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Comunhão debate: a igreja e as manifestações

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Junho de 2013 entrou para a História como o mês em que milhões de pessoas tomaram as ruas em todo o país para protestarem contra a corrupção e por um serviço público de melhor qualidade à população.

A indignação popular atingiu várias classes sociais, em cidades grandes e pequenas e também mobilizou a população capixaba. Nesse contexto, os pastores José Ernesto Conti, da Igreja Presbiteriana Água Viva; Simonton Araújo, da Missão Praia da Costa e Gedimar Araújo, da Igreja Evangélica Ágape, aceitaram o desafio da revista Comunhão de participarem de um debate e discutirem a posição da igreja diante do atual momento que vivemos.

Comunhão – Vocês são favoráveis às manifestações?

José Ernesto Conti – Com certeza. As manifestações estão resgatando o que deveria ser normal. O grito do povo é extremamente legitimo, necessário e espero que não termine. Espero que continue com o povo tendo coragem de voltar à rua sempre que necessário.

Gedimar Araújo – Sim, são legítimas, tenho acompanhado pela mídia, de forma distante, mas me preocupo com a falta de uma cara, de um projeto. Isso porque as manifestações podem dar lugar a qualquer coisa. Minha preocupação é: que bandeira está se levantando? O que percebo é que não existe uma pauta. Em São Paulo, por exemplo, foi a questão das passagens, mas em outros lugares cada um tem levantado a bandeira que quer, usando esse momento a seu próprio favor. Onde nós vamos chegar com isso tudo? Talvez comece assim mesmo e depois ganhe forma. Mas precisa de foco. Por exemplo, nas “Diretas Já” existia uma cara, todo mundo falava uma língua só.

Simonton Araújo – Eu coloquei a igreja na rua. Fizemos camisas, faixas, e como faltava a definição de um tema, de uma pauta, nós entramos no meio dizendo que queríamos o padrão Fifa para os hospitais e escolas. Ouvimos o clamor de várias pessoas que perguntavam “cadê a igreja?” Só que eu acabei me frustrando por alguns motivos, eu saí bem incomodado. Primeiro porque nós estávamos condenando o desvio de verbas, mas estávamos vibrando com os jogos. Achei meio incoerente. É a mesma coisa de eu passear e vibrar em um carro roubado. Cheguei para a igreja e pedi perdão. Outra coisa é que eu estava pedindo padrão Fifa, mas comecei a ouvir um grito dentro de mim: “Nós, como igreja, temos padrão Fifa?” Nós temos essa moral para exigir padrão Fifa. Outro fator é que isso já foi feito no passado, gente na rua, cara pintada, e isso não levou a nada. Collor e Sarney continuam no governo, Lula é amigo deles…

Gedimar – Não adianta mudar a estrutura se não mudar a mentalidade. Quem está fazendo as manifestações? As pessoas de classe média, alguns baderneiros. O povo mais sofrido não participa. Há um “cala-boca” que a própria estrutura fortalece. Não acho que seja um clamor popular.

Conti – Não quero discordar de vocês, mas comparando o “Diretas Já”, o “Fora Collor”, essa manifestação agora está fazendo a gente pensar. O fato de não ter pauta talvez seja positivo, o leque está aberto, de direita à esquerda. Quando alguns partidos políticos tentaram usar esse movimento, foram retirados. O povo está parando para pensar e isso é bom. Concordo que não temos padrão Fifa nas igrejas. Afinal, como ser voz profética, trombeta, se não sabemos soprar? Estou percebendo que esse movimento continua, que está tomando corpo, que não foi fogo de palha e está se perpetuando. A coisa está continuando. A tendência, espero eu, é que isso continue, até que encontremos uma solução. A resposta do governo foi muito rápida. O Congresso aprovou pautas que estavam paradas há anos…

Gedimar – Mas eles estão aprovando por medo…

Conti – Sim, por medo. Mas o Congresso nunca teve medo de nada, o Congresso sempre foi soberano! Agora, eles vão pensar duas vezes até 2014. Conseguimos deixar nossos políticos e governantes com medo.

Gedimar – Mas o meu medo agora é que chegue 2014 e coloquemos os mesmos políticos lá. Em troca de uma cesta básica, de uma bolsa não sei o quê… Os aproveitadores vão se aproveitar disso. Por isso que eu falo da carência de uma liderança. Acho que está perdendo o caminho.

Comunhão – Qual deve ser a postura da igreja? A igreja tem sido omissa no dever de denunciar a corrupção, como os profetas no passado faziam?

Gedimar – Acho que é omissa aos seus próprios problemas. Nós temos os mesmos problemas do governo e nos calamos, deixamos a coisa acontecer. A corrupção, o fazer de qualquer jeito. Não tratamos dos nossos problemas. Nós deveríamos repensar o nosso jeito de ser igreja. Eu sou pastor e quero viver a Palavra e vejo que hoje isso não está sendo olhado, hoje as igrejas são propostas de mercado para conquistar um certo nicho. Temos que olhar para nós. Como igreja precisamos de porta-vozes que realmente representem a voz evangélica.

