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quinta-feira, 30 maio 2024

Censura a pastores inibe pregações contra o pecado

Foto: Golden Dayz/ Shutterstock

Onda de processos contra religiosos coloca em xeque a liberdade de falarem de temas polêmicos, fazendo muitos se limitarem a discursos politicamente corretos 

Por Daniel Hirschmann

A cantora e pastora Ana Paula Valadão foi condenada, no último mês de abril, a pagar R$ 25 mil por danos morais coletivos, devido a declarações feitas em 2016, durante evento religioso, quando relacionou a homossexualidade à prática de pecado e à transmissão do vírus HIV. Ana Paula não é a primeira a ter o nome relacionado a esse tipo de ação ou decisão na Justiça brasileira.

Pastores e membros de igrejas evangélicas vêm sendo processados ou afastados, com frequência, ao se posicionarem em relação a assuntos como homossexualismo e religiões afro, entre outros temas. O pastor André Valadão, da Igreja Batista Lagoinha, por exemplo, passou a ser investigado por incitação a crime, após uma fala dele durante pregação ser considerada homofóbica. Ele denunciou, então tentativas de “calar cristãos por toda a Terra” e prometeu divulgar “verdades bíblicas sobre como vencer a censura”.

Também da Lagoinha, o pastor Felippe Valadão foi indiciado pela Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), em 2022, ao dizer, durante evento em Itaboraí, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, que muitos centros de umbanda seriam fechados. Ele alegou ter proferido “palavras em defesa da própria fé, acreditando que pessoas de outras religiões poderiam se converter à fé cristã” e que tinha apenas o objetivo de “evangelizar” os participantes do evento.

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Censura explícita

Para o pastor Rodrigo Mocellin, da Igreja Resgatar, em Taguatinguetá (SP), o que está havendo é “uma censura explícita contra os pastores que se posicionam”. Ele próprio já foi alvo de cinco processos por posicionamentos no canal dele no Youtube, onde tem 572 mil inscritos, além de postagens em redes sociais como o Instagram, em que conta com 225 mil seguidores.

Três processos foram por acusação de homofobia. Dois deles envolvem declarações de 2020 sobre o silêncio do movimento feminista diante do fato de a miss Goiás Rayka Vieira – a primeira “mulher trans” representante de Goiás no Miss Brasil Mundo – ser um homem. 

 

 
 
 
 
 
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“Homofobia é o ódio aos gays, é dizer que o gay é menos humano. O próprio STF (Supremo Tribunal Federal) disse que é garantido o direito dos pastores, dos cristãos de expressarem suas convicções religiosas, desde que isso não se configure em discurso de ódio. E o próprio STF declara que o discurso de ódio é o que vai incitar violência, dizer que o gay é menos ser humano, não tem direitos civis como os outros. E não foi nada disso que eu fiz”, explica Mocellin.

Outro processo por homofobia envolveu o jogador de vôlei Maurício Souza, quando o atleta foi acusado de homofobia e demitido do Minas Tênis Clube, em 2021. Maurício publicou um print da notícia “Superman atual, filho de Clark Kent, assume ser bissexual”, com a imagem do beijo gay do super-herói, e escreveu: “É só um desenho, não é nada demais. Vai nessa que vai ver onde vamos parar”.

O pastor Mocellin conta que comentou, na época, que “o movimento LGBT é a marca da besta e, se você não se submeter a eles, você vai perder emprego”, o que gerou novo processo judicial. Nos três processos por homofobia, o pastor saiu vitorioso.

Além desses, Mocellin respondeu a um processo por falar de religiões afrodescendentes. “Eu apenas li a confissão de fé deles, dizendo no que eles acreditavam, e eles me processaram por isso, por eu ler a confissão de fé deles. Ganhei também”, relata o pastor.
Depois, foi alvo de psicólogos. “Eu tenho falado que a psicologia é anticristã. E eles me processaram. Ganhei também”, conta.

Intimidação

Na opinião do pastor, os processos judiciais contra religiosos são uma forma de intimidação, pois um processo “é uma coisa difícil, sempre é chato, é penoso”. Essa estratégia tem dado resultado à medida que as pessoas ficam com receio de falar sobre certos assuntos. “É aquela estratégia de sempre: você quer um comportamento das pessoas, aí você vai, por exemplo, mata um, prende um, persegue um, e aí você faz com que todos os outros sigam em silêncio”, explica.

