Cristão, cidadão de duas pátrias

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Ser cristão é se envolver e zelar com cidadania e ética por toda a Criação de Deus. 

É com este tema que a Comunhão chama a atenção para o papel do cristão na sociedade contemporânea, tendo em mente o exercício da dupla cidadania presenteada por Deus àqueles que Nele creem: a terrena e a celestial, conforme descreveu o apóstolo Paulo em Filipenses 3:20.

Um breve passeio pela história nacional mostra que até 1993 os currículos das escolas continham as disciplinas Educação Moral e Cívica (EMC) e Organização Social e Política do Brasil (OSPB), responsáveis por transmitir conceitos fundamentais para o desenvolvimento da nação e a vida organizada em sociedade. A matéria apresentava aos jovens temas variados relacionados ao civismo, conhecimento da organização social e política do Estado brasileiro e noções de moral, ética e urbanidade. Alguns autores de livros didáticos incluíam também assuntos como o combate à pobreza, a proteção ao meio ambiente e aos direitos humanos.

A esta altura você, leitor, deve estar se perguntando o que isto tudo tem a ver com os cristãos? Muito! Afinal, estes mesmos valores devem ser intrínsecos à vida de cada cristão, como defende o maior tratado já escrito sobre o assunto e seguido até os dias de hoje: a Bíblia. E aqui cabe uma curiosidade interessante: uma boa parcela dos livros de EMC e OSPB destacava a moral religiosa, reforçando a noção de civilidade com fundamentos bíblicos. Quem diria!

Os que estudaram naquela época certamente não se esqueceram dos conceitos básicos transmitidos por aquelas disciplinas, que por posicionamentos políticos (foram consideradas instrumento de divulgação do governo militar da época) foram banidas das grades curriculares do Brasil, deixando assim apenas a cargo das famílias e igrejas ensinarem a moral e os bons costumes – e reforçando ainda mais a grande responsabilidade dos cristãos de serem “sal e luz” em um mundo hedonista e materialista, onde os conceitos de civilidade vão sendo deixados de lado dia após dia.

Mas será que as igrejas atentaram para o assunto? E as famílias? Será que ambas estão formando cidadãos sociáveis e responsáveis? A resposta deveria ser afirmativa, porém, na análise do pastor Sillas do Santos Vieira, da Igreja Batista em Santo Antônio, há hoje uma visão equivocada de um Evangelho que não dá vida às ações por um mundo menos injusto, menos desigual, de oportunidades para todos, de distribuição de riquezas, de acesso universal à saúde, à educação, à moradia, ao saneamento básico, ao transporte coletivo de qualidade, de combate à poluição em todas as suas dimensões, pela qualidade de vida, pela sustentabilidade do planeta Terra, que Deus deu ao homem para morar e cuidar (Gn 2).

“Esta agenda está restrita às atividades ditas ‘espirituais’, como reuniões de oração, estudo bíblico, de jovens, de senhoras, de louvor, de comunhão intramuros, em função de uma visão restrita e particularizada do que são o Evangelho e o Reino de Deus. Lutar por esses ideais parece ser ocupação de outros grupos, e não de cristãos comprometidos com o Reino de Deus e cidadãos engajados na transformação do mundo, sal e luz da terra. Estamos, em geral, em busca muito mais das riquezas do Reino do que da justiça do Reino. Falta-nos o Evangelho integral e, em decorrência, uma missão e ação integral no mundo”, pontuou.

O pastor Washington Viana, da Primeira Igreja Batista de Bento Ferreira, destaca que infelizmente há um esquecimento dentro do Cristianismo de que sua função primária é a inserção, o envolvimento, a participação. Enfatiza que ser cristão é ser cidadão, é ter e exercer civilidade; e lembra que pregações modernas, que deram ênfase a partes da Bíblia como: “nossa pátria está no céu” ou “não somos do mundo”, criaram em muitas mentes a falsa idéia de que os cristãos não têm compromissos e responsabilidade direta com a sociedade civil e suas organizações nas diversas esferas.

