Cristão de alto rendimento

Ser vitorioso não é sorte, é resultado de muito trabalho

* Por Larissa Vaz

Buscar diariamente técnicas e táticas de aperfeiçoamento, a fim de alcançar a excelência. Esse sem dúvida alguma é o segredo daqueles que chegaram ao topo, conquistando o título de vitoriosos naquilo em que se propuseram a fazer. E é exatamente esse alto rendimento que está sendo exigido a cada dia, e com mais intensidade, tanto no universo profissional quanto espiritual.

Centenas de artigos, livros, revistas e filmes motivacionais focam a necessidade de se produzir cada vez mais, buscar excelência, ser o melhor, o mais competitivo.
É uma premissa quase unânime no meio empresarial, sempre empenhado na busca por resultados, eficiência e inovação.

Estamos em uma competição acirrada, parece que nada do que alcançamos ainda é o suficiente. Como se já não bastassem os desafios cotidianos de sobrevivência, das pressões internas e externas, das cobranças e das nossas metas e desafios particulares.

Habilidade é conseguir colocar em prática as teorias e conceitos mentais adquiridos,
é saber fazer. Competência abrange um entendimento mais amplo, envolvendo a união e coordenação de conhecimentos, atitudes e habilidades, a fim de solucionar problemas.

Competência e habilidade são virtudes correlacionadas, atributos valorizados no mercado altamente competitivo. Mas podemos aplicar integralmente os conceitos seculares de gestão corporativa ao desenvolvimento da carreira cristã?

Partindo da premissa de que cada pessoa deve ser estimulada a descobrir e elevar suas competências e habilidades naturais, como podemos maximizar o desempenho humano?

“O alto rendimento é uma dimensão que exige esforço. Muitas vezes abrimos mão dele e queremos ter os mesmos resultados de quem se esforça” – Márcio Azevedo, autor do livro “O Cristão de Alto Rendimento”

Quais as estratégias possíveis e legítimas de serem adotadas? Quais motivações devem me mover na busca pela melhor performance? Até onde terei de ir para estar entre os primeiros?

Acredite, é possível minimizar os conflitos causados pela crescente competitividade no mercado de trabalho e pela pressão por resultados, que influenciam até mesmo o meio religioso. É o que garantem especialistas que atuam com treinamentos de pessoas, alto rendimento e pastoreio. Sim, você pode ser um vitorioso e assegurar mais eficácia e eficiência em sua vida.

Desafios do alto rendimento

Márcio Azevedo, autor do livro “O Cristão de Alto Rendimento” (Editora Fluir, 2018), faz um paralelo entre as rotinas esportiva e cristã, comparando desafios comuns e aplicando lições da vida do atleta à jornada do crente, e vice-versa. “Uma das coisas que me chamaram atenção e que foi mote para a redação deste livro é a similaridade entre a procura do alto rendimento esportivo, no qual estive inserido por 18 anos, e as características de um possível alto rendimento cristão.

Questões de renúncia, treinamento, saber lidar com derrotas que podem acontecer no percurso, no campeonato. Essa semelhança foi o que me encorajou a compartilhar um pouquinho de como nossas atitudes e ações com relação à busca do alto rendimento na vida esportiva podem ser também absorvidas na nossa vida cristã”, pontua.

Elementos como dedicação, renúncia, resignação, determinação, resiliência, dedicação e humildade são facilmente encontrados na Bíblia como propulsores da vida cristã. Paulo, por exemplo, em 1 Coríntios 9:25, diz: “E todo aquele que luta de tudo se abstém; eles o fazem para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, uma incorruptível”.

Azevedo frisa que a busca por um rendimento maior exige grande empenho, renúncia de algumas coisas para alcançar outras e força para não desistir. A palavra-chave é resiliência. “Resiliência é a capacidade de lidar com derrotas, porque elas acontecem, por mais que treinemos.

Ninguém é campeão de todos os campeonatos, ninguém chega à frente de todas as corridas. As derrotas acontecem, e devemos ser espiritualmente, no caso do cristão de elevado rendimento, e mentalmente, no caso do esportista de alto nível, fortes para não desistir.

Pode ser que a nossa opção por Cristo nos afaste de algumas pessoas que gostemos, mas que em algum momento da caminhada têm objetivos diferentes dos nossos. Saber lidar com essa situação, com essa ‘derrota’, pode nos empurrar para os objetivos de Deus em nossa vida.”

Bússola da alta performance

O foco na performance individual é alimentado por uma sociedade intensamente competitiva. Em qualquer trajetória, é essencial saber lidar com pessoas, buscando o benefício de todos. Nesse ambiente (corporativo), torna-se imprescindível ao líder estabelecer bons relacionamentos, ensina Lourenço Rega, diretor da Faculdade Teológica Batista.

