Quando o cristão tenta ser Deus e esquece de ser servo corre o risco de viver sobrecarregado e isso revela uma inversão sutil, mas perigosa, de papéis
Por Patrícia Esteves
É fácil admirar o líder que parece incansável, porque ele está à frente de tudo, responde a mensagens fora de hora, assume mais tarefas do que pode cumprir e raramente diz “não”. Aparentemente, esse ritmo acelerado demonstra zelo e comprometimento com o Reino. Mas, sob a superfície, o que acontece quando o servo de Deus tenta assumir as rédeas de responsabilidades que não lhe pertencem? E pior e quando negligencia justamente aquilo que Deus confiou a ele?
O problema, segundo especialista cristão Mike Sharrow, não está apenas na agenda lotada, mas numa confusão espiritual profunda, que pode ser chamada de insubordinação cósmica.
O que é insubordinação cósmica?
A expressão foi cunhada por Mike Sharrow, CEO do C12 Business Forums, uma organização de aprendizado cristão para líderes empresariais. Ele conta que a ideia surgiu durante uma viagem de negócios, em um momento de esgotamento. Para tentar entender o que o estava consumindo, Mike desenhou uma tabela dividida em duas colunas: de um lado, o que lhe causava estresse; do outro, o que lhe gerava culpa.
“Tudo sob ‘Estresse’ pertencia à soberania de Deus, Ele governa o futuro, provê recursos e supervisiona o mundo. Mas tudo sob ‘Culpa’ era minha responsabilidade pessoal, coisas que Deus havia explicitamente atribuído a mim”, afirma.
O resultado dessa constatação foi incômodo. Ele percebeu que estava tentando resolver os problemas do mundo, como a estabilidade financeira, a saúde da igreja ou o futuro dos filhos, ao mesmo tempo em que falhava em dar atenção ao que lhe era intransferível, como o relacionamento com Deus, o cuidado com a esposa e os filhos, a vida devocional e a obediência prática.
“Você já pediu a Deus para fazer o seu trabalho porque estava muito ocupado tentando fazer o trabalho Dele?”, provoca.
O peso que não nos pertence
Muitos cristãos, especialmente aqueles em posições de liderança, acabam carregando o mundo nas costas movidos por boas intenções. Mas essa disposição, quando desordenada, revela uma tentativa velada de assumir o lugar de Deus. E, como adverte Mike Sharrow, isso não é nobre. É desobediência.
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A tentativa de controlar o incontrolável, a salvação dos outros, os resultados do ministério, a provisão do amanhã, sufoca o que é prioritário, como o cultivo da fé, o serviço com alegria, a presença ativa na família. E a Bíblia explica isso Mateus 6:33, numa ordenança: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”.
Um gráfico simples
Desde que criou a chamada “Tabela T do Estresse e da Culpa”, Mike Sharrow passou a aplicá-la em mentorias com centenas de líderes cristãos. O padrão se repete, a culpa está quase sempre associada ao abandono daquilo que é íntimo, relacional e espiritual. O estresse vem do desejo de controlar o que só Deus pode conduzir.
“Quando os líderes priorizam seu relacionamento com Deus, suas famílias e seu chamado, os chamados ‘fatores de estresse’ se tornam mais administráveis”, afirma. “Os problemas não desaparecem, mas perdem o poder sobre nós à medida que aprendemos a confiar a Deus o Seu trabalho”.
O exercício é tão revelador quanto prático. Segundo Mike, é um convite à honestidade. “Pegue uma folha de papel e desenhe seu próprio gráfico T. Seja honesto. Reflita. Ore sobre ele. Depois, pergunte a si mesmo para onde você precisa mudar seu foco”, sugere.
Cultura cristã hiperativa
A cultura cristã contemporânea valoriza a produtividade. Pregar, liderar, organizar, postar, responder, estar disponível o tempo todo. Em meio a tantas demandas, silenciar para ouvir a Deus parece contraproducente. Mas talvez seja o gesto mais corajoso de um verdadeiro líder, segundo Mike.
A inversão de papéis é sutil, o servo começa a agir como se fosse o Senhor da obra. Mas, como lembra Mike, “Deus nunca nos chamou para carregar o peso do mundo. Ele nos chamou para sermos administradores fiéis do tempo, dos talentos e das oportunidades que Ele nos deu”.
Há tempo para tudo, conforme diz Eclesiastes 3. Mas não há tempo para tudo ao mesmo tempo. Discernir o que pertence a Deus e o que é nossa parte na história é um exercício espiritual constante, que exige humildade, obediência e fé. Não fé na nossa performance, mas na soberania de um Pai que sabe o que faz e espera que façamos, com fidelidade, a parte que nos cabe.

