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Solidão dos filhos tem incentivado a busca na internet por conteúdos prejudiciais à saúde mental e física. Muitos deles levam até mesmo à morte.

*Por Priscilla Cerqueira

Uma pesquisa realizada em Israel, em março de 2017 pelo professor Amos Rolider, apontou que os pais dedicam apenas 14 minutos e meio por dia a suas crianças, uma queda alarmante se comparada há 20 anos, em que disponibilizavam duas horas por dia.

Os dados são preocupantes, já que os pais deveriam desempenhar a tarefa de cuidar de seus descendentes e passar valores para eles. Mas o excesso de trabalho têm deixado os pais mais atarefados e o resultado disso são filhos mais soltos, fazendo o que querem.

Em apenas um clique, crianças e jovens tem acesso a um mundo de informações pela internet. Muitos pais deixam seus filhos se conectarem ao mundo virtual oferecendo-lhes até Notebook e tablet sem acompanhamento e restrições. No livro “Pais ausentes, filhos online”, o autor Ivan Lima de Azevedo diz que o perigo está na não fiscalização do que os filhos estão fazendo no ambiente digital. É aí que surgem os problemas.

O pastor Paulo Lima, do Ministério Família Debaixo da Graça, em Bragança Paulista (SP) trabalha há 22 anos com aconselhamento de pessoas com problemas familiares. Segundo ele, os filhos tem se queixado da ausência dos pais, por isso, o relacionamento entre ambos fica comprometido, “pois não tem interação, nem amizade e nem cumplicidade”, explicou.

A ausência dos pais pode trazer consequências desastrosas. “Como eles não estão acessando o coração dos seus filhos em compaixão e afetividade, os filhos tornam-se reféns de acessarem à informações que em grande parte é lixo emocional”, alegou.

Há cerca de dois meses, um fenômeno da internet se espalhou pelas redes sociais. Trata-se do WhatsApp da Momo. O número seria o de um usuário com uma aparência perturbadora, de olhos esbugalhados e um sorriso assustador, que conversaria com aqueles que o adicionassem a seus contatos.

Segundo relatos, um contato envia mensagens para o celular com desafios dos mais variados, que podem chegar ao pedido de sufocamento e até mesmo ao suicídio. Muitos comparam esta nova personagem à Baleia Azul, que já levou vários jovens à morte, em 2017. A Momo rouba dados dos usuários e faz desafios violentos na internet. O perfil se tornou um assunto sério e tem tirado o sossego dos pais, aterrorizando as famílias.

Casos e relatos

“Quase perdi meu filho por causa de um jogo chamado Momo”. Essa foi a declaração da servidora pública Halla Cristina, de Porto Velho, Rondônia, ao relatar uma situação que viveu com o filho de 8 anos depois que ele assistiu a boneca Momo na internet. Ela gravou um vídeo emocionada e publicou em sua conta no facebook.

“Meu filho estava na sala assistindo a um vídeo que o ensinava como se matar. Eles propagam a violência, a desobediência e até o suicídio. E a Momo ensina as crianças também a se agredirem, xingarem e desrespeitarem os pais. Meu filho chegou a destruir várias coisas dentro de casa”, desabafou.

Ellen Cristina Hashimoto. Foto: Arquivo pessoal

Há cerca de três meses, a “Momo” também aterrorizou a família da corretora de seguros, Ellen Cristina Hashimoto, de Contagem (MG).

A filha Caroline Hashimoto Coimbra, de 8 anos, foi vítima de bulling na escola ao ser chamada de “boneca momo” pelos colegas. Os pais só se deram conta da gravidade da situação ao serem chamados na escola.

“Ficamos surpresos e assustados ao sabermos da professora que nossa filha estava agressiva, desatenta, desinteressada e apresentava dificuldades na escola. Um relatório apontou atitudes estranhas que não eram comuns na Caroline. Levamos no psicólogo e com algumas conversas descobrimos que ela sofria de bulling, era chamada de burra e ainda ganhou o apelido de momo”, contou Ellen.

Segundo a corretora, a filha tinha um celular e participava de um grupo de WatsAap da turma da escola. “E foi no grupo dela que peguei todas as mensagens que os colegas enviavam. Eles usavam a imagem da boneca para assustar e fazer bulling com a menina. Nós não percebíamos nada pois ela apagava as mensagens e tinha medo de nos contar. A agressividade foi uma tentativa de defesa. O problema é que isso afetou a autoestima e o desenvolvimento dela”, relatou.

Até mesmo famílias cristãs tem sido bombardeadas com essa situação. A dona de casa Eliana de Jesus Silva Cruz, 50 anos, da Igreja Assembleia de Deus, em Itajubá (MG) conta que o neto, Miguel da Cruz, 6, viu a foto da momo no celular e ficou assustado. Há três meses a criança não é mais a mesma.

