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quarta-feira, 29 junho 2022

Cosmovisão bíblica do mundo: o que pensam teólogos brasileiros?

Foto: Divulgação

A pesquisa da Universidade Cristã do Arizona que constatou que somente 37%, pouco mais de um terço, dos pastores têm uma cosmovisão bíblica sobre o mundo foi realizada nos Estados Unidos, mas levantou uma visão preocupante no Brasil.

Por Lilia Barros

A cosmovisão diz respeito às nossas crenças acerca do mundo e ao modo como enxergamos a realidade ao nosso redor. Um recente estudo norte-americano pesquisou o tema entre pastores e líderes dos EUA e constatou que apenas um terço deles possuem esta concepção. O assunto foi repercutido com teólogos brasileiros, que destacaram sua importância, bem como suas preocupações com a visão de pastores e líderes de igrejas no Brasil.

O professor de Hebraico e Antigo Testamento, vice-presidente da Ordem dos Pastores Batistas do ES e pastor da Igreja Batista Nova Esperança, em Marataízes, Wanderley Lima Moreira, explica que o termo cosmovisão veio da Epistemologia alemã e desta para a Teologia. Trata-se do termo weltanschauung, traduzido também por percepção ou ponto de vista, e tem na língua grega um cognato próximo: kósmos – por isso falamos em visão de mundo. Logo, a cosmovisão é o conjunto de crenças e pressupostos que dão forma à interpretação individual do mundo.

“Com a onda do que é politicamente correto, se diz existirem muitas visões de mundo. Um dos fatores da diminuição da cosmovisão bíblica entre os pastores é o lugar ocupado pelo cientificismo no ministério pastoral. Se por um lado a ciência sempre foi fundamental para o ser humano, em todos os aspectos, por outro, sua primazia em relação à interpretação do mundo inverteu os valores. É impossível uma cosmovisão bíblica se um pastor “lê” o mundo com “óculos” (pressupostos) emprestados da Psicologia, da Sociologia ou da Física Quântica, por exemplo. A primazia deve ser da Bíblia. Não podemos escolher uma lente social ou científica para ler o mundo – precisamos ler o mundo através da Bíblia”, ressalta ele.

Um segundo fator que tem colaborado para que os pastores não apresentem uma visão bíblica de mundo, segundo Wanderley, é a inversão de papeis na leitura da Bíblia. “O liberalismo teológico invadiu igrejas e seminários nos séculos 18 e 19 e através da crítica da redação colocou no leitor toda a autoridade que antes era do autor. A partir dessa perspectiva, o que o autor bíblico diz acerca do mundo não faz sentido; mas sim o que o leitor pensa a partir de seus pressupostos e experiências, o que ‘tira’ a autoridade das Escrituras (2 Tm 3.14-17)”.

Cosmovisão sem amor

O historiador, professor e teólogo Diego Turato, de São Paulo, afirma que é fundamental qualquer pastor ou qualquer líder cristão, sobretudo o cristão protestante que valoriza a Bíblia, ter uma cosmovisão.

“O que me entristece é que, conhecendo grande parte da liderança de igrejas reformadas, de igrejas históricas e também de igrejas pentecostais e neo pentecostais, em alguns momentos eles têm uma cosmovisão bíblica, porém não se aprofundam no que é mais aprofundado na Bíblia, que é o amor. A Palavra de Deus repete do começo até o final sobre amar, amar o próximo e a Deus, amar a Deus e ao próximo, é isso que a Bíblia ensina. Então qualquer cristão, qualquer líder que tenha cosmovisão bíblica, vai enfatizar o amor. Mas, infelizmente, muitos utilizam até a cosmovisão para a raiva e o ódio, essa é a verdade. Estão utilizando a Bíblia para os seus próprios interesses. Hoje é mais negócio para a maioria da liderança, dos pastores, ter uma crítica sobre quem toma álcool, vinho, cerveja, sobre quem fuma cigarro, é muito mais fácil eles serem contra isso do que tentarem apontar soluções, acolher, oferecer ajuda. A gente tem que falar a verdade, e a verdade é que fechamos os olhos para isso, porque queremos continuar congregando, sendo membros de igreja, e quem fala, fala muito pouco sobre o amor. E qualquer cosmovisão bíblica de verdade vai sobrepor o amor”, ressalta Diego Turato.

A pesquisa

O estudo acadêmico foi realizado pelo Centro de Pesquisa Cultural da Universidade Cristã do Arizona e descobriu que apenas 37% dos pastores cristãos nos Estados Unidos têm uma visão bíblica sobre o mundo, demonstrando que o despertar espiritual é “necessário tão desesperadamente em nossos púlpitos quanto nos bancos”.

A maioria dos entrevistados, 62%, possui uma visão de mundo híbrida conhecida como sincretismo. O estudo, no entanto, observou que não ter uma cosmovisão bíblica não significa adesão a uma cosmovisão concorrente, como o humanismo secular ou o marxismo. “Na verdade, menos de 1% dos pastores incorporam uma cosmovisão diferente do teísmo bíblico (ou seja, a cosmovisão bíblica)”, disseram os pesquisadores.

“Ao invés disso, sua visão de mundo predominante é melhor descrita como sincretismo, a mistura de ideias e aplicações de uma variedade de visões de mundo holísticas em uma combinação única, mas inconsistente, que representa suas preferências pessoais, uma visão de mundo sincrética”, diz o relatório da pesquisa.

George Barna, diretor de pesquisa do Centro de Pesquisa Cultural da Universidade Cristã do Arizona, disse que a visão de mundo de uma pessoa se desenvolve principalmente antes dos 13 anos, depois passa por um período de refinamento durante a adolescência e até os 20 anos.

“De uma perspectiva de visão de mundo, os ministros mais importantes de uma igreja são o pastor de crianças e o pastor de jovens. Descobrir que sete de cada oito desses pastores não têm uma cosmovisão bíblica ajuda a explicar por que tão poucas pessoas nas gerações mais jovens do país estão desenvolvendo um coração e uma mente para os princípios e modos de vida bíblicos, e por que nossa sociedade parece ter corrido descontroladamente, na última década, em particular”, lamentou.

“Deus está no ramo da transformação. Pastores que estão dispostos a permitir que Ele transforme seu pensamento e comportamento podem emergir desse processo como um exemplo poderoso do que pode acontecer quando coração, mente e alma são entregues a Deus. Certamente parece que se a América vai experimentar um reavivamento espiritual, esse despertar é necessário tão desesperadamente em nossos púlpitos quanto nos bancos”, enfatizou o pesquisador.

 

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