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Correspondente da Portas Abertas na Síria destaca a realidade da Igreja pós-Assad

• Atualizado em 13/01/2026
7 min de leitura

A Síria, em dezembro de 2024, entrou em mais um momento de sérias  dificuldades. Rebeldes assumiram o controle da TV estatal local, com o canal interrompendo a programação regular para transmitir a queda do regime autoritário de Bashar al-Assad, que estava no poder por quase 25 anos, ao assumir o cargo, anteriormente ocupado por seu pai Hafez al-Assad. Hafez al-Assad, de 1971 até 2000, ano de sua morte.

Assim, iniciou-se mais um capítulo da crise em território sírio, que já estava marcado por mais de uma década de guerra civil. Nesse cenário cheio de instabilidade, foi instituído um governo de transição, em 29 de março de 2025, liderado pelo presidente Ahmed al-Sharaa, que sucedeu à liderança interina chefiada por Mohammed al-Bashir.

Nesse contexto de insegurança e cheio de incertezas políticas e sociais, a situação da comunidade cristã permanece delicada. No entanto, a Síria é considerada o berço do cristianismo devido a eventos cruciais que ali ocorreram, como a conversão do apóstolo Paulo em Damasco e o surgimento do termo “cristão” na cidade de Antioquia. 

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A Síria, oficialmente chamada de República Árabe Síria, localiza-se na Ásia Ocidental. Faz fronteira com o Líbano e o Mar Mediterrâneo a oeste, a Turquia ao norte, o Iraque a leste, a Jordânia ao sul e Israel ao sudoeste. Segundo o Banco Mundial, a população somava 24,67 milhões de pessoas em 2024.

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Matthew Barns revela os desafios atuais dos cristãos sírios para a equipe da Portas Abertas, no Brasil – Foto: Portas Abertas

Em entrevista à Comunhão, Matthew Barnes (nome fictício por questão de segurança), correspondente da Portas Abertas na Síria e no Oriente Médio, destaca a realidade dos cristãos e da igreja no país, que está em 18º lugar na Lista Mundial da Perseguição (LMP) 2025, elaborada pela missão, que elenca os 50 países mais perigosos para os seguidores de Jesus viverem. O nome correto e a imagem do jornalista foram preservados por questão de segurança. Confira:

Qual é a situação atual dos cristãos e das igrejas na Síria?
Desde o início da guerra, em março de 2011, dois terços de todos os cristãos que vivem na Síria deixaram o país devido à perseguição do Estado Islâmico e de outros grupos extremistas. Também porque sentiam que a Síria não era um lugar seguro para eles, onde pudessem oferecer um futuro para seus filhos. Agora, com um novo governo, os cristãos (assim como muitos outros sírios) se sentem inseguros e incertos sobre o que o futuro reserva.

A perseguição religiosa aos cristãos aumentou ou diminuiu nos últimos anos? Por quê?
Ela tem se mantido estável nos últimos anos, mas este ano, em 22 de junho, um extremista atacou a igreja de Santo Elias em Damasco, matando 25 cristãos e ferindo muitos outros. Este ataque dá aos cristãos a sensação de que não são bem-vindos na nova Síria e que isso pode se repetir em qualquer lugar, a qualquer momento. Posteriormente, outro ataque à igreja foi interrompido antes que pudesse ocorrer.

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É seguro para um cristão sírio evangelizar ou expressar publicamente sua fé? Por quê?
Expressar publicamente sua fé é possível. Eles podem usar uma cruz, ter suas reuniões na igreja, ter seus grupos de jovens. Mas a evangelização é arriscada, pois na tradição islâmica não é permitido “abalar a fé de um muçulmano”. Evangelização ativa não é possível, mas eles podem compartilhar sobre Jesus quando as pessoas pedem.

Quais são as formas mais comuns de perseguição que os cristãos enfrentam na Síria?
Primeiro, precisamos distinguir entre a perseguição de cristãos que nasceram como cristãos em famílias cristãs, por um lado, e os convertidos do islamismo ou dos drusos. Os convertidos são os mais perseguidos na Síria (como em muitos outros países do Oriente Médio). Eles enfrentam, em primeiro lugar, a perseguição de suas famílias; muitos são expulsos de suas casas e do contato com a família. Às vezes, são espancados por familiares e ameaçados de morte. Podem ser demitidos de seus empregos, têm dificuldade para encontrar emprego, dificuldade para encontrar uma casa para morar.
É claro que cristãos que nasceram em famílias cristãs não precisam lidar com a perseguição de suas famílias. Eles enfrentam a maior pressão da sociedade de maioria muçulmana; meninas são às vezes assediadas (por não usarem véu e por se vestirem de forma diferente) e sofrem pressão social, por exemplo, durante o Ramadã. Há um sentimento geral de vulnerabilidade, especialmente agora que o governo mudou e parece não ter controle sobre todas as milícias (extremistas) do país.

