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domingo, 28 novembro 2021

Cláudia Affonso fala das dúvidas mais comuns das adolescentes

Além de falar das dúvidas sobre adolescentes, a doutora Cláudia Affonso também opina sobre situações vividas pela sociedade hoje e também observadas em sua experiência profissional

Por Márcia Rodrigues 

Quais as dúvidas mais comuns das adolescentes e pré-adolescentes? É sobre isso que a psicóloga cristã Cláudia Afonso aborda nesta entrevista, com base em informações do livro “Manual de Sobrevivência da Garota Descolada”, escrito pela pedagoga norte-americana Nancy Rue.

Cláudia fala das questões relacionadas às mudanças ocorridas nesse período, desde a relação com a comida e o peso, até questões referentes às transformações no corpo, na mente e na sexualidade.

Porta-voz escolhida pela Editora Mundo Cristão para falar, no Brasil, sobre os temas abordados pelo primeiro livro da série Faithgirlz!, a psicóloga opinou também sobre situações vividas pela sociedade hoje e também observadas em sua experiência profissional.

Comunhão: Falar sobre as questões da sexualidade ainda é um tabu entre pais e filhos?

Dra. Cláudia: Eu creio que sim. A conversa dentro de casa é como uma sementinha, que você vai plantando desde criança. Então, se a criança faz perguntas sobre coisas que envolvem a sexualidade, o ato sexual, e elas foram respondidas com tranqüilidade, se houve espaço para isso, a tendência desse espaço de conversa ser mantido mais tarde é maior. Se a criança pergunta: “mamãe, de onde vêm os bebês?”, que é uma das perguntas mais comuns, e os pais respondem, por exemplo, “da barriga”, a criança pode se contentar ou não com a resposta. Se ela se contenta, volta a brincar, é porque está satisfeita e absorvendo aquela informação. Se para ela aquilo não for suficiente, se ela já está pronta para uma próxima informação, ela vai continuar perguntando, aprofundando o assunto até se dar por satisfeita. Com o pré-adolescente é a mesma coisa, e o livro ilustra bem isso. Mas alguns, por sentirem vergonha, ou não entenderem bem o que está acontecendo, preferem calar. E aí cabe aos pais perceber o que está acontecendo e propiciar o diálogo.

A senhora tocou num ponto importante: cabe aos pais perceber. A senhora considera que os pais têm estado suficientemente atentos aos filhos?

Eu penso que os pais precisam entender que os filhos nascem para crescer e ir para a vida. Eles passam pelas nossas mãos por um período, mas são indivíduos. E, na adolescência, a busca é justamente essa: “Quem eu sou? Não sou meu pai, não sou minha mãe, às vezes não concordo com o que eles falam”. Até existem muitos conflitos justamente por isso, porque eles não querem exatamente o que os pais querem, mas sim achar o que eles próprios pensam, o que desejam para si. Nem que seja pegando de volta depois, por livre e espontânea escolha, os ensinamentos dos pais. Mas, aí, se apropriando disso como algo seu, não mais porque o pai ou a mãe falou e eles têm que fazer daquele jeito. Podem até vir a se apropriar novamente se esses valores não forem valores que o adolescente olha e pensa: “eles falam isso, mas não praticam isso”. Então, ele vai começar a bater de frente (com os pais). Agora, se ele vê que os pais falam, mas fazem, vão ter um respeito maior.

A senhora concorda com a tese de que às vezes os pais têm medo de entrar nesse mundo “teen” e descobrir coisas que eles têm dificuldade em aceitar, explicar ou mudar?

Eu creio que sim, porque quando a gente vê o filho adolescente, a gente pensa que a nossa memória vai nos trair, no sentido de nos fazer lembrar da nossa adolescência. E essa é uma pergunta que eu faço mesmo a todos os pais no meu consultório, Quando a gente atende adolescente faz um trabalho paralelo com os pais, de orientação a eles, e nesse processo é importante saber como foi a adolescência deles. Porque, às vezes, a briga não é com o filho, mas com aquele adolescente que ainda mora dentro dos pais, escondido em algum lugar.

