Cidadania na era da pós-verdade

Transformar o Brasil é tarefa muito maior que jogar frases motivacionais ao vento ou disparar piadas pelo smartphone

“Pós-verdade”, expressão eleita como “Palavra do Ano 2016” pelo Dicionário Oxford, é definida como “momento em que os fatos objetivos são menos influentes do que as emoções e as crenças pessoais na modelagem da opinião pública”. Ou seja, é a situação na qual os debates políticos se transformam em discussões emocionais, não importando tanto a realidade concreta. Se algo aparenta ser verdade, na prática se torna uma verdade, é mais importante que a verdade. Para o crescimento dos oportunistas políticos, há um vetor fundamental: o advento das mídias digitais.

As novas plataformas fragmentam de tal modo o conhecimento, os dados e as percepções que viabilizam o crescimento das “pós-verdade” e da política “pós-factual”. Ou seja, debates políticos menos atrelados aos fatos e mais ligados aos achismos, circunstâncias efêmeras, falta de rigor estatístico. De repente todos os brasileiros se julgam experts em assuntos políticos e econômicos.

Conversar sobre achismos é destruir a realidade das questões políticas e criar uma ficção que nos agrade. Os cidadãos passam a cercar-se e munir-se apenas das informações, opiniões e “narrativas” que lhes soem melhor aos ouvidos. As “guerras de narrativas” na verdade aniquilam a possibilidade de diálogos produtivos, pois são monólogos simultâneos. Por definição, sem diálogo não existe política ou democracia. Sociedades sem diálogos e consensos caminham para um ambiente de imposições, em que a legalidade, a racionalidade e o amor evaporam.

Conversar sobre achismos é destruir a realidade das questões políticas e criar uma ficção que nos agrade.

O acirramento do debate político brasileiro contribui para o clima de irracionalidade, e a irracionalidade colabora para imposições e ilegitimidades. Debater ideias, propostas e caminhos para o país é o cerne da democracia, sistema político que se distingue justamente por ter a participação do povo nas decisões.

Generalizações baratas em nada contribuem para elucidar os impasses sociais do Brasil. É urgente o retorno à mesa da razão, do debate responsável de ideias. Diante da inaptidão das antigas ideologias em apontar caminhos, da falência ética de velhos líderes políticos, do vasto alcance da corrupção, da ausência de líderes cívicos é urgente retornarmos ao uso público da razão. É preciso sair de labirintos desnecessários. Precisamos de mais sal, não de mais ácido.

Quem vigia os vigilantes? Quem lava a Lava Jato? Quem governa os governantes? A resposta na democracia brasileira é: o povo brasileiro.

Diálogos com menos estômago e mais cérebro. Transformar o Brasil é tarefa muito maior que jogar frases motivacionais ao vento ou disparar piadas pelo smartphone. A nação é muito maior que hashtags. É preciso ir além de hipóteses intermináveis, precisamos de sínteses. Mas precisamos de ações respaldadas pelo equilíbrio da reflexão intelectiva e solidez da pesquisa científica. Maturidade e equilíbrio são palavras que deveríamos ter em mente. Existem famílias brasileiras morrendo de fome, de sede e por violência. Momentos de instabilidade política são períodos onde o diálogo lúcido e constante é necessário. Quem vigia os vigilantes? Quem lava a Lava Jato? Quem governa os governantes? A resposta na democracia brasileira é: o povo brasileiro.


Davi Lago é mestre em Teoria do Direito e graduado em Direito pela PUC/MG. Ensaísta do Estado da Arte/O Estado de S. Paulo. Pastor batista