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quarta-feira, 3 março 2021

Francis Collins sobre o Covid-19: “A força de Deus é sempre suficiente”

A crise do coronavírus é apenas o capítulo mais recente da deslumbrante carreira do cientista cristão, Francis Collins

Um dos cientistas mais respeitados do mundo, o médico geneticista Francis Collins, concedeu uma recente entrevista ao jornalista Peter Wehner, da revista The Atlantic. Que foi publicada na Associação Brasileira de Cristãos na Ciência. Francis fala sobre a pandemia do coronavírus no mundo.

Também fala da evolução da COVID-19 e as providências que estão sendo tomadas nos Estados Unidos para combater esta pandemia. “Há estimativas de que se nada der certo e se não conseguirmos achatar a curva e se os sistemas de saúde estiverem sobrecarregados, poderemos ter a morte de até um milhão e meio de pessoas nos Estados Unidos”.

O cientista, que é cristão, apresentou uma visão realista do pior cenário que aguarda os Estados Unidos nas próximas oito semanas. A menos que se adote, em suas palavras, “a versão mais extrema” do distanciamento social.

“Se você observar as taxas de novos casos que estão sendo diagnosticados, estamos em uma curva exponencial. Alguns dizem que essa curva nos coloca apenas oito dias atrás da Itália. Se isso for verdade, temos um período muito curto de tempo antes que isso se torne uma óbvia crise nacional, com muitas pessoas apresentando doenças graves e hospitais ficando muito estressados com a capacidade de tratar todas essas pessoas doentes, especialmente as idosas”, afirma.

Sobre o coronavírus nos EUA, parecemos estar caminhando para o que aconteceu na Itália?

Se você observar a curva de novos casos diagnosticados ao longo do último mês, basta olhar a curva do que aconteceu na Itália. E em seguida, a dos EUA, e você dirá que se voltar oito dias a partir de hoje, eles tiveram o mesmo número de casos que temos hoje – ou seja, pouco mais de 2.000. Então, se seguirmos a mesma trilha, em oito dias a partir de [22 de março], acabaremos tendo o mesmo tipo de crise incrível que eles estão enfrentando. Neste momento, temos a chance de mudar isso, aplicando agora as medidas mais draconianas de distanciamento social para tentar limitar a disseminação do coronavírus de pessoa para pessoa. Mas não conseguiremos mudar o curso dessa curva exponencial, a menos que haja um pleno envolvimento nacional nesse compromisso de tentar reduzir a disseminação. Acho que estamos chegando lá; certamente nos últimos dias parece que muitos estão acordando para a gravidade da ameaça, mas obviamente isso não é universal em todo este grande e complicado país.

O que mais o surpreendeu sobre o coronavírus, na sua perspectiva de médico e cientista?

O grau em que isso é tão rapidamente transmissível. Mais do que a SARS² era. A SARS foi uma situação terrivelmente assustadora para o mundo há 18 anos, mas nunca atingiu o nível de infecções ou mortes que temos através desse coronavírus, porque não era tão transmissível. A SARS era transmissível, mas apenas de pessoas realmente muito doentes. Este [vírus] parece ser transmissível por pessoas que têm doenças menos graves ou talvez nenhuma doença. E é por isso que tem sido tão difícil controlar ou saber quando você deve impor essas medidas rigorosas sobre as quais estamos falando. Se você esperar até que tenha visto muitos casos de pessoas afetadas, saberá que esperou demais, porque o número de pessoas que ainda não foram ao sistema de saúde, mas que já estarão infectadas, será provavelmente 100 vezes maior que o número de casos conhecidos.

O que está sendo feito para ajudar os hospitais sobrecarregados e o que dizer sobre os aparelhos de ventilação e equipamentos de proteção?

Há um grande esforço para tentar nos preparar para isso em termos de um levantamento de equipamentos de proteção individual; existe um estoque nacional e estamos tentando descobrir qual a melhor forma de distribuí-lo onde for mais necessário. Todo hospital está analisando quais podem ser suas capacidades e o que eles precisam fazer para montar instalações adicionais nas proximidades. Com as universidades fechando para os estudantes, é possível que precisemos ter o espaço universitário usado como ambiente extra para atendimento aos pacientes. Há muitas preocupações sobre a existência de profissionais de saúde suficientes, especialmente em locais que já tinham poucos médicos, como nas comunidades rurais. Há um grande esforço organizado por meio dos [Serviços Humanitários e de Saúde], mas obviamente muito disso se resumirá ao que acontece no nível da comunidade. E muito disso dependerá se teremos êxito em achatar essa curva, de modo que a necessidade de atenção médica intensiva se estenda ao longo de vários meses, em vez de nos atingir de uma só vez nas próximas semanas. Como ainda não temos uma vacina, nem temos ainda uma terapêutica que funcione. O melhor meio de tentar impedir poderia ser um resultado realmente terrível, além do distanciamento social, é usar desinfetantes e lavar bem as mãos com água quente e sabão por 20 segundos tantas vezes durante o dia quanto possível. Todas estas práticas parecem medievais, mas funcionam.

