Mais de 60% dos brasileiros já acessaram o smartphone dos parceiros, sendo que 41% deles espiaram o dispositivo sem autorização.
Por Cristiano Stefenoni
Se você pedir agora para ver o celular da sua esposa ou do seu marido, qual será a reação deles? Calma, antes de começar a confusão aí na sua casa, saiba que o assunto cônjuge e telefone celular é mais polêmico do que imagina. Mais de 60% dos brasileiros já acessaram o smartphone dos parceiros, sendo que 41% deles espiaram o dispositivo sem autorização, segundo Pesquisa Avast Brasil 2023.
Do total de mulheres entrevistadas, 65% espiaram o celular do companheiro sem a autorização dele, e no caso dos homens, esse número foi de 57%. E as estratégias para “checar” a fidelidade do companheiro foram as mais diversas, desde memorizar a senha até enganar o parceiro para desbloquear o telefone ou usar a impressão digital do cônjuge enquanto ele dormia. E 16% dos que deram essa “fiscalizada” encontraram evidências de alguma forma de traição e 25% brigaram por conta do que viram.
Essa combinação explosiva celular x relacionamento se dá, muito, em função do mercado e da cultura brasileira. Um estudo da FGV mostrou que o Brasil possui 242 milhões de smartphones ativos no país, mais do que a população nacional, que é de 214 milhões de habitantes (IBGE).
Paralelo a isso, a pesquisa “Radiografia da Infidelidade e Infiéis no Brasil 2022”, que utilizou dados do aplicativo Gleeden, revelou que 8 a cada 10 brasileiros já traíram em algum momento da vida, sendo que 91% dos infiéis são homens e 88% são mulheres. E para 61% a prática é algo normal, que cedo ou tarde acontecerá.
E o reflexo disso já pode ser visto na prática. Segundo o site Jusbrasil, a infidelidade online já é a maior causa de divórcio no país e tem gerado milhares processos todos os anos. Mas enfim, como o casal cristão pode se precaver desses transtornos causados pela tecnologia?
O doutor em Psicologia e psicanalista especialista em Neurociência, pastor Édson de Oliveira Pinto, explica que para os casais que são casados não pode haver segredo em relação às senhas no celular. E mesmo que seja um aparelho com função profissional e seja necessária a proteção dos dados, ainda assim o parceiro deve saber a senha.
“A relação do casal é uma relação de confiança, e se é de confiança, eu não pode ter senhas. Contudo, para proteger certos dados da empresa, por exemplo, é necessário usar uma senha. Mas isso precisa estar de acordo entre esposa e esposo”, afirma o doutor.
No casamento, a individualidade assume outro papel
Ele explica que, após o casamento, a individualidade de cada pessoa assume uma outra função e precisa estar ligada à “conjugalidade”. Ou seja, o cônjuge não pode usar sua individualidade como desculpa para ter a liberdade de fazer o que quer, como, onde e com quem quiser.
“Eu não posso invocar a minha individualidade para me manter relações reservadas com A, B ou C. Esse tipo de individualidade não existe. Se o telefone toca, por exemplo, qualquer um dos dois deve ter a liberdade de poder atender, sem medo. Quando houver necessidade de um dos dois estar só, isso precisa ser combinado”, explica.
Cuidado para interpretações equivocadas
Por outro lado, o doutor Édson lembra que os casais devem tomar cuidado para não criarem “tempestade em copo d’agua” e fazerem uma interpretação errada de algo que viu no celular do cônjuge.
“Pode acontecer do seu cônjuge receber uma mensagem sedutora, mas que não foi correspondida por ele. Então, com respeito e educação, é preciso pedir uma explicação e analisar. Se ainda houver dúvidas, talvez seja interessante buscar o conselho de alguém experiente para ver se você não está agindo desproporcionalmente. Mas é importante falar da mensagem que recebeu o quanto antes. Quando a confiança vai embora, dificilmente ela é recuperada”, ressalta.
Para evitar dores de cabeça em relação ao celular, o profissional dá algumas dicas importantes: “Primeiro, não leve o celular para a mesa de refeição. Ali é o lugar reservado para os seus momentos de paz com a família. Segundo, não leve o celular para cama. Estudos mostram que ele interfere na qualidade do sono, na saúde e na intimidade do casal. Terceiro, não leve o celular para banheiro. Muitos casos de acesso a pornografia acontecem ali dentro”, orienta.
Confiança e comunicação fazem a diferença
De acordo com a psicóloga especialista em neuroaprendizagem, Martha Zouain, confiança e comunicação clara são fundamentais para que o celular não vire um problema na vida do casal.
“A comunicação clara é uma excelente estratégia para manter-se íntegro na relação. Para alguns casais, compartilhar a senha é uma forma de demonstrar confiança, para outros, não faz diferença. O mais importante é que o casal converse sobre suas expectativas e chegue a um acordo que funcione para ambos”, justifica a psicóloga.
Para ela, o celular traz outro agravante que é provocar o distanciamento do casal. “Hoje, o principal alerta é a dispersão de foco no convívio, fazer coisas juntos, entender momentos em que se possa contribuir com o cônjuge e filhos e focar o tempo disponível para construir junto. O apelo pelas redes sociais, notícias, matérias e compras virtuais é muito grande e muitos casais têm se tornado reféns das mesmas”, afirma.
E completa: “Casamentos saudáveis podem ter privacidade e ainda assim não comprometer a lealdade e o compromisso com o parceiro, mas, as regras para que funcione na prática precisam ser discutidas e acordadas para que dê conforto a todos os envolvidos”.
Sem diálogo, sem solução
O pastor Jorge Linhares, presidente da Igreja Batista Getsêmani, em Belo Horizonte, conta que já presenciou, em seu ministério, uma situação em que o celular quase causou o divórcio de um casal da igreja. Mas ele acredita que a falta de diálogo entre os cônjuges piora a situação.
“O celular tem tirado o diálogo do casal. Você vê que as mulheres estão lotando as clínicas de terapia e os gabinetes pastorais reclamando que o marido só fica no celular. E quando atendemos o esposo, ele diz a mesma coisa”, afirma Linhares.
De acordo com o pastor, a falta de diálogo é um problema antigo. “A falta de diálogo começa lá em Gênesis, no capítulo 3, quando Eva conversou com o diabo ao invés de dialogar com Adão sobre as consequências do erro dela. E Adão também não conversou com ela sobre as prioridades dentro do paraíso. Então, como o casal não dialogou, as consequências aconteceram”, finaliza.