Em relação à sexualidade juvenil, existem diferenças significativas de comportamento entre meninas e meninos na pré-adolescência?

Sim. As meninas têm um despertar anterior ao dos meninos. Os meninos estão ainda na fase de grudar chiclete na cadeira das meninas e elas já estão com os seios despontando, já estão acontecendo coisas com elas que para os meninos não. É muito comum você ver na fase da sexta ou sétima série as meninas quase que com corpo de mulher os rapazes ainda com corpo de criança. O “estirão” das meninas acontece antes dos meninos. Embora eles já estejam também com algumas mudanças acontecendo, estas ainda não floresceram plenamente. Mas aí vem o “estirão” deles, e eles passam as meninas. Essa é uma diferença que tem razões biológicas.

Os pais devem lidar com meninas e meninos de forma diferente?

Eu penso que os pais devem lidar diferente com indivíduos diferentes, não em função de ser um menino ou uma menina. Os pais devem lidar com os filhos de forma individual. Se você tem mais de um filho vai perceber que cada um tem seu jeito, mesmo que sejam todos rapazes ou todas moças. Você vai ver que eles agem e reagem de formas diferentes, e isso é perceptível desde crianças. E isso é uma dádiva maravilhosa da criação. Cada pessoa é única.

A influência do grupo de amigos e a internet são fatores importantes nesse aspecto. Quais os riscos que isso traz para o adolescente?

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Foto: Reprodução

Eu acredito que educação tem que ter limites e delegação de responsabilidades. E se o seu filho, para as responsabilidades, se comporta como uma criança de oito anos, será que você pode dar a ele privilégios de alguém com quinze? Isso precisa ser considerado. Se o seu filho pede para dormir na casa de um colega, você tem o direito de saber quem é esse colega, como é a sua família. O controle da situação tem que estar na mão dos pais ainda. Porque se o filho fosse maduro o suficiente para você confiar sem restrições, ele seria um adulto. Há situações em que você pode confiar no adolescente, e outras que não. Inclusive, por lei, se acontecer alguma coisa com seu filho você responde por crime de negligência. Se ele quer ir, por exemplo, para um lugar onde não vai ter um responsável adulto, você tem não apenas o direito, mas o dever de dizer não. Você tem o dever de saber o que ele está acessando na internet, o que está lendo, ouvindo, o que está acontecendo.

A internet, o espaço virtual onde eles se encontram, requer uma atenção especial?

Merece. Os acessos à TV e à internet têm que estar sob controle dos pais. Eu atendo casos no consultório em que a família se queixa, por exemplo, de comportamentos que não sabe onde o filho aprendeu. Você investiga e acaba descobrindo que ele aprendeu aquilo na internet, na TV ou com amigos. Quase sempre, a causa é que os pais trabalham fora, o filho fica muito tempo sozinho em casa. Os pais precisam saber o que ele está fazendo com esse tempo livre.

A falta de tempo dos pais é um fator crítico, então?

O tempo para a família tem que haver. A falta de tempo muitas vezes tem sido compensada com presentes e com falta de dizer não, o que gera uma permissividade que depois você perde o controle. Então, a festa que você deixa ele ir sozinho vira babá, a casa do colega vira babá, e você fica sendo legal, porque não está dizendo “não”. É um perigo isso. É preciso refletir: até que ponto vai valer o seu filho ter coisas e não ter você? Para ter coisas, ele pode um dia, como a natureza manda, crescer, trabalhar e comprar! E não você fazer hora extra para comprar um tênis que hoje é o objeto de desejo e amanhã não será mais. Muda o modelo da moda e aí você trabalha mais para comprar o novo. Dali a três meses o novo já é outro, e isso não tem fim. Então, o que você está passando para o seu filho quando faz isso? Que o importante é ter, em lugar de ser. É uma inversão de valores que o mundo tenta nos impor, nos fazer trazer para dentro de casa.

Há algum tempo iniciou-se um movimento de revalorização da castidade, entre os jovens, princípio que é defendido na Bíblia. Qual a importância disso?

