Crente: Como é ser uma nova criatura?

Nem todos que professam ser cristão experimentaram a verdadeira conversão. Nem todos se dispõem a cortar na própria carne. Nem todos são crentes

Por Lília Barros

“Fulano é crente? Nem parece.” Esse tipo de comentário demonstra que, se a transformação espiritual não se refletir na vontade (e ação) de modificar atitudes e hábitos, de nada adianta professar uma fé. Sabe aquela pessoa que, se não falar que é crente, ninguém acredita? Na sala de aula, no ambiente de trabalho, na vizinhança e no círculo de amizade, poucos são os convertidos que respondem ao chamado de Deus para dar frutos de boas obras.

Muito menos estão dispostos a “cortarem na própria carne”, como diz o jargão usado para exemplificar medidas duras para corrigir os próprios atos. Afinal, quando o comportamento não reflete a fé, alguma coisa está errada.

O que está acontecendo com as conversões? Há um padrão que meça a credibilidade dessa experiência pessoal? Qual a participação humana nesse processo? Somos convertidos mesmo? Não se converte mais como nos tempos de Zaqueu e de Paulo? Existe um jeito certo de se converter?

Não foi à toa que Jesus contou uma das histórias mais fortes e conhecidas: a parábola do joio (Mt 13:24-30). Não é tarefa fácil separar o crente verdadeiro do falso, mas o que é capaz de abrir mão de práticas antigas pelo prazer de ter algo mais valioso oferecido pelo Evangelho certamente passou pelo processo da conversão.

Os efeitos são transformadores na vida de quem encontrou o novo caminho e viveu uma surpreendente conversão. Ou pelo menos deveria, já que se alguém está em Cristo, é nova criação.

As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas (II Co 5:17). Além de bíblico, é senso comum que esse fenômeno espiritual precisa estar acompanhado de uma remodelação no cotidiano. As características do crente autêntico não são externas.

“Frequentei instituições para me libertar dos vícios, mas a libertação veio com a Palavra de Deus”
José Maximiano Gomes, da Igreja Batista Boa Vista, em Vila Velha (ES)

São aquelas que refletem o caráter a partir da mudança de mentalidade (metanoia). O pastor Sebastião Vieira de Almeida, da Igreja Batista em Nova Canaã, Viana (ES), explica que essa metanoia, palavra grega cujo significado é “arrependimento”, é o impulsionador da mudança de caráter. Tal transformação somente pode ser influenciada pelo “agir do Espírito Santo na vida de uma pessoa, que a leva a um novo estilo de vida”.

“Os compromissos, prioridades e projetos/planos passam a ocupar um outro lugar na vida. Não que a proposta seja a anulação da pessoa, o que muda são os objetivos a serem alcançados. O namoro passa a ter outros critérios, o linguajar assume uma nova formatação. Lembrando que tudo isso pode se dar de maneira radical ou gradativa”, completa o pastor.

Como se converter?

O pastor Sebastião assegura que, à luz do texto bíblico, não há uma forma específica de se converter: “O vento sopra onde quer. Você o escuta, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todos os nascidos do Espírito.

A única maneira de se converter é o próprio Deus indo ao seu encontro e se revelando a você, por meio de Jesus, de modo inconfundível, não importam a cultura, a época, o local”.
A professora Vera Lúcia de Souza, membro da Igreja Assembleia de Deus, em São Paulo, vivenciou a experiência da metanoia. “Deixei a idolatria, o espiritismo, a prostituição, amizades e festas inadequadas para um cristão. Troquei pela nova vida em Cristo, e o Espírito Santo me capacitou a vencer as tentações”, garante.

“Entra na minha casa, entra na minha vida. Mexe com minha estrutura, porque o Senhor é meu bem maior”  – Regis Danese, parte da música “Faz Um Milagre em Mim”

O único jeito de vencer as fraquezas da carne que sufocam os frutos de uma conversão genuína é com a ajuda do Espírito Santo. “Eu vos exorto: deixai-vos sempre guiar pelo Espírito, e nunca satisfaçais o que deseja a vida carnal. Pois o que a carne deseja é contra o Espírito e o que o Espírito deseja é contra a carne” (Gl 5:16-17).

Paulo vivia esse conflito e externou sua incapacidade: “O bem que quero, este não faço; e o mal que não quero, este faço”.

A tradução da palavra “ajuda” (ou assiste) no original grego é “sunantilambanomai”, que quer dizer “pegar firme contra algo, juntamente com”. É pegar a outra ponta do peso, como uma sociedade. Uma ação de parceria entre Deus e o ser humano. “Porque, se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis” (Rm 8:13).