“É como se disséssemos: ‘não sou daqui, logo posso jogar papel na rua’; ou, ‘é mais importante participar da reunião para discutir a cor do templo do que da associação de moradores para tratar de assuntos como o esgotamento sanitário na comunidade’. Creio que não era essa a intenção de muitos pregadores, e muito menos dos textos bíblicos, mas acaba por ser a prática. Basta contarmos quantos cristãos comprometidos temos em uma e outra dessas reuniões. Estou convicto de que o Cristianismo só se expressa em sua totalidade por meio de um posicionamento direto para com as normas que regem as relações civis”. O pastor Washington destaca que Cristo ensinou em diversos momentos com sua própria vivência. “‘Dai a César o que é de César’ é uma orientação direta a cada cristão para que cumpra seus deveres na sociedade, ainda que esta seja injusta”.

Cidadão sustentável

Sendo detentor de todas as coisas, Deus deu uma ordem, ainda no Éden, ao ser humano: que cuidasse da Terra, que fosse mordomo da criação. Esta é uma das mais importantes missões destinadas por Deus aos homens. Tudo vem dEle, como sabem os crentes e afirma a Bíblia: “… pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais” (At 17.25a).
O conceito de mordomia traz ao crente a responsabilidade de trabalhar, como cidadão do céu e da Terra, de maneira sustentável aquilo que Deus confiou às suas mãos. Para o pastor João Carlos Marins, da Igreja Filadelfia, a ideia de mordomia está ligada à de cultivo. “Na concepção bíblica, Deus incumbiu o homem do cultivo do meio ambiente em que vive. E cultivar, no sentido amplo da palavra, vem de guardar a Terra; é muito mais que plantar, é cuidar do meio em que vivemos”, destacou.

Marins frisa que sustentabilidade tem que ser muito mais que uma simples filosofia: precisa ser sim um modo de vida. “Creio que a sustentabilidade vem do pessoal. Se pessoa cuida de sua saúde, de sua aparência, ela vai cuidar do todo. Muitos acham que crente não polui, mas o que vemos não é isso. Vejo no final dos cultos muitos papeis de bala e plástico pelo chão. São resquícios de valores errados que se refletem dentro da igreja”.

Marins destaca ainda que em Gênesis 2:15 há a ordem de Deus para guardar o jardim (“Tomou, pois, o Senhor Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para cuidar dele e cultivá-lo”). “Ele nos ordena sermos cidadãos sustentáveis. Devemos zelar pela segurança, pelo meio ambiente, pela saúde, pelo bem-estar comum, pelo próximo. Ser sustentável não é seguir um programa, mas sim um modo de ver e viver a vida. Do meu ponto de vista, a sustentabilidade é firmada sobre dois pilares: pessoas e planeta; o resto são meios no caminho. Cada um deve fazer a sua parte e ter em sua consciência o pensamento de que deve cuidar daquilo que Deus deu para cuidarmos”.

O bom mordomo deve demonstrar amor ao seu Senhor, obedecendo-lhe em suas recomendações sobre como cuidar do mundo ao seu redor. Afinal, o amor a Deus está diretamente ligado ao amor ao próximo (Lc 10.27; 1Jo 4.20).

Fazer brilhar a luz de Cristo

Em Mateus 5:16, Jesus exorta os discípulos: “Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus”. Jesus orienta aos seus discípulos que façam a diferença e que suas ações sirvam de testemunho para esta nação. Aurélio Agostinho, conhecido pelos teólogos como Santo Agostinho, ao comentar este versículo afirma que tudo deve ser feito pela glória de Deus, dizendo: “O motivo de agradar aos homens seja para que eles glorifiquem a Deus”.

Agostinho chegou à fé passando por uma experiência religiosa dramática. Após a conversão, como aconteceu com Paulo, ele se tornou um poderoso articulador do Cristianismo, e sua influência perdura até hoje. Agostinho escreveu um dos maiores tratados da ética cristã tendo como base o amor de Deus.