“O que mais pode empoderar o ser humano do que a fé? É o princípio básico: sem fé ninguém verá a Deus. Acreditar é a chave para todo bom resultado. E isso é princípio” – Isabel Cristina Oliveira, master coach

Ele reforça a relevância dos relacionamentos humanos e de outros vínculos em uma perspectiva bíblica mais ampla: “A salvação nada mais é do que a recuperação ao estado original, abrangendo a reconquista relacional com Deus, consigo mesmo e com o próximo (Marcos 12 – os dois grandes mandamentos com três níveis de relacionamento) e também o relacionamento ambiental. O cristianismo restaura o eixo relacional, pois o seu cerne está fundado no amor.”

A alta performance não é alcançada com uma receita simples; decorre da união de vários ingredientes que levam ao resultado esperado. A master coach Isabel Oliveira aponta os três elementos que precisam ser desenvolvidos para se chegar lá.

“Primeiro, temos o autoconhecimento, que é o conhecimento de seus valores, missão, visão, propósito, traços de comportamento, pontos fortes, fracos, forças pessoais. Depois vem a autoliderança, a capacidade de comandar os processos físicos-emocionais-relacionais (crenças, comunicação, conexão, espiritualidade). Em terceiro está o autodesenvolvimento: desenvolver as competências e habilidades ganhando desempenho e performance, eliminar sabotadores, melhorar produtividade, construir planejamentos, executar plano de ação específico.”

A especialista ressalta ainda cinco princípios da Teoria da Inteligência Emocional, de Daniel Goleman, que “de forma inspiradora” norteiam o desempenho máximo. “Conhecer as emoções, gerenciar as emoções, ter automotivação, empatia e saber relacionar-se
interpessoalmente. Tudo isso, alinhado aos cuidados com o corpo e a espiritualidade, culmina em ações que certamente poderão contribuir”, aponta a treinadora comportamental.

Ao se relacionar a performance nas esferas esportiva e empresarial com o exercício do ministério cristão, avistam-se possibilidades imensas para a humanidade. Consideremos a Igreja como o sal da terra e a luz do mundo (e para isso ela foi chamada).

Se cada cristão compreender a sua vida e ministério como uma responsabilidade individual e buscar a realização do seu chamado no tempo presente, haverá um grande avanço social – uma transformação benéfica a toda a sociedade, reflete Isabel. “Se pensarmos na inovação trazida pelo pensamento dos reformadores protestantes, em que se reconheceu que a atuação nos ministérios transcende a esfera eclesiástica, elevando o exercício de cada profissão ao status de um sacerdócio ou ministério, podemos afirmar que toda perda e todo ganho no mundo corporativo têm consequências, sim, para o cristão, pois ele é o responsável por administrar todas as áreas da vida”, defende.

O melhor para o Reino

Ao imaginar as imensas possibilidades de atuação individual e coletiva da Igreja, nos animamos para motivar esse engajamento, pois há um grande exército que precisa ser despertado. Seus soldados já vestiram os uniformes, mas ainda carecem de ânimo e de uma visão precisa de sua operação.

Os tempos difíceis já começaram e talvez isso seja um propulsor para que cada um assuma o seu papel na Igreja e na sociedade.

Gustavo Buffara, administrador de empresa e pastor, também tem esse sonho: “Há tantos desafios, desigualdades, pobreza, doenças e outros problemas, que, se houvesse mais pessoas em constante busca por excelência, seja qual área for, poderíamos reduzir esses gaps (diferença ou brecha). E existem milhares de pessoas que, por buscarem uma vida como tal, tornam-se extremamente interessantes de se conviver, de se ouvir e de se trabalhar.

Um sonho que tenho é que no meio cristão no Brasil se encontrem cada vez mais pessoas assim. Isso seria muito rico para nossa cultura e poderia trazer muitos frutos para o Reino”.

É da natureza do ser humano saudável buscar a vida em suas diversas manifestações, entre elas a produtividade, expressão de suas potencialidades. Em II Pedro 3:18, lemos: “Antes crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”.

O crescimento é esperado e natural. Estranho é não crescer, não se aprimorar, não aprender, não buscar saídas. Percebemos nesse versículo a ênfase no conhecimento do próprio Senhor, experiência fundante do genuíno cristianismo. Devemos conhecer por experiência, pela oração, pela comunhão com Ele mesmo, pela vida diária, buscando-O em todos os caminhos. Sem ele, o conhecimento do Salvador, e sem Ele, o próprio Salvador, todo esforço não passa de ativismo inútil.

