcada pelo que está acontecendo atualmente. Serão pessoas que vão governar as nações, os municípios e os estados em pouco tempo. Essas experiências de solidariedade podem marcar uma geração que ficou muito consumista, rebelde sem causa, que tem tudo, um monte de benefícios, e ainda reclama.

Neste momento em que estamos sem horizontes, isolados, como fazemos para manter a alegria, recuperar a atitude de adoração, renascer a fé e ter sentimentos positivos em relação à travessia?

Leonardo – Alguns versos têm me dado força, como o Salmos 23, até parafraseando uma fala que ficou muito marcada na voz de um pastor: “Jesus nunca falou que nós não passaríamos pelo vale da sombra da morte, mas sempre nos disse que tentar pôr na mesma linha lá conosco”. O outro versículo é João 16:33: “Essas coisas vos tenho dito para que tenhais paz, pois no mundo tereis aflições”. Está difícil manter o bom ânimo em meio a tantas dificuldades, mas não podemos perder a esperança. E quando ela falhar, devemos recorrer ao amor.

Que o amor jamais se extinga dentro de nós, porque esta é a imagem e semelhança de Deus em nós, a capacidade de nos sensibilizarmos uns com os outros. Prefiro ficar com a sensibilidade e encontrar recursos através da fé, de não me desesperar mesmo em meio a situação tão difícil. Que não percamos essa sensibilidade.

Davi – Uma vez ouvi uma pregação de um pastor que explicou assim: o Senhor é meu pastor e nada me faltará porque o Senhor basta. O salmo só descreve que falta luz para quem está no vale das trevas, falta vida para quem está no vale da morte, mas só Cristo basta.

Sobre o que encontraremos após essa pandemia, como ficarão os aspectos do cotidiano, as relações de afeto, mercado de consumo e para onde vai a espiritualidade? Quais virtudes devem realmente prevalecer?

Davi – É um desafio! Quando tudo isso começou, naquele primeiro momento em que ninguém sabia para onde iria a crise, vários pastores organizaram distribuição de cestas básicas, visitas às pessoas e até iam a velórios e sepultamentos e foram contaminados, assim como muitos médicos e enfermeiros. Nós não estamos lidando com números, dados, e sim com vidas das pessoas. São famílias que estão realmente enlutadas.

É um momento em que ninguém tem uma resposta pronta, nem mesmo os líderes religiosos. Então esse esforço de conversar e ouvir diferentes interpretações é muito valioso nesse momento para encontrarmos esperança.

Para nós que cremos em Deus, o que fica é a fé, a esperança e o amor. Vejo que essas virtudes, que chamamos de virtudes teologais, é um grande momento delas fazerem a diferença, mostrarem o seu grande valor para a vida das pessoas. É um momento de revermos o que é valioso na nossa vida e na sociedade.

O sinônimo da palavra crise é diagnóstico. A crise médica é o processo de avaliar o paciente para receitar o remédio. Ela também é usada por juristas para avaliar o processo, assinar a sentença e tomar a decisão. Então, essa crise da pandemia do coronavírus que vivemos não deixa de ser um momento de diagnótico e de nós colocarmos a fé, a esperança e o amor nisso.

Leonardo – É muito importante colocar crise como diagnóstico. Um exemplo disso é que curiosamente a economia dos EUA entrou em colapso, as pessoas passaram a comprar apenas aquilo que precisavam para sobreviver. Isso diz muito a respeito da nossa sociedade atual, pois criamos a necessidade de consumo, e também a mim, como indivíduo, em ter que reavaliar o que é ou não necessário.

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