Eu penso que este argumento bíblico muitas vezes não é respeitado por pura falta de entendimento, e isso é muito legal da forma como é tratado no livro, pois a preocupação da autora não foi só falar das mudanças que ocorrem no corpo com a adolescência, mas sim das questões: Como eu estou me vendo? Como o outro está me vendo? E como Deus está vendo tudo isso? São as três direções possíveis que o ser humano tem de se relacionar e que ela aborda no livro. Quando você tem entendimento do porquê de algo, você consegue fazer as coisas com mais alegria. E o que eu enxergo por trás deste princípio? Primeiro, o cuidado de Deus com o valor que a pessoa tem. Essa banalização sexual hoje, não só entre os jovens, mas também entre os adultos, tem a ver com a mídia, sim, mas por trás da mídia está o quê? Pessoas! Cabeças que pensaram e criaram aquilo. Então, é o desvalor para com a pessoa. Ao preservar a virgindade, você está dizendo: “Eu estou me valorizando para um relacionamento duradouro. Eu estou me guardando porque me respeito”. Mais do que qualquer outra coisa, se é moda ou não, é o autorrespeito. Se eu tenho que sair e beijar não sei quantas pessoas numa balada, que diversão é essa? Você vai com uma missão – bater o recorde de alguém. Virou uma competição. Isso, para mim, é insano! “Peguei não sei quantos, ou quantas, hoje”. Peguei o quê? O que é que eu estou levando para a minha casa, para mim? Então, além de evitar as DSTs (doenças sexualmente transmissíveis), quando se fala na proposta bíblica de preservar a virgindade, eu creio que Deus queria nos preservar de muitos problemas.

Como a igreja pode ajudar os pais nessa área?

A Igreja tem um papel importantíssimo! Se existe uma preocupação com o rebanho e este é um assunto que Deus criou, então é necessário ter um lugar para ele dentro da igreja, seja ela de que denominação for. Eu penso que se na sua igreja não existe esse tipo de conversa, dê a ideia. Uma das formas de se fazer isso é justamente levar informação sem expor (as pessoas), em palestras distintas para os pais e para os jovens.

Ao final, pode-se abrir para perguntas anônimas. Distribuem-se papeis iguais para todos e recolhem-se as perguntas, misturando tudo. Ninguém vai saber quem perguntou o quê. Eu tenho tido a grata surpresa de ouvir perguntas do tipo: “Eu já tive HPV; eu posso engravidar?”, numa palestra para adolescentes. São pessoas que estão tendo coragem de fazer as suas perguntas dentro da igreja e querem ouvir uma orientação. Eu acho isso maravilhoso. Tem profissionais que fazem isso, que estão disponíveis e que nem cobram para dar essas palestras.

Então, as lideranças eclesiásticas deveriam fomentar esse tipo de iniciativa?

Sim, sem dúvida. Inclusive, por outro motivo também: elas precisam acordar para um outro tipo de público que tem chegado às igrejas. Foi-se o tempo em que os jovens vêm de famílias que estão há gerações dentro da igreja. Hoje, temos recebido jovens que já chegam deformados. E você vai falar de virgindade com eles? Você tem que falar de santidade daqui para a frente, mas cuidar do que restou. Então, se um desses jovens pergunta: “Eu já transei com x pessoas; devo fazer um teste de HIV?”, você tem que dizer que sim, deve.

E aí, propor mesmo um cuidado maior consigo, ajudar a analisar: por que transou com tanta gente? Por que ficou tão disponível e tão desvalorizado? A questão não é o transar, e sim o porquê desse comportamento. A igreja precisa tratar essas questões de modo preventivo e curativo. São dois os aspectos a que as igrejas precisam estar atentas. Não é uma tarefa fácil, mas é possível e necessária. Se a gente puder contar com uma equipe interdisciplinar, esse trabalho pode ficar muito rico.

Esta matéria é uma republicação exibida na Revista Comunhão – Maio/2010, produzida pelo jornalista Márcia Rodrigues e atualizada em 2021 (Priscilla Cerqueira). Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi originalmente escrita.

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