Como os cristãos sírios locais estão respondendo à perseguição?
Eles convivem com isso há séculos, sabem o que a Bíblia diz sobre perseguição, que os cristãos serão perseguidos. Portanto, não se surpreendem com isso. Mas, dependendo do que estão passando, alguns reagem ou já reagiram deixando o país em busca de asilo e segurança no exterior. Os líderes da igreja tentam mostrar às suas congregações a importância da presença cristã na sociedade síria e esperam que muitos permaneçam no país.

Quais são as maiores necessidades das comunidades cristãs na Síria hoje?
Ter esperança de que as coisas melhorem, ter os meios (financeiros) para sobreviver no país, onde a economia ainda está muito fraca e muitas pessoas são pobres.

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Como cristãos de outros países podem ajudar os cristãos sírios?
Em primeiro lugar, orando por nossos irmãos e irmãs na Síria. Ore para que Deus lhes conceda a sabedoria de como podem ser Igreja na nova situação em que a Síria se encontra agora com o novo governo. Ore para que muitos se sintam chamados a permanecer no país. Em segundo lugar, apoie financeiramente o trabalho da Portas Abertas por meio de campanhas de geração de renda, como esta. Com esse apoio, você ajudará a fortalecer o que resta da Igreja no país, de onde dois terços de todos os cristãos partiram nos últimos 14 anos.

Como os cristãos sírios veem o futuro da igreja no país?
Eles sabem que a igreja é a igreja de Deus, que Ele está com a igreja e cuidará dela, seja qual for a situação no país. Alguns estão pessimistas, acreditam que muitos mais cristãos deixarão o país. Alguns temem, por causa do novo governo, a opressão da igreja.

Qual é o papel da Portas Abertas na Síria, atualmente?
A Portas Abertas mobiliza os cristãos para estarem em oração pela Síria e a comunidade cristã. Além disso, incentiva a igreja local, fortalecendo sua liderança e ajudando-a a aproveitar as muitas oportunidades de ministério, mesmo na atual situação de crise no país. A Missão faz isso em cooperação com as igrejas locais parceiras. As ações incluem:
– Distribuição de literatura: Bíblias, Bíblias de Estudo, Bíblias Infantis, Novos Testamentos e livros cristãos.
– Treinamento: por exemplo, treinamento de discipulado para líderes, para que possam ensinar outras pessoas; treinamento de liderança em geral e específico para líderes jovens; aconselhamento e acompanhamento em traumas para pessoas que passaram por situações muito estressantes; treinamento para jovens, mulheres, homens e casais.
– Parceria com a igreja local para cuidar e fornecer ajuda humanitária aos mais necessitados.
– Construindo pontes entre as diversas denominações cristãs, patrocinando conferências para as quais todas as denominações são convidadas.
– Treinamento ministerial sobre relacionamentos saudáveis.
– Microempresas e treinamento vocacional para crentes.

O cristão Bassam Mshaty vive um novo tempo em sua oficina – Foto: Portas Abertas

Qual história de resiliência e fé cristã, o senhor poderia compartilhar?
A de Bassam Mshaty, de 46 anos, e seu irmão Fares, cristãos de Aleppo que herdaram do pai não apenas a profissão de ferreiro, mas também a determinação para recomeçar diante das perdas. Durante o conflito, a oficina da família ficou inacessível por anos. Quando os irmãos finalmente conseguiram retornar, encontraram apenas paredes enegrecidas por um incêndio e o espaço vazio — todas as ferramentas haviam sido roubadas. A reconstrução levou tempo, e só em 2020 puderam retomar plenamente o trabalho.
Mas o cenário também havia mudado: a demanda por móveis de ferro havia diminuído drasticamente. Adaptando-se à nova realidade, Bassam e Fares decidiram investir na produção de filtros de ferro para tratores e esponjas de aço inoxidável, itens de uso prático e alta procura.
Foi por meio de um programa de geração de renda apoiado pela Portas Abertas que Bassam conseguiu adquirir as máquinas necessárias para essa nova etapa. ‘Este projeto me devolveu a esperança. Com ele, posso lançar novos produtos e, ao mesmo tempo, honrar a memória do meu pai’, afirmou.
Entretanto, outro desafio logo surgiria. Após mudanças no controle político de Aleppo, a economia local entrou em colapso, paralisando novamente o negócio. Ainda assim, os irmãos não se deixaram abater. “Cada vez que olho para as paredes queimadas da oficina, lembro que sou capaz de superar as dificuldades e recomeçar”, diz Bassam.
Hoje, com fé renovada, Bassam e Fares continuam o trabalho, confiando em Deus para escrever um futuro melhor. ‘Sou um otimista perpétuo’, declarou Fares. ‘Creio que, pela graça de Deus, estamos caminhando para coisas maiores.’ A trajetória dos dois irmãos simboliza a resiliência dos cristãos sírios: mesmo em meio às cinzas, a esperança e a fé seguem vivas.

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