Conti – Acontece que nós somos muito baratos. O meio politico já está descobrindo que para conquistar voto evangélico basta dar um almoço para o pastor. Dar um almoço para o pastor já resolve…

Simonton – Se o pastor for de nível mais alto, dá-se uma rádio AM, se for da prateleira de cima, uma rádio FM, se for ainda maior, um canal de TV…

Conti – Por mais que isso denigra a nossa imagem, nós percebemos isso. Mas, eu vislumbro, pelo menos na comunidade onde eu trabalho, que a mentalidade está mudando. As pessoas não estão se trocando mais por meia dúzia de lajotas. Temos que pensar que as manifestações têm permitido que a igreja se posicione.

Simonton – A coragem da igreja em condenar o pecado e apresentar alternativas se perde por causa desse preço, da subserviência. Você não encontra nesses manifestos líderes que dependem de concessão do governo, líderes que têm dívida governamental. No nosso meio há essa subserviência, ao ponto da igreja não poder confrontar o poder político. O próprio candidato evangélico nega fogo no seu compromisso. Estamos sendo forçados a pensar.

Conti – Nossa função é não deixarmos perder esse momento que é impar, é diferente. Principalmente como liderança evangélica, não podemos deixar a coisa desaparacer.

Gedimar – Sim, precisamos saber como alimentar esse fogo.

Simonton – Creio que devemos intensificar as orações. Não é uma condenação a quem precisa do político por um saco de cimento, mas se n[os como igreja sermos uma família, poderemos socorrer os irmãos. Podemos melhorar esse padrão.

Gedimar – O povo que reclama da corrupção é o mesmo que se vende à corrupção. Precisa mudar a essência. Onde estamos fazendo uma nação melhor? É a hora da voz da igreja.

Conti – Só a igreja tem autoridade para falar contra o pecado, apesar de não ser uma mensagem tão aceita. Precisamos pregar que somos pecadores e carecemos da graça de Deus.

Simonton – O papel é nosso, somos o sal da terra e luz do mundo. É como o Bom Samaritano. Não posso ver um caído na estrada e chamar um político para socorrê-lo, chamar uma ONG. Eu tenho que socorrê-lo e chamar meus irmãos. Não podemos transferir nossa responsabilidade. Inclusive há caídos dentro da igreja. Mas pensando em manifestação, estou sentindo falta da voz da Igreja Católica, que tem mais experiência do que nós, nessa área. Espero que a dependência do governo não impeça o grito contra o aborto, contra a homossexualidade. Que as verbas para a vinda do Papa Francisco não calem a boca dos católicos porque eles sabem fazer manifestação melhor do que a gente. E quando o Papa estiver aí que eles gritem também.

Comunhão – Falamos sobre falta de liderança e é certo que vivemos uma crise de bons líderes em muitas áreas. É também papel da igreja formar líderes e ensinar sobre política ao rebanho?

Conti – Precisa-se primeiro quebrar o tabu de que política e religião não se misturam. Isso é muito forte, o pensamento de que somos somente cidadãos de outra pátria. Temos de ser bons políticos. Por que o político evangélico não abre mão do seu direito quando se vê obrigado a votar em algo que não está certo? Ele tem que ser bom político assim como é um bom cristão.

Simonton – Há um texto que me incomoda muito no livro de Ester, no capítulo 6, que é quando Mordecai tem o privilégio de andar no cavalo do rei, com a coroa do rei, com o manto do rei, mas depois dessa voltinha pelas ruas ele volta para o seu lugar à porta do palácio. Ele não se encantou, não se vendeu, voltou para sua posição, para sua vocação, pois o objetivo maior dele não era ser diplomado, havia uma causa que era libertar o povo. O que a gente vê hoje é o encanto com a capa do rei, mas o esquecimento de onde veio.

Gedimar – Quando foi que um político evangélico se levantou para denunciar a máfia que existe na máquina?

Conti – A gente não vê isso.

Simonton – Essa é uma forma de manifestar. A aglomeração gera consciência, chama a atenção da mídia, mas não acho que seja tão eficaz porque muitas vezes os grandes nem tomam conhecimento ou até debocham por acharem que não levará a nada. Mas, poderemos minar o sistema através do treinamento de pessoas capazes, com caráter, para se infiltrar.

Conti – Eu creio que os políticos estão ficando com medo, e se isso for resultado da manifestação, é positivo. Seja fazer as coisas a toque de caixa, com medo. Na pior das hipóteses os políticos vão pensar duas vezes daqui pra frente.

