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domingo, 24 outubro 2021

Como Lidar Quando o Parto Normal Vira Cesárea?

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Apesar de toda essa preparação, algumas mulheres acabam tendo que ser submetidas a uma cesárea intraparto por intercorrências obstétricas

Por Rachel Tavares

 No País da cesárea, quem deseja um parto natural precisa, além de muita informação, preparar o corpo e a mente para vivenciar a experiência. Além disso, precisa encontrar uma equipe de profissionais qualificados, que incentivem e apoiem verdadeiramente o parto normal.

Curso de parto, consultas com doulas e enfermeiras obstetras, plano de parto, rodas de apoio, longas conversas nas consultas de pré-natal com o obstetra para retirar dúvidas, pilates, fisioterapia pélvica… enfim! Muitos são os caminhos que podem ser seguidos em busca de ajuda, orientação e segurança para esse momento especial na vida de uma família.

Apesar de toda essa preparação, algumas mulheres acabam tendo que ser submetidas a uma cesárea intraparto por intercorrências obstétricas. Muitas dessas mulheres passam por um período de sensações mistas, em que a frustração de não ter conseguido o tão sonhado parto normal é uma das primeiras a aparecer.

Não vou falar aqui hoje sobre aquelas cesáreas intraparto sem indicação, invenções de indicação de cesárea ou sobre indicações relativas que acabam virando indicações absolutas sem realmente ser. Hoje é realmente para falar do sentimento de frustração, da decepção de entrar em trabalho de parto mas não evoluir de forma favorável como gostaríamos e uma cesárea ter que ser indicada para preservarmos a saúde da mãe e/ou do bebê. A frase que a gente mais ouve é daquela sensação de “nadar, nadar e morrer na praia.”

Para muitas mulheres, a mudança do parto normal para cesárea não apresenta um impacto tão negativo, elas entendem que o melhor foi feito naquele momento. No entanto, existem mulheres que sentem uma grande dor por isso, sofrem um luto de verdade. Apresentam tristeza, decepção, impotência, raiva e até culpa. Algumas pedem desculpa para a equipe ou perguntam se nós estaríamos decepcionadas com ela… Imagina!

Todos nós temos os nossos limites, limites estes que variam de pessoa para pessoa e variam até em uma mesma pessoa de acordo com o momento. Limites que podem ser diferentes em cada gravidez, em cada parto, que fazem algumas solicitar uma intervenção farmacológica que inicialmente não desejava ou até uma intervenção cirúrgica. A equipe também está ali para saber identificar quando a mulher alcançou o seu limite.

A gente entra em trabalho de parto junto, incentiva, apoia, torce, deseja tanto o parto normal quanto elas, pois sabemos da importância que isso tem para cada uma… mas uma hora é preciso a equipe médica agir e intervir para que mãe e bebê fiquem bem e saudáveis. Estamos ali justamente para isso!

Ninguém tem que se sentir culpado. A sensação da equipe nunca será de decepção porque sabemos o quanto a mulher se preparou e desejou estar ali. A sensação que temos é de orgulho por ela ter ido até onde conseguiu ou até onde foi possível ir sem prejudicar a sua saúde e o bem estar do feto. A nossa sensação é de felicidade em poder intervir de forma consciente e entregar um bebê saudável para os pais, o que realmente é o nosso objetivo.

Nenhum trabalho de parto é em vão mesmo tendo evoluído para cesárea, pois mãe e bebê durante todo o momento do parto já estavam se preparando para o nascimento. E parto não é um jogo onde vence quem consegue parir naturalmente. Parto envolve muitas variáveis, como limites, emoções, equilíbrio, dor, influências externas, posição do bebê, contrações uterinas e não sabemos como será um parto até vivenciarmos ele.

Por isso, sempre falo sobre a importância de estar bem informada e bem assistida no parto (assim como na gestação inteira!). Como é importante estar com uma equipe que saiba apoiar, acolher mas também que saiba enxergar os limites ou quando o parto não evolui como o esperado para intervir no momento certo, sempre que preciso.

É importante entender que o principal é ter o bebê saudável nos braços, mesmo que o parto não tenha saído como planejado. Sem sentir tristeza, frustração ou culpa, com a certeza de que fomos até onde podíamos e conseguíamos ir!

 Rachel Tavares é pós graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Campos, tem residência Médica em Ginecologia e Obstetrícia pelo Instituto Fernandes Figueira e Título de especialista em Reprodução Humana Assistida pela Associação Instituto Sapientiae 

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