“Ele não dorme, parou de alimentar, não toma banho sozinho, tem medo de tudo e só fala no monstro, tivemos que procurar ajuda de um profissional”, contou a avó, que aconselhou: “precisamos orar e vigiar nossos filhos o tempo todo, pois nossas eles são indefesos, além disso, evitar o celular que está destruindo as famílias”.

Exemplos dos estragos que a “Momo” está fazendo nas famílias são grandes, preocupantes e graves. No final de agosto, um menino de nove anos foi encontrado enforcado no quintal de casa, em Recife (PE). A família disse em depoimento à polícia que o filho foi influenciado pelo jogo da Momo.

Pastor Rondinelli Palhares. Foto: Arquivo pessoal

“Nossos filhos, na base de sua formação passam o dia todo na escola e a noite, quando chegam em casa, os pais estão cansados demais para dar atenção, para sentar no chão, conversar, brincar. O que fazem? Entregam o celular como uma forma discreta de dizer: Me deixe em paz. E pronto.

Cada um fica no seu mundo enquanto a criança tem acesso à rede mundial de informações que num instante ensina algo útil, mas por outro, algo muito depreciativo”, exortou o pastor Rondinelli Palhares, da Comunidade Cristã Videira, em Fortaleza (CE)

A psicóloga Mônica Cardoso, da Igreja Adventista do Sétimo Dia, em Nova Iguaçu no Rio de Janeiro diz que crianças e adolescentes são muito suscetíveis, algo comum para essa fase da vida porque elas procuram com quem se identificar e estão em aprendizado constante. Segundo ela, esse “jogo” explora esse lado delas através dos desafios e o resultado disso pode ser fatal.

Psicóloga Mônica Cardoso. Foto: Arquivo pessoal

“Elas podem querer tirar a própria vida, além de outros traumas físicos e psicológicos.

Nesse caso, uma criança que por algum motivo estiver emocionalmente fragilizada pode ser influenciada por sugestões negativas de autodestruição, decidindo cumprir os desafios do jogo para extravasar suas emoções, podendo chamar atenção dos pais ou colegas, etc”, explicou.

Mônica observa o número de suicídios que tem aumentado no Brasil nos últimos dois anos, sendo significativo na população infantil. Ela integra um grupo interdenominacional de cerca de 20 psicólogos no Rio, que promove palestras em igrejas e instituições no sentido de prevenção.

O grupo funciona como um suporte de escuta diferenciada para quem precisa ser ouvido de suas angústias. Segundo ela, o vício em jogos na internet, por exemplo, facilita o isolamento social da criança e acaba atraindo pensamentos negativos e no caso da Momo, até de morte.

“É muito preocupante a quantidade de pessoas querendo tirar a própria vida e esse assunto ainda é um tabu, inclusive dentro das Igrejas Evangélicas. Os jovens estão perdidos por que não conseguem sentir o amor de Deus. O caminho para evitar isso ainda é a prevenção, a conversa. A espiritualidade é individual mas as crianças não são ensinadas pelos seus pais através do culto doméstico, o que é um agravante”, concluiu.

Evitando o mal

O principal caminho para evitar esse mal, segundo a psicóloga e ativista social, Marisa Lobo, da Igreja Batista de Bacacheri, em Curitiba (PR), é o diálogo, aliado a correção com limites e regras em casa. A proximidade dos pais com os filhos faz com que os mesmos se sintam seguros, acolhidos e confiantes na vida familiar.

Psicóloga Marisa Lobo. Foto: Reprodução

“Com esse ambiente de confiança e respeito criado, os pais devem conversar abertamente com os filhos sobre tudo, alertando sobre os perigos da internet e de jogos como esse, sempre dando a oportunidade para eles se expressarem na conversa.

De modo geral, os filhos querem ser ouvidos e desejam receber atenção dos pais, quando isso acontece é o momento certo de orientar”, explicou.

A maneira como os pais vivenciam a fé em Deus é algo crucial para a saúde emocional dos filhos. “Testemunhar diariamente o Evangelho no ambiente familiar, por exemplo, através de cultos domésticos e devocionais em família é muito importante”, acrescentou.

Além dos pais, a Igreja também pode fazer a parte dela, principalmente quando a família é desestruturada, os pais são ausentes ou são presentes, mas com problemas de ordem emocional, conjugal, financeira, etc.

“A presença da instituição religiosa acontece através do culto nos lares, ou através de seminários, capacitações para líderes, palestras de conscientização sobre a relação entre pais e filhos. A igreja deve acompanhar de perto, incluindo as famílias em programas específicos que visam dar suporte e fortalecer a relação com Deus. Esse é um trabalho de base preventivo”, esclareceu.