De corpo, alma e mente

Essa parceria divina com o novo crente promove uma modificação para ser vivida não apenas dentro da igreja. Acontece no coração e alcança o modo de pensar, sentir e agir. Um processo que surte efeito no cotidiano das pessoas, seja no ambiente de trabalho, seja em casa, seja na hora de fazer e executar planos e sonhos.

“Ocorre uma mudança de mentalidade (metanoia), palavra grega que significa ‘arrependimento’, ‘mudança de caráter’”
Sebastião Vieira de Almeida, pastor da Igreja Batista em Viana (ES)

Reverendo da Igreja Presbiteriana do Brasil em Itajubá (MG), Ephrain Santos de Oliveira exemplifica a conversão genuína, que se estende para a agenda pessoal, escolhas, prazeres e propósitos de vida. “Na noite de 31 de dezembro de 1960, fui abalado até os alicerces de minha personalidade com a mensagem gloriosa do Evangelho”, descreve.

As mudanças começaram, e Ephrain tornou-se um pastor consciente de suas responsabilidades seculares. “Éramos não somente o pastor nas quatro paredes e dos lares crentes, mas também amplificadores das obrigações em favor das cidades mineiras.

Envolvemo-nos com vários segmentos sociais e voluntários como associação de bairros, educandários (atividades cívicas, culturais e religiosas, sem remuneração) e capelania hospitalar e em cadeias públicas, clubes de serviço como Rotary e Lyons, visitação aos lares, núcleos e instituições carentes (creches, asilos ou fundação geriátrica, casas de recuperação), Apae, Febem, Funabem e outros.”

As Escrituras não permitem afirmar se a conversão tem de ser deste ou daquele jeito. Mas essa remodelação de vida precisa acontecer naturalmente. Fazer força para ser diferente ou mudar as práticas do dia a dia a contragosto, sob pressão ou constrangido, não caracteriza mudança de comportamento.

“Os prazeres menores vão cedendo às preferências maiores e sendo substituídos naturalmente. Cada sol que vejo é mais um dia em que Deus me ajeita, e o mais doido foi ver que, a cada passo que eu dava, Deus mudava meu caráter, sentimentos e interesses. A conversão acontece quando o homem percebe seu estado de depravação, sujeira e imundice e passa por uma transformação, pois seus olhos e ouvidos são abertos.

Quando contei para meus amigos, disseram que não ficaria nem três meses, outros foram mais ousados e disseram que isso era ‘zoeira’”, conta o estudante Matheus Langâmer dos Santos, da Igreja Presbiteriana do Brasil, de Vitória (ES).

Há 30 anos, José Maximiano Gomes, da Igreja Batista Boa Vista, em Vila Velha (ES), decidiu “cortar na própria carne”. “Frequentei instituições para me libertar dos vícios, mas a libertação veio com a Palavra de Deus. E o desejo de usar drogas, de beber, foi ficando para trás, porque eu via um horizonte mais claro a cada dia; as misericórdias de Deus realmente se renovam.

A mente e o coração de um convertido passam por uma mudança muito grande, a vida espiritual é o que realmente importa: leitura, estudo da Bíblia e oração passam a fazer parte da nossa vida, o que é fundamento da fé cristã. Hoje, gosto muito de ter contato com pessoas com dependência química para ajudá-las a sair do vício”, narra.

Conversões como essas irrigam tanto a alma que uma recomendação se torna extremamente prioritária: “Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas” (Mt 6:33).

Como Zaqueu

Os compositores da música que virou hit nos últimos anos escreveram: “Como Zaqueu (…) Largo tudo pra te seguir. Entra na minha casa, entra na minha vida. Mexe com minha estrutura, porque o Senhor é meu bem maior”. No entanto, falar de Zaqueu não significa dizer que toda mudança só é radical e verdadeira se houver pagamento de dívidas em dinheiro ou doação de bens.

O personagem bíblico era cobrador de impostos e roubava do povo. Porém, demonstrou que, diante do fato novo de encontrar Jesus, os atos antigos ficaram para trás. Zaqueu não acusou ninguém, mas reconheceu seu próprio pecado e resolveu mudar. As palavras de Jesus – “desce depressa, Zaqueu” – remetem a uma verdade pela qual todos passam quando encontram esse novo caminho: descer do orgulho, da vaidade, da prepotência,
da autossuficiência, para receber Jesus em sua casa, em sua vida.

