19.2 C
Vitória
terça-feira, 27 julho 2021

Como o fanatismo religioso mata crianças na África

“Atendemos crianças que sofreram tortura tanto de lideres religiosos quanto da comunidade, por causa do estigma”

Por Marlon Max

Seis, oito ou dez anos ou muitas vezes mais novos. Essas são as idades de milhares de crianças que sofrem perseguição, tortura e morte na Nígeria. O motivo da barbárie é a acusação de que esses pequeninos são crianças-bruxas. Ao contrário do que se pode imaginar, esse estigma não é dado por nenhum grupo terrorista, mas por alguns líderes religiosos alinhados com a chamada teologia da prosperidade.

A “bruxificação” de crianças, como ficou conhecido o fenômeno, acontece em diversas vilas do país. Todos os casos têm algo em comum: uma mega-igreja e um líder religioso que, supostamente, descobre uma maldição na comunidade. A partir daí, essas crianças, de todas idades, passam a ser torturadas e com sorte, conseguem fugir até que encontrem refúgio seguro em alguma instituição humanitária.

Um missionário brasileiro viveu de perto o dia a dia de dezenas de crianças bruxificadas. Gito Wendel, além de missionário, é teólogo e assistente social. No país africano, atuou na ONG inglesa Way To The Nations, que se dedica a resgatar crianças em risco, após serem estigmatizadas. Há relatos de membros da própria família que acreditaram no que foi dito pelo líder religioso e prenderam, torturaram e mataram seus próprios entes.

“Em alguns casos, as crianças, além de abandonadas, sofrem violência, por causa da ideia de que são elas as causadoras dos males. Atendemos crianças que sofreram tortura tanto de lideres religiosos quanto da comunidade, por causa do estigma. Um desses pequenos, vou chamá-lo de Brian, teve grande parte do corpo queimada por ácido, enquanto dormia nas ruas. Ao chegar no orfanato, temia adultos e especialmente qualquer coisa relacionada às palavras “God” (Deus) e Jesus – por causa dos maus-tratos que recebeu em ambientes da fé evangélica onde o estigma é comum”, relata Wendel.

O fenômeno foi notado pela comunidade internacional e agências humanitárias, mas as ações do governo local não foram eficazes para erradicar esses crimes. Em 2008, o governo nigeriano aprovou a legislação que considerava crime rotular as crianças como bruxas. Mas devido à imposição cultural-religiosa, a ignorância populacional e a consideração ínfima do ordenamento jurídico local, essa lei foi totalmente desconsiderada e os casos continuaram, pela omissão estatal e forte influência das mega-igrejas no país.

O trabalho de “libertação” dessas crianças bruxificadas é oferecido por pastores da vertente da teologia da prosperidade. Quando uma criança é apontada como amaldiçoada, ou denunciada como bruxa, a família pode tentar recorrer ao processo de “cura”. O trabalho é feito pelos próprios líderes religiosos, por um preço extremamente elevado para as condições econômicas do lugar – chegando a equivaler a mais de um ano de renda de algumas famílias. Segundo o jornal britânico The Telegraph, o preço gira em torno de 170 libras, enquanto milhões de habitantes são forçados a viver com menos de uma libra por dia.

O missionário Gito Wendel explica como são as ações de um dos grupos que atuam para resgatar e proteger as crianças. Ele aponta o fundamentalismo religioso como a maior dificuldade no combate à prática da bruxificação.

“O fanatismo religioso evangélico amparado pela teologia da prosperidade é o maior inimigo da fé cristã. E que por causa dele, crianças são mortas em nome de Jesus, e o nome de Jesus é blasfemado por quem diz que é Dele, mas que não ama como ele amou, explica e orienta aos que se interessam por somar na luta pela vida dessas crianças se conectem com uma instituição que já trabalha no país. “As pessoas podem procurar por Way To The Nations, Caminho Nações ou Religar Brasil nas redes sociais e se dispor a colaborar com serviços e doações”, concluiu.

 Leia a entrevista completa: 

- Publicidade -

Matérias relacionadas

Comunhão Digital

- Publicidade -

Fique Por Dentro

- Publicidade -

Plugue-se