Francis_Collins-comunhao
Foto: Anthony Collins Photography 2017

Qual a responsabilidade cívica e a importância do altruísmo em meio a uma pandemia?

Acho que nós, como nação, temos que tomar a atitude de não apenas pensar em nós mesmos, mas pensar em todos os outros ao nosso redor, e particularmente nas pessoas mais vulneráveis ​​- aquelas que são mais velhas e as que têm doenças crônicas. Os jovens podem ter um risco relativamente baixo de doenças graves, as crianças parecem ter um risco muito baixo, mas se você quiser evitar o que poderia ser a morte de centenas de milhares de pessoas, então todos nós devemos limitar drasticamente nossas interações sociais. Precisamos nos perguntar sobre todas as interações que temos, se são necessárias ou não. Eu quero enfatizar muito isso. Obviamente, as pessoas precisam ter comida em casa e fazer outras coisas absolutamente essenciais, mas, mais do que isso, devemos nos predispor a nos submetermos ao mais rigoroso isolamento. Isso significa que todos precisamos assumir a responsabilidade, mesmo que pensemos que somos relativamente impermeáveis ​​a esta doença. Seria fácil para um jovem olhar os dados e dizer: ‘Bem, sabe, e se eu pegar isso? Provavelmente vou ficar bem.’ Mas você tem que se considerar também como um veículo [do vírus] para outras pessoas vulneráveis. Mesmo que você ache que não precisa deste tipo de isolamento para o seu próprio bem, deverá fazer isso pelo resto do país, e principalmente pelos seus avós e outras pessoas que estão em estado vulnerável.

Uma perspectiva geral em tempos de pandemia?

Acho que as pessoas precisam estar preparadas para que estejamos nesta situação pro mais tempo do que gostariam. O melhor sinal de que estamos progredindo será se a duração da epidemia for um pouco maior. É isso o que significa achatar a curva. Isso significa que os casos mais graves se estendem ao longo do tempo e nem tudo acontece logo no começo. Portanto, qualquer pessoa que esteja imaginando que tudo vai acabar dentro de um mês precisa pensar no fato de que estamos nisso, eu acho, por um longo período. Não consigo imaginar que as escolas que decidiram dispensar os alunos por duas semanas voltarão às aulas após esse período, nem provavelmente durante todo o ano letivo. Penso que estamos enfrentando o fato de que, pelo menos até junho, precisamos tomar a atitude de encarar isso com a maior seriedade. O que significa que todas as pessoas devem se responsabilizar por isso e não ficar inventando razões pelas quais isso não seja necessário.

O que mais deseja que os cristãos entendam sobre ciência e o que mais deseja que os cientistas entendam sobre fé?

Para os cristãos, eu diria, pense na ciência como uma dádiva do Criador. A curiosidade que nos foi incutida para entender como o universo funciona pode inspirar ainda mais admiração ao Criador. De forma alguma, esta dádiva poderia ser uma ameaça para Deus, o autor de tudo. Celebre o que a ciência pode nos ensinar. Pense na ciência como uma forma de adoração. Os cientistas, por sua natureza, tentam entender como a natureza funciona. Acho que a mensagem para os cientistas deve ser que existem questões realmente importantes que estão fora do que a ciência é capaz de abordar de maneira significativa, como: ‘Por que há algo em vez de nada? Qual é o significado do amor? Existe um Deus? O que acontece depois que você morre?’ Essas não são perguntas para as quais a ciência ou os métodos científicos podem ser aplicados. Os cientistas seriam mais beneficiados se deixassem de lado a mentalidade que diz que as únicas perguntas que vale a pena fazer são as que se referem ao mundo material.

*Extraído de Associação Brasileira de Cristãos na Ciência, adaptado por Comunhão

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