O papel da família e da Igreja no combate à violência urbana

Como uma epidemia, a violência se alastra e atinge as nossas cidades, comunidades e lares. Influencia nossos relacionamentos virtuais e pessoais, muda nossa rotina, comportamento e fé. Com um cenário que parece só piorar, é possível a família e a Igreja combaterem tamanho mal?

Por Fabiana Tostes

A insegurança tira o sono de qualquer brasileiro. Difícil encontrar alguém nas ruas das grandes metrópoles que não tenha medo de ser assaltado. Ou uma mulher que, ao andar sozinha, não tenha sido assediada ou até estuprada.

Quem nunca temeu ser vítima de uma bala perdida? A apreensão é tamanha que sempre se sobressai em pesquisas de opinião.

Levantamento feito pelo Instituto Datafolha em setembro do ano passado mostrou que a violência é o principal motivo de preocupação da população do país (20%), empatado tecnicamente com a questão da saúde (23%). Foi o maior índice desde 2014, e não é para menos.

Segundo o Atlas da Violência, divulgado último, o Brasil atingiu a marca de 62.517 homicídios (mortes ocorridas em 2016), a maior parte de jovens. Nos três primeiros meses deste ano, só no Espírito Santo, houve 293 assassinatos.

Destes, 12 foram por feminicídio – quando mulheres são assassinadas pelo simples fato de ser mulheres, muitas vezes em um contexto de violência doméstica e familiar.
A agressão física, ainda que de maior gravidade e visibilidade, não é a única. Quem se conecta às redes sociais tem percebido um ambiente cada vez mais hostil, que se agravou com a polarização política.

A consequência: famílias brigadas, amizades desfeitas e cristãos em pé de guerra. Há uma maneira de fechar a boca faminta da violência?
A Bíblia diz que sim. E não é com mais violência.

De onde vem?

Em sua palestra no II Fórum de Missão Urbana no Recife – que baseia o artigo “Ser Igreja em tempo de violência” –, Pr. Jorge Henrique Barro citou a causa de tanto ódio.
“O que sai do homem é o que o torna impuro, pois do interior do coração vêm os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos, os homicídios, os adultérios, as cobiças, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a calúnia, a arrogância e a insensatez. Todos esses males vêm de dentro e tornam o homem impuro”, disse o pastor, citando a passagem de Marcos 7:14-23.

“Aqui está a má notícia da condição humana: a violência, como todo pecado, vem de dentro do coração humano.

Os estímulos externos certamente afetam as pessoas, o profundo sofrimento psicológico condiciona-as a uma cultura de violência, ‘dá permissão’ para serem violentas, ou para serem dessensibilizadas, mas o instinto e a escolha de agir em violência saem do coração”, disse o pastor, que é doutor e avaliador do Ministério da Educação (MEC) em Teologia e diretor acadêmico da Faculdade Teológica Sul-Americana.

Ele também citou o episódio de Caim e Abel, no qual o próprio Deus alertou o primeiro, já tomado de ira e fúria contra seu irmão, de que caberia a ele dominar o desejo de violência. “Caim não o fez, e sangue foi derramado.”

O Atlas da Violência 2018 mostrou que o Brasil tem uma taxa de 30,3 homicídios para cada 100 mil habitantes, patamar 30 vezes mais elevado que o da Europa. De 2006 a 2016, 553 mil pessoas foram assassinadas no país – é mais do que a população inteira da capital do Espírito Santo, Vitória.

Pr. Fellipe dos Anjos, da Igreja Batista de Água Branca (Ibab), em São Paulo, tem analisado os meandros dessa realidade. “Estudo bastante essa questão. E, justamente por isso, é tão difícil traçar causas simples e diretas.

As mais fundamentais são a desigualdade socioeconômica, que alcança níveis alarmantes e que lança os pobres num lugar de altíssima vulnerabilidade social; o racismo estrutural, que marca todas as relações de produção de violência urbana e que permanece não discutido, não assumido e não enfrentado com ousadia e coragem pela sociedade; a precariedade da nossa democracia, que faz com que as leis e a violência institucional do Estado sejam na maioria das vezes destinadas aos mais vulneráveis economicamente”, mencionou.

E a violência também atinge os cristãos, como vítimas e causadores. “Como parte considerável da sociedade brasileira hoje, os evangélicos sofrem com a violência urbana do mesmo modo que a maioria dos cidadãos e cidadãs. Uma pesquisa da professora Valéria Vilhena, da Universidade Mackenzie, mostrou que 40% das mulheres vítimas de violência doméstica eram evangélicas e vinham de famílias evangélicas”, afirmou. E se a violência começa na família, o fruto na sociedade tende a ser pior.