Mocellin diz que a forma de lutar contra isso, como cristãos, é “falar, falar, falar e não se intimidar”. Ele critica pastores que ficam em silêncio e, às vezes, “adotam a posição de que, em vez de falar que são covardes – porque a covardia nunca vem nua –, dizem que estão sendo amorosos”. “Na realidade, não há nada mais amoroso do que falar que pecado é pecado”, pontua.

Em recente entrevista para a revista Comunhão, a senadora Damares Alves também comentou a postura de pastores que evitam falar de pecado. “Hoje, nós estamos vendo muitos pastores não falarem de pecado. Por quê? Porque não é politicamente correto falar de pecado. Jesus não nos chamou pra sermos politicamente corretos. Ele nos chamou pra falar a verdade, e eu quero ter a liberdade de falar a verdade em qualquer lugar”, disse a ex-ministra e parlamentar evangélica.

Medo da maioria

Rodrigo Mocellin pondera, no entanto, que há pastores se posicionando com coragem diante das perseguições e censuras, mas ainda são minoria. “Isso é um problema do ser humano. Se o ser humano acredita que a grama é verde, mas o mundo inteiro ao redor dele está dizendo que a grama é rosa, ele está disposto a negar a convicção dele por medo da maioria. Infelizmente, isso é a realidade e, com os pastores, acontece o mesmo”, avalia.

Segundo o pastor da Igreja Resgatar, o primeiro motivo para isso é o medo de ser processado. O segundo é o medo de ser tachado de polêmico, de alguém que está querendo fazer algo para chamar a atenção. “Ficam com medo de que os chamem de ignorantes, de ‘sem amor’. O medo da reputação ir embora, de ser processado. E aí acabam não expressando as suas convicções”, afirma.

O risco, na opinião do pastor, é de que “a passividade dos bons” favoreça a “maldade dos maus” e isso tenha consequências. “Os bons ouvem isso com medo e, para se proteger, não falam nada. E por isso a liberdade está sendo perdida”, lamenta ele, comparando “esses homens malignos” a um cachorro. “Aquele cachorrinho covarde, que late. Se percebe a fraqueza em você, o cachorro avança. Mas se você avança para cima dele, ele sai correndo.”

Exemplo de Paulo

Mocellin entende que os pastores e cristãos em geral devem seguir o exemplo do apóstolo Paulo e não se submeter, mas resistir e até mesmo processar os acusadores – o que ele próprio já tem feito. “Quando Paulo foi preso, injustamente, vieram para soltá-lo, lá em Atos 16. E ele disse: vocês me prenderam sem julgamento, agora querem me soltar aqui, às escondidas? Não, não, não. Podem chamar os pretores para que eles venham aqui”, relata.

Nesse exemplo, conforme o pastor, não era uma questão de perdoar, mas de exercer o direito para poder pregar o Evangelho com liberdade. “Quando ele falou que ele era cidadão romano, diz o texto que as autoridades ficaram com temor, porque estavam cometendo injustiça. Desse modo, Paulo sabia que, ao exigir o direito dele, que era o que ele tinha na época, ele estava protegido para continuar a pregar”, comenta. “Tanto é que nesse episódio ele apanha, apanha, batem nele e o prendem. Em um episódio posterior, as autoridades romanas já o protegem, já não deixam os judeus baterem nele. Então é isso que os cristãos tinham que fazer, principalmente os pastores.”

Usando a verdade

Mocellin incentiva, portanto, que os pastores contratem advogados, ou peçam o apoio de algum profissional de direito que seja membro de suas igrejas, não apenas para se defender, mas para também processar seus acusadores. Seria uma forma de usar as armas do jogo.

“Eles fazem isso para nos intimidar. Eles utilizam a mentira para nos intimidar. E nós devemos usar a verdade para intimidá-los. Devemos usar a justiça para intimidá-los. Devemos processá-los, para que eles saibam que eles é que estão cometendo crime. Estão cometendo crime de intolerância religiosa. E, ao fazerem isso, eles vão pensar 10 mil vezes antes de nos processarem e tentar arrancar a nossa liberdade”, afirma.

Com informações de Agência Estado

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