Qualquer vida de alto rendimento se dá somente diante do respeito por alguns princípios, como o da semeadura e da colheita. Grandes investimentos geram grandes resultados. “O alto rendimento é uma dimensão que exige esforço. Muitas vezes abrimos mão dele e queremos ter os mesmos resultados de quem se esforça”, alerta Márcio Azevedo.

O esforço pela produtividade máxima nesse sentido é um alvo que deve existir na vida de todo cristão. O mérito nosso não é aquilo que produzimos, mas a capacidade de se entregar àquilo que Ele quer fazer em nossas vidas. “A grande verdade é que, se Deus não estiver na direção de todas as coisas, não temos a menor chance, mas somos capazes de evoluir e também de melhorar o nosso relacionamento com Ele, através de atitudes, ações que demonstrem esta escolha por segui-lO”, enfatiza Azevedo.

Paulo diz claramente que não somente o que ele era (como pessoa) ou o que produzia no Reino eram consequências da ação da graça de Deus em sua vida (I Coríntios 15:10). Para que esse rendimento não caia no ativismo, todo empenho deve nascer de uma vida transformada e entregue ao Reino, para que o Pai mesmo imprima o Seu ritmo,
as Suas demandas e o Seu modo de operar.

Nem sempre o agir é a palavra de ordem. É imperioso entender que às vezes, conforme o momento em que estamos e a instrução que dEle recebemos, devemos ficar simplesmente parados, aguardando a Sua orientação, em observação (2 Crônicas 20:17; Eclesiastes 3:1-8). Há tempo para todas as coisas, tempo de agir, tempo de aguardar. As situações da vida mudam e também a maneira como atuaremos diante dos diferentes desafios que surgirem.

A razão para tudo isso é muito simples – não estamos construindo o nosso próprio reino, então o ritmo, a orientação, a capacidade produtiva, o modo, tudo vem dEle. A melhor das intenções de progredir, de avançar, de melhorar, de superar-se pode produzir culpa.

O nosso objetivo central não é produzir, mas obedecer ao nosso Senhor e trabalhar em Seu Reino, para fazer a Sua vontade. Não há dúvida de que em tudo o que ocorre em nossas vidas há um misto de ações divina e humana. Cabe a Deus agir e a nós, ouvir e sujeitar-nos.

No entanto, a despeito da importância de aumentar a produtividade, o foco é a transformação, e não a produção. A produção é a consequência de estarmos saudáveis espiritualmente e capazes de gerar os frutos que O agradam. Aquele que foi transformado e enxertado na videira verdadeira produzirá os frutos esperados.

O ramo não pode produzir fruto de si mesmo (João 15:4), e toda produção que não vem dessa fonte verdadeira, não tem valor algum (1 Coríntios 3:15 e 16). A verdadeira produtividade, no sentido bíblico, diz respeito à transformação diária a que nos sujeitamos (2 Coríntios 3:18). Somente a partir dessa transformação, toda boa obra faz sentido. O impulso que nos conduz é tão ou mais importante que aquilo que produzimos, pois baliza tudo o que somos e fazemos (1 Coríntios 3:15). A árvore produz daquilo que é, na sua essência.

Todos os bons frutos só podem nascer de uma boa árvore (Mateus 7:16-23). Os bons frutos vêm a seu tempo, quando o ramo está enxertado na videira verdadeira (João 5:1-5).
Nossas maiores fontes de inspiração motivacional são um homem e um livro. Ao longo dos tempos têm sido comprovados e reconhecidos como tal. “Jesus Cristo, o maior conhecedor da humanidade, dado que esteve no mundo como um homem que nos mostrou como liderar, relacionar-se e fazer um trabalho de impacto nos indivíduos, famílias e sociedades. Uma fonte inesgotável de referências sobre como liderar e motivar pessoas.

E a Bíblia, que, inclusive de forma intencional ou não, é por diversas vezes replicada em livros de administração, liderança e motivacionais”, destaca Gustavo B. Entre tantas teorias e fatores impulsionadores, corremos o risco de nos perder, sem saber qual é, afinal, a base de toda motivação que move o mundo. Qual é o princípio motivador do ser humano? Isabel Cristina responde: “O que mais pode empoderar o ser humano do que a fé? É o princípio básico: sem fé ninguém verá a Deus. Acreditar é a chave para todo bom resultado. E isso é princípio”.


Dicas de leitura

O Cristão de Alto Rendimento
Márcio Azevedo

 

 

 

 

 

Celebração da Disciplina
Richard J. Foster

 

 

 

 

 

A Arte de Fazer Acontecer
David Allen

 

 

 

 

 

Faça Mais e Melhor – Um Guia prático para
a Produtividade 

Tim Challies

 

 

 

 


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