Começa em casa

“Instrui o menino no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer não se desviará dele.” A orientação de Provérbios 22:6 também se aplica à tarefa de educar filhos pacíficos. A família é a primeira barreira de proteção e deve atuar na promoção de valores democráticos e pluralistas. “A família pode ser o primeiro lugar onde um ser humano aprende a tolerar as diversidades, pluralidades, limites e ambiguidades para que saiba viver bem na cidade, no espaço público, em sociedade.

A família é responsável pela formação valorativa e afetiva de um sujeito que saberá dialogar em vez de apostar todas as suas forças no ódio e na intolerância”, defende Pr. Fellipe dos Anjos.

“A família pode ser o primeiro lugar onde um ser humano aprende a tolerar as diversidades, pluralidades, limites e ambiguidades para que saiba viver bem na cidade, no espaço público, em sociedade” – Fellipe dos Anjos, pastor da Igreja Batista de Água Branca (Ibab), em São Paulo

Quando a criança cresce num lar em que não lhe é dado limites, em que os parentes não dialogam, em que há imposição de força para se defender um ponto de vista, onde nem todos são ouvidos, provavelmente ela vai refletir um comportamento agressivo e violento fora do ambiente doméstico.

Porém, o senador capixaba Marcos do Val, relator do pacote anticrime do ministro da Justiça, Sergio Moro, lembra que nem todos os lares têm a estrutura necessária para transmitir tais valores.

“No Brasil temos famílias desestruturadas, com pai fora de casa, padrasto violento, alcoolizado, mãe com mais de 10 filhos, muitos criados pela avó, e outros, presos por causa de drogas… Hoje a família precisa ser amparada, precisamos ajudar a família a se reestruturar. Por exemplo, o pai é importante na presença dos filhos, é o que dá limite a eles. Se as crianças não têm isso dentro de casa, acabam se confrontando com a lei lá fora”, lembrou o senador. É aí que entra a Igreja como segunda barreira de proteção no combate à violência.

Função da igreja

O sermão da montanha, proferido por Jesus no início de Seu ministério, pode ser considerado um manual contra a violência. Registradas no capítulo 5 do Evangelho de Mateus, as orientações do Messias aos discípulos nunca tiveram uma aplicação tão necessária como nos dias de hoje –

“Bem-aventurados os misericordiosos, pois obterão misericórdia” (v. 7);

“Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus” (v. 9);

“Mas eu lhes digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento” (v. 22);

“Vá primeiro reconciliar-se com o seu irmão, depois volte e apresente sua oferta. Entre em acordo depressa com seu adversário que pretende levá-lo ao tribunal” (v. 24-25);

“Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra” (v. 39);

“Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus” (v. 44).

Embora o mundo pareça caminhar no sentido oposto, fazendo valer a máxima do olho por olho e dente por dente, respondendo a um ato violento com mais violência, as instruções de Jesus há dois milênios se mantêm preciosas para a contemporaneidade. Passaram-se os anos, mas a resposta ao mal continua sendo fazer o bem (Romanos 12:21).

Em termos práticos, a Igreja precisa não somente combater a violência, como também tentar evitá-la, explica Pr. Jorge: “Os seguidores de Jesus são chamados a fazer mais do que passivamente esperar a próxima pessoa sacar sua arma.

“Até colocar no coração da criança que ela pode ser amada e nos respeitar, até desconstruir a linguagem da ameaça, da violência, leva um tempo. É um processo lento, que precisa ser regado a muito amor e paciência”
Cláudio Campos, pastor e capelão da fundação criada pela Igreja Batista da Praia do Canto, em Vitória (ES), para atuar em região de risco social

Nosso Senhor e Salvador nos chama para fechar a lacuna onde pessoas são rejeitadas e abusadas por outros, a conectar-se aos feridos antes que ataquem e firam outros. Atirar de volta é sempre pior do que parar o tiroteio antes que ele comece. Trabalhar para barrar a violência é muito melhor do que consertar seus estragos!

Esta é a pergunta para nós: somos guardiões dos seres humanos, criados à imagem de Deus? É responsabilidade humana prestar atenção às vítimas em potencial e termos coragem de ficar atentos aos possíveis agressores. Caim não fez isso. Outros também não farão, mas ser Igreja em tempos de violência é antecipar as causas da violência. E uma das causas que a Igreja certamente pode atuar é na personalidade humana, como mediadora de conflitos, sendo porta-voz e agência conscientizadora dos valores do reino de Deus na promoção da paz”.

Pr. Fellipe também chama atenção sobre o silêncio dos crentes diante da violência doméstica. “A Igreja precisa admitir que é um problema real e tratar tanto os autores como as vítimas de violência. Uma das suas colaborações pode ser na formação teológica, uma prática pastoral que desconstrua o machismo estrutural, algoz de muitas mulheres”, defendeu.