A escola é o terceiro ambiente mais importante para a criança que está em formação. “Assim como a igreja deve atuar promovendo ações preventivas focadas na família, a escola também pode explorar isso, mas com ênfase no aluno. É possível, por exemplo, criar atividades de conscientização sobre os perigos e consequências do mau uso da internet, através de oficinas, trabalhos de arte, roda de debate entre os estudantes com a mediação do professor. Isso tudo da forma mais lúdica possível, utilizando recursos audiovisuais e interativos”, concluiu.

Ensino bíblico

Alertar os pais e orientar os alunos sobre a gravidade da situação é importante, mas o ensino escolar pautado em princípios bíblicos também pode ajudar na disseminação desse mal. A doutoranda em Ciências da Educação, Ana Paula Hashimoto trabalha há sete anos em uma escola infantil em Vitória (ES) que desenvolve uma metodologia de ensino baseada em princípios cristãos.

“Nossa proposta pedagógica é pautada nos ensinos que Jesus nos deixou como amor, carinho, respeito. Buscamos extrair os princípios transformadores de sua prática educativa inserindo-os na educação escolar“, explicou.

Pedagoga Ana Paula Hashimoto. Foto: Renato Cabrini

Quanto ao uso do aparelho de celular, Ana Paula ressalta que é preciso haver limites, não que seja proibido.

“O que está faltando é estabelecer horários para o uso deles e neste período supervisionar onde estão entrando, o que estão vendo e até se não estão conversando com alguém.

Precisamos orientar e demonstrar o que deve ser explorado nestes aparelhos, já que os conteúdos são diversificados e podem trazer malefícios”, orienta.

A boneca veio para destruir as famílias. “Pais e educadores precisam ficar atentos a quaisquer sinais que as crianças apresentem. A atenção às crianças é fundamental. A palavra de Deus retira algumas escamas dos olhos, mas devemos ficar atentos, pois nenhuma criança está imune dos ataques externos, cabe aos pais, a família, a igreja e até mesmo a escola estarem orando pela vida das crianças”, disse.

Apesar do esforço da escola na educação, a principal responsabilidade de ensinar as crianças, mesmo no mundo pós moderno, pertencem aos pais. São deles os ensinamentos essenciais como cuidar de si mesmo, como se comportar, como se relacionar com outras pessoas. “O ensino mais importante que os pais podem dar é sobre Deus e isso se começa bem de pequeno”, afirma Ana Paula, que também é pedagoga.

O sábio conselho de Salomão aos pais é: “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele” (Provérbios 22:6). Criar e treinar uma criança dentro do contexto deste provérbio significa que o ensino começa com a Bíblia, pois “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (2 Timóteo 3:16).

“Ensinar o caminho é dizer onde está a direção, ensinar no caminho é dizer ‘vamos juntos’, é estar presente, é acompanhar, estar sempre por perto, é demonstrar apoio e confiança, formando uma base sólida para que o futuro adulto não se sinta impelido a acreditar em um maldito “jogo de morte’”, afirma o pastor Rondinelli.

Por isso é tão importante o acompanhamento dos pais. “Enquanto alguns julgam não ter tempo para estar no caminho com seus filhos, outros estão tão presentes que os filhos não terão tempo para desperdiçar com ‘joguinhos de internet’”, conclui.

Depois de viver um susto e entender a gravidade da situação, Halla Cristina fez um alerta: “A internet está aí para destruir as pessoas, por isso, pais, acompanhem seus filhos. Vejo mães reclamando que o aprendizado do filho diminuiu, mas é que a gente deixa o celular na mão deles achando que vai minimizar a inquietação, e isso é um erro. Estou aqui para dizer que errei, por isso, mães, fiquem atentas, isso é muito sério e pode custar a vida!”

Como surgiu a Momo

Foto: Reprodução

Momo” é, na verdade, uma escultura feita em 2016 e exposta na mostra “Ghost”, da Vanilla Gallery, em Tóquio, no Japão. Ela representa uma “mulher-pássaro”, seguindo uma linha de arte alternativa que une o grotesco e o erótico, muito usada nessa galeria japonesa.

O dono do lugar, Tatsumi Naito, abriu o salão de arte em 2003 e é responsável por outros estabelecimentos em Tóquio com propostas semelhantes, como um bar temático de terror.

Visitantes da galeria de arte começaram a viralizar imagens da inusitada obra na internet, e vários youtubers da América Latina passaram a fazer vídeos sobre a lenda, mostrando a imagem da escultura. Não demorou para que começassem a circular números de telefone, com perfis que usavam o nome “Momo” e a foto da boneca.


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