E o mestre concluiu: “Hoje veio a salvação a esta casa”. Zaqueu foi salvo e, talvez, toda a sua família também tenha sido, pois logo o grupo foi batizado. A salvação é o principal propósito do Evangelho (Rm 1:16).

O Messias veio buscar e salvar o que se havia perdido (Lc 19:10). O contador Eduardo Machado Lessa Ribeiro, da Igreja Metodista Wesleyana, conheceu a mesma intensidade da experiência do personagem bíblico. “Eu vivia em raves, usava LSD, não queria compromisso com nenhuma mulher, chegava a ficar com mais de 20 em uma noite de micareta, ia a shows e boates.

 

O início da minha conversão não foi tão fácil, tive algumas barreiras, amigos do mundo se afastaram; sou o único evangélico da minha casa. Porém, com o tempo, minhas atitudes provaram a todos que realmente me converti, e hoje prego em igrejas. Antes só me importava comigo e com as pessoas próximas a mim; hoje me importo com todos e me coloco no lugar da pessoa e me quebranto, sinto parte da dor dela, e isso faz toda diferença no meu agir.”

O reverendo Ephrain afirma que a conversão é um fenômeno de ordem espiritual tão grandioso quanto misterioso. Ocorre nas mais diversas circunstâncias, em momento de crise, ou de euforia ou de profunda reflexão, exatamente o que Zaqueu fez: anunciou mudança radical na sua conduta, demonstrando correção no que é básico em termos religiosos, morais e éticos, o caráter.

Ele deu metade dos seus bens e devolveu quatro vezes mais os valores dos impostos que extorquiu. Seu gesto corajoso e transparente não respirava demagogia, mas convivia no plano da simetria, ou seja, teoria e prática.

A musa ainda canta

A pergunta que não quer calar é: por que a Musa antiga, citada nos versos de Camões, anda cantarolando outras prioridades que reduzem o fato novo e mantêm o antigo? Por que a novidade de vida é sufocada por práticas ou filosofias como o status, projeção social, fama, vícios, vantagens, materialismo, consumismo, relacionamentos ilícitos ou rompidos?
“Infelizmente muitas pessoas se apegam ao que temos aqui na terra e não conseguem se desvincular das coisas terrestres.

Cantores mundanos famosos dizem ser evangélicos, mas suas músicas incitam coisas que não agradam a Deus. Se alguém realmente se converte, consegue abdicar de namoro, agenda, trabalho, hábitos, costumes, ações que desagradam a Deus. Conversão não é apenas dizer que aceita Jesus como seu único e legítimo Salvador”, responde o contador Eduardo.

A conversão real promove um movimento de afastamento do pecado, caracterizado por uma autêntica tristeza e arrependimento e um movimento de aproximação de Deus, caracterizado pela fé, pois trata-se de uma obra realizada em conjunto, tanto por Deus quanto do pelo humano.

No Novo Testamento, o apóstolo Pedro prega um sermão no Dia de Pentecostes: “Arrependei-vos, e cada um seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados” (At 2:38). E nas palavras de Paulo ao carcereiro de Filipos está a sentença máxima: “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa” (At 16:31), mostrando ser possível que toda a família seja alcançada por intermédio do convertido.

Foi o que aconteceu com o aposentado Cosme da Conceição, da Igreja Batista de Vila Velha. “Sempre fui um religioso dedicado, frequentador de procissões e romarias. Depois passei para o espiritismo, frequentava as sessões e fazia trabalhos nas praias e encruzilhadas, a ponto de comer os sacrifícios. Tive muitas perdas financeiras.

Houve um tempo em que sofria 30 dias de opressão dentro de casa, com o diabo dando murros nas paredes. Caíam pedras dentro das panelas, as facas voavam em nossa direção, melancias sobre as pessoas que entravam, víamos assombração. Eu, minha esposa e quatro filhos não conseguíamos dormir de tanta perturbação. Foi muito difícil para nossa família, mas, depois de receber a igreja para oração e de ouvir a mensagem da Palavra de Deus, houve quebrantamento.

Larguei os vícios e as práticas do passado. Hoje há paz dentro de casa.” A transformação pode ser uma experiência repentina, como aconteceu com Paulo, ou um processo, a exemplo do caso de Cosme. A pessoa vai sendo instruída e convencida do pecado, até receber Jesus como seu Senhor e Salvador pessoal.

E para os que se consideram povo de Deus, mas resistem à mudança de vida, impedindo “que outro valor mais alto se alevante”, o recado é dado pelo profeta Ezequiel: “Convertei-vos dos vossos maus caminhos; por que havereis de morrer,
ó casa de Israel?”