Simonton – A Bíblia mostra uma manifestação solo, a de João Batista. Dificil achar um manifestante que chegue na cara de um político e diga: “A mulher que você está não é sua, é do seu irmão. Eu perco a cabeça, mas vou dizer essa mulher não é sua”. Ele se manifestou em prol da família. Ele perdeu a cabeça. Agir dessa forma pode nos levar a andar com segurança, com colete.

Gedimar – Hoje talvez seja a questão da homossexualidade. E aí? Vamos nos calar, porque podemos ser presos?

Simonton – João Batista fez um manifesto inteligente, foi na raiz. Precisamos ir na raiz.

Gedimar – Nosso papel como igreja é não nos vendermos ao mundo, ao fazer de qualquer jeito. E falarmos aos nossos meninos que serão os líderes do país amanhã. Estabelecer essa verdade é dificil, pois estamos contaminados até a raiz.

Comunhão – Vocês acham que a partir dessas manifestações vai mudar a forma de ensino?

Conti – Há dois tipos de igreja, as que têm uma liderança mais antenada e consciente e têm uma mensagem para sua igreja. Mas existem outras, infelizmente, que estão nas mãos do governo. Vai ser dificil mudar rapidamente.

Gedimar – A mudança é paulatina, talvez na próxima geração isso vai mudar. Não acredito que isso já vai mudar na próxima eleição.

Conti – Acho que já vamos ver alguma diferença (ano que vem).

Simonton – Vamos apelar à próxima geração para que preste atenção nos fatos, que não sejam rebeldes sem causa e que a causa escolhida seja nobre. Porque tem muita causa que não vale a pena morrer por ela. Que sejam causas maiores. Tenho muita esperança nessa geração. Somos herdeiros de uma igreja de homens que se manifestaram contra o sistema político e religioso. Só temos igreja evangélica porque manifestantes se levantaram. Uns foram mortos, outros foram perseguidos, presos, mas eles se manifestaram. Agora é nossa vez, de fazer isso com inteligência para que possamos deixar algo para a próxima geração.

Comunhão – Havia um cartaz nas manifestações com o seguinte: “Igreja que não protesta, não pode ser chamada de igreja protestante”. O que vocês acham?

Conti – Com certeza, a igreja tem que protestar principalmente contra tudo que é contrário à Palavra de Deus. O contrário de não protestar é amar, é concordar. A igreja não pode concordar com o pecado, com a falta de ética, com a falta de compromisso.

Gedimar – Concordo. A igreja precisa ter essa voz, isso não é ser insubmisso às autoridades. Tem de ser feito, mas não pode fazer por fazer. Temos de fazer um protesto de forma diferenciada, não podemos usar as mesmas armas, temos de fazer diferença na sociedade, fazer o que o governo não está fazendo, isso é uma forma de manifestação.

Comunhão – O que se pode esperar como desdobramento, desfecho? O que vislumbram como fruto?

Conti – A conscientização, seja a nível de igreja ou popular. Todas as manifestações estão permitindo que o povo se conscientize de que tem voz, de que pode reclamar e querer algo melhor do que tem hoje. Se ganharmos isso, se o povo sair de tudo isso com maior conscientização, valeu a pena. E isso vai mover as outras coisas.

Gedimar – A grande conquista, o legado que pode deixar é que a gente pode mudar as coisas, que elas não precisam continuar do jeito que estão. As coisas mudam, é só não ser passivo, não aceitar tudo do jeito que está, é trabalhar para mudar isso. Se nós nos mobilizarmos conseguimos mudar.

Simonton – É preciso protestar, fazer alguma coisa. É preciso entender que a igreja precisa influenciar na sociedade, ser luz em meio às trevas, ter um propósito. Eu levei a igreja às manifestações, mas não levo mais porque se tornou um risco por causa dos baderneiros. Temos que descobrir novas formas de protestos, pois não queremos ser cúmplices dessa baderna.

Gedimar – Acho que é hora da Marcha para Jesus realmente funcionar no Brasil. Ganhar força, botar a igreja na rua.

Simonton – Temos que ter outra estratégia, mas não deixar de manifestar. Precisamos fortalecer nossos irmãos que dependem dos políticos, para que não dependam mais.

Gedimar – Precisamos fortalecer as associações de pastores, ter uma proposta dentro desses conselhos de mudança da mentalidade. É também nosso papel discutir como podemos influenciar essa geração de pastores.

Conti – O país não é mais o mesmo.

Simonton – Vejo um início de unidade, de líderes de igrejas para caminharem juntos. Isso é positivo para essa manfiestação. É um tempo inédito. Há muita esperança.

Conti – Eu não esperava nada parecido por causa da internet, os jovens tinham tudo para não saírem da frente do computador. Mas, contrariando a lógica, eles foram mobilizados para ocuparem as ruas. Tiraram a garotada da frente do computador.

Simonton – Acho que isso mostrou uma sede do adolescente de despregar da frente do computador, de deixar o Facebook. Arrumaram uma causa e sairam. Atravessaram uma ponte a pé, isso é inédito!

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