Mãos à obra

Há 36 anos, a Igreja Batista da Praia do Canto, em Vitória, percebeu que poderia ser um instrumento de Deus no combate à violência e criou uma fundação para atender a uma das áreas mais vulneráveis do Espírito Santo. A região de São Pedro, que na época era conhecida como “lugar de toda pobreza”, tinha um grande lixão, e muitas famílias viviam em seu entorno quando a entidade lá começou a atuar.

“A proposta era chegar com a graça e o amor de Cristo e fazer algo pela comunidade. Estabelecemos ali o primeiro posto de saúde do bairro, levamos também atividades para as crianças, no contraturno escolar, pois sabíamos que elas ficavam muito vulneráveis a abusos, ao uso de drogas. Oferecemos três oficinas envolvendo artes e esportes.

Atendemos em média 140 crianças por dia, com idades entre 7 e 15 anos”, disse o capelão da fundação, Pr. Cláudio Campos.

Um dos maiores desafios encarados é a violência. “A linguagem que adotamos no projeto é a do amor, mas qual a linguagem a que as crianças estão acostumadas? Com a da violência! Elas associam o respeito ao medo, à ameaça.

Os números da violência

 

Se não for por medo, não nos respeitam. Até colocar no coração da criança que ela pode ser amada e nos respeitar, até desconstruir a linguagem da ameaça, da violência, fazer a virada da chavinha, leva um tempo. É um processo muitas vezes lento, que precisa ser regado a muito amor e paciência”, observa o pastor.

Uma das tarefas do capelão é buscar os meninos assediados pelo tráfico de drogas, um trabalho de resgate que já tem dado frutos. “Há dois bairros aqui guerreando por conta do tráfico. Percebi que as crianças também estavam em guerra. Elas criaram simulacros de armas e estavam jogando pedras umas nas outras.

Com a ajuda dos pais, conseguimos acabar com isso, era a semente do ódio nascendo no coração das crianças. Um outro menino, de 16 anos, que faz parte do projeto e que teria tudo para dar errado, tem crescido com a gente.

A mãe dele estava grávida de 7 meses do seu irmãozinho quando foi morta pelo tráfico de drogas; o pai é usuário de crack e vive como mendigo pelas ruas de Vitória. Ele está conosco há quatro anos, está terminando o ensino médio e já é voluntário do projeto. Creio no poder da oração, e estamos ali para exercer o ministério da reconciliação. Quando o amor de Deus entra, a violência se afasta.”

“A Igreja tem feito um trabalho excepcional de combate à violência”, disse o senador Marcos do Val, que é contrário a um dito popular falado em coro, repetidamente. “Quando a sociedade fala ‘bandido bom é bandido morto’, está sendo corresponsável pela violência. Primeiro porque não tem no Código Penal essa autorização; o policial que mata vai ser punido, expulso e preso. E o bandido, sabendo que a polícia vai chegar para matar, vai se armar mais, aí tem tiroteio, balas perdidas, reféns… Bandido bom é o que foi condenado e preso.”

“Quando a sociedade fala ‘bandido bom é bandido morto’, está sendo corresponsável pela violência. O policial que mata vai ser punido, expulso e preso. E o bandido vai se armar mais, aí tem tiroteio, balas perdidas, reféns”
Marcos do Val, senador e especialista em segurança

O subsecretário de Integração Institucional da Secretaria de Segurança do Espírito Santo, delegado Guilherme Pacífico, também citou a importância da obra das congregações. “O nosso trabalho acaba agindo nos sintomas, e não na causa da violência. A polícia opera na repressão e começa a atuar quando já falhou um monte de estruturas. Nesse ponto, é fundamental o trabalho da Igreja e da família, pois toca na proteção das causas, nos freios da sociedade que impedem que as pessoas passem a cometer crimes. O trabalho da religiosidade, da Igreja, na prevenção é mais eficaz do que outros de repressão”, afirmou.

Ele também enaltece o papel de recondução dos presos à sociedade desempenhado por muitos cristãos. “Nota-se, também, que o sistema penitenciário brasileiro tem muita dificuldade na ressocialização. E o serviço da Igreja é fundamental na ressocialização das pessoas, de retomar a esperança, resgatar valores, de voltar ao caminho do bem.”

O delegado também cita o programa Estado Presente, do governo capixaba, como um instrumento de combate à criminalidade que tem tirado o Espírito Santo do topo do ranking nacional da insegurança. “A iniciativa vem com ações no campo policial e social, pois não é só papel da polícia combater a violência, tem que dialogar com a sociedade, Igreja, escola, família. Quando parte para políticas extremas, como a repressão muito extremada, não se obtém um resultado satisfatório.

O Estado vem compreendendo essa questão e por isso tem deixado os primeiros lugares no ranking da violência.” O caminho da paz nem sempre será trilhado com facilidade. Mas é esta a trilha que Deus indica aos Seus filhos. “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem Ele quer bem” (Lucas 2:14).


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