Por Lourenço Stelio Rega
“O culto hoje foi uma bênção”, frase que é possível ouvir ao final de cultos indicando se a pessoa se sentiu bem e se o culto valeu a pena. Seria isso um indicador da distância do que seja um culto segundo o Novo Testamento?
O diálogo de Jesus com a mulher samaritana (Jo 4.19ss) nos dá pistas importantes para uma resposta segura.
Ela estava preocupada com o local correto da adoração, se lá em Samaria ou em Jerusalém. Jesus desloca o foco da pergunta. Se no passado Deus procurava um local físico para ser sua habitação – o tabernáculo, depois o templo –, chegou a hora do clímax da revelação divina, em que ele estaria mais ocupado com a qualidade da adoração do que com um local, rituais ou cerimoniais litúrgicos, que serviram naquele período de transição no processo da revelação progressiva, como acontecia na época de Isaías: “Este povo se aproxima de mim, com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas tem afastado para longe de mim o seu coração e o seu temor para comigo consiste em mandamentos humanos aprendidos de cor”(29.13).
Isso traz uma ressignificação divina sobre a adoração que não teria mais de se localizar em algum espaço físico, mas dentro do coração da pessoa(v. 23), que precisaria ser puro, sem mancha. O culto passaria a ser a expressão do reconhecimento da soberania e grandeza de Deus, o testemunho do que ele tem feito, na vida e na história, pelos cânticos e louvores em gratidão à imensidão daquele a quem se deve todo sentido da vida.
Seria isso o retrato de hoje em que podemos estar transformando o culto em uma espécie de “missa evangélica”, um meio de graça centralizado apenas em nossas sensações, nosso bem-estar, nossos interesses e busca do favor divino?
A adoração é o cerne da fé cristã, a ponto de Paulo nos ensinar que a dedicação de nossa vida no altar de Deus, como um sacrifício vivo, é um culto racional, um culto da escolha (Rm 12.1). E isso é um ato diário de lealdade a Deus em cada decisão que teremos de tomar. O que podemos deduzir é que a adoração pública e coletiva se torna fruto da adoração diária individual que ocorre por meio de cada decisão em que nosso ser, nossa vontade são colocadas no altar ao escolhermos seguir a vontade de Deus para nossas opções cotidianas.
Adorar significa prestar culto, reconhecer que Deus está acima de tudo, prestar-lhe gratidão por seus feitos que nem merecemos receber. A adoração é fruto de uma vida diariamente consagrada e leal a Deus, não algo mecânico, ritualístico e meramente litúrgico.
Sem isso, acabamos transformando o culto em uma espécie de entretenimento centralizado em nossos interesses, na busca apenas de sentimentos agradáveis iguais a que temos ao irmos em algum show de um artista preferido.
É claro que as emoções estarão presentes no ato do culto, pois, afinal, o ser todo e todo o ser que respira deve louvar a Deus (Sl 150), mas transformar o culto em uma catarse é extrapolar o seu real significado. Se a pessoa precisa de atenção na busca de soluções para a vida, deve continuar cultuando, mas diligentemente buscar aconselhamento, ajuda e apoio.
Precisamos tomar cuidado com o argumento de contextualizar ou de fugir do racionalismo e formalismo, pois quando precisamos de “acessórios” e “malabarismos de palco” que nos preparem para a adoração, talvez seja porque transformamos a adoração em entretenimento. Muitos cultos contemporâneos buscam ser atrativos como se fossem shows repletos de “aeróbica gospel”. Nisso estaria havendo algum lugar para o espírito contrito e introspectivo necessários à adoração a Deus?
Será preciso buscar o equilíbrio entre a celebração, a alegria em celebrar, a expressão corporal e emocional e a formalidade. Culto é adoração, é um presente, não às nossas emoções, sensações, instintos ou paixões, muito menos à nossa razão, mas a Deus, que ele mesmo, no fundo vai depois tocar em tudo isso, com alegria e senso na razão de viver.
Lourenço Stelio Rega é teólogo, eticista e escritor, licenciado em Filosofia, bacharel e mestre em Teologia, mestre em História da Educação e doutor em Ciências da Religião pela PUC-SP, especialista em Bioética. É professor da FABAPAR e Faculdade Teológica Sul Americana. É missionário da SEPAL.

