Consciência negra: Um dia de resistência e esperança

Pensar o Dia da Consciência Negra é ter um tempo de reflexão sobre as nossas ações em relação a luta para que haja igualdade no Brasil. E a justiça racial é uma tarefa da igreja


Os cristãos geralmente se preocupam com as coisas que são dos céus. Essa, afinal, é uma das orientações bíblicas (Colossenses 3). Entretanto, não podemos cuidar das coisas dos céus sem que estejamos atentos ás coisas que ferem o corpo, que destroem a estima, que matam sonhos, que esmagam futuros de pessoas só por causa da cor da pele.

Não podemos deixar de ouvir as palavras de Jesus que mostra que os que são seus servos se preocupam com aqueles que são excluídos como os aqueles que não têm o que comer ou vestir, onde morar. Ou que estão presos ou os que são solitários em terras estrangeiras. (Mateus 24). Notamos, então, que precisamos estar olhando para o céu, cuidado dos que estão na terra.

A justiça racial é uma tarefa da igreja. Como cristãos devemos ter em mente que precisamos ser sal e luz buscando a justiça e a reparação histórica para que os valores do Reino de Deus sejam uma realidade.

Em 1930, o presidente Getúlio Vargas criou o que se chama ideologia do branqueamento que tem como objetivo misturar a raça branca com a negra para que os negros possam desaparecer. Nesta época a igreja evangélica estava chegando.

Em algumas denominações, seus missionários trouxeram escravos. Outras favoreciam à escravidão e seus pastores tinham seus escravos em casa. Estavam preocupados com as coisas dos céus, mas não notavam o mal que estavam fazendo aos corpos das pessoas produzindo dores que dilaceravam suas peles, sentimentos e espíritos.

A escravidão acabou? Essa pergunta é difícil de responder se você olhar a sociedade brasileira distante dos seus privilégios. Quando lemos a vida a partir de nossas vantagens, nossas possibilidades e oportunidades individuais, talvez, não consigamos responder com total isenção. Mas, quando olhamos a sociedade no Brasil a partir dos que mais sofrem temos outro quadro.

Após a abolição, ainda vemos a maioria dos negros sofrendo o descaso em várias esferas da sociedade. Dos jovens que são assassinados ou executados pelos policiais, 75% são negros. A população em situação de rua é maioria, negra, que também é a minoria nas universidades e maioria nos presídios. As crianças negras são as que mais sofrem violência ou estão no trabalho escravo. E as mulheres negras são as maiores vítimas de feminicídio. Mas Deus é justo e não suporta a injustiça e a desigualdade.

Pensar o Dia da Consciência Negra é ter um tempo de reflexão sobre as nossas ações em relação a luta para que haja igualdade no Brasil. É também fazer uma profunda análise dentro de nós para vermos se somos ou não racistas. O racismo é coisa que cresce cada vez mais nos corações e atitudes de pessoas brancas, sejam cristãs ou não.
A esperança é gerada pelo Dia da Consciência Negra.

Quando juntos como irmãs e irmãs, negros e brancos, nos reunimos e clamamos ao Senhor que nos use para sermos instrumentos da construção de um mundo sem desigualdades com justiça racial de reparação aqueles que mais sofreram e sofrem, há o mover do Espírito Santo entre nós. Quando a igreja do Senhor cumpre a sua missão profética denunciando o racismo e suas consequências o Reino de Deus se estabelece.

Quando líderes reconhecem o pecado do racismo neles mesmos e na igreja com a sua omissão, há manifestação real de perdão de Deus e de benção vindas do Pai das luzes que não há forma alguma de variação. (Tiago 1:17). Então, podemos também dizer que o Dia da Consciência Negra é um dia de esperança de melhores dias brancos e negros e, sobretudo, para os servos do Senhor.

Marco Davi de Oliveira Coordenador do Movimento Negro Evangelico. Pastor da Nossa Igreja Brasileira- Igreja Batista. Teólogo, historiador e Ciências da Religião


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