Assim como ele, outros importantes pensadores escreveram seu nome na história cristã, como Tomás de Aquino. Enquanto Agostinho estabeleceu pauta para a discussão ética, Aquino desenvolveu a ética como um objetivo de vida. Além deles houve John Wesley, que lutou pelos direitos trabalhistas no século XVIII na Inglaterra, pregando para operários em praças e salões. Também William Wilbeforce, logo após sua conversão, iniciou luta incansável por reformas sociais e contra a escravidão na mesma Inglaterra. Martin Luther King Jr., pastor batista, que se envolveu diretamente no combate ao racismo nos EUA na década de 60 do século passado. Calvino dedicou escritos a considerações sobre o governo civil. E não se pode esquecer de Martinho Lutero, o iniciador da Reforma Protestante, para quem a vontade de Deus é que o homem humildemente reconheça a sua natureza pecaminosa.

Histórias que brilharam, foram fundamentais para iluminar o pensamento cristão contemporâneo e devem ser seguidas pela Igreja e seu corpo a fim de fazer a diferença tendo como base o maior livro de Educação Moral e Cívica da atualidade, a Bíblia.

Cabe aos crentes em Jesus desempenharem o papel de cidadãos integrais, terrenos e celestiais, inserindo-se na sociedade de forma a cumprir o mandamento de “amar o próximo”. E isto se faz com gestos simples, passados de pai para filho, que vão desde respeitar as regras de trânsito, dar lugar aos idosos no ônibus, dizer bom-dia ou plantar uma árvore, até os gestos mais incisivos, como votar consciente ou candidatar-se a um cargo público. A partir deste entendimento amplo, cada crente será realmente “um cidadão de duas pátrias”, com passaporte lavrado e carimbado por Deus. Portanto, hajam como cidadãos dos céus exercendo plenamente a sua cidadania na Terra e escrevam de vez seus nomes na história dos que fizeram a diferença na família, na comunidade e na nação.

A Bíblia, o manual de Educação Moral e Cívica do cristão, mostra claramente o seguinte:

  1. A pátria do cristão é o céu, mas todos têm uma cidadania na Terra (At. 16.37; At 22.27-28 e Fp: 3.20)
  2. Como cidadãos, devem apoiar a justiça, rejeitar a violência e lutar contra a pobreza (Jr 22.3 e Am 5.11-12. Mc 10.21, MT 23.14 e Gl 2.10)
  3. Devem exercer um papel preponderante orando pelas autoridades terrenas (1 Tm 2.1-3)
  4. Devem sujeitar-se às autoridades (Rm 13.1 e 1 Pe 2.13-14)
  5. É cabível a desobediência civil por parte dos evangélicos quando o Governo for contrário àquilo que é ordenado por Deus (Em At 4.18-31 e 5.29 vemos afirmações e situações apresentadas pelos apóstolos que evidenciam de forma contundente que a nós compete primeiro obedecer ao que Deus determina. Na história da igreja, temos o testemunho do sangue dos mártires para nos incentivar a sermos firmes neste sentido.)
  6. Os crentes têm que ser corretos no pagamento dos impostos (MT 22.15-21 e Rm 13.6)
  7. O crente pode exercer cargo político (Dn 4.27 e 6.1-5).

Fonte: pastor Paulo Afonso Castelo

Saiba mais:
Ética cristã (Norman Geisler – Editora Vida Nova)
O livro pretende fornecer aos cristãos fundamentos bíblicos para responder a questões frequentes e complexas que permeiam a sociedade atual.

A busca da Moral (Stanaley Grenz – Editora Vida)
O que é ética? Por que os cristãos devem se preocupar com ela? A obra apresenta a teologia ética de personalidades como Agostinho, Tomás de Aquino, Lutero e outros.

A MATÉRIA ACIMA É UMA REPUBLICAÇÃO DA REVISTA COMUNHÃO. FATOS, COMENTÁRIOS E OPINIÕES CONTIDOS NO TEXTO SE REFEREM À ÉPOCA EM QUE A MATÉRIA FOI ESCRITA.


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