Carnaval: retiro ou missão? 

Muitos cristãos ficam em dúvida sobre o que fazer no carnaval: ir para um retiro espiritual ou para o campo missionário?

Comunhão reuniu quatro pastores para discutir sobre o tema: pastor Clarismundo Batista, professor do Instituto Bíblico da Assembléia de Deus do Espírito Santo – Ibades; pastor Alequissandre Santoro, mestre em Terapia Familiar; pastor Francisco Mecenas, da Primeira Igreja Batista de Marília, São Paulo e o pastor João Aparecido, da Assembléia de Deus Bethel.

Cada um deles expôs o seu ponto de vista e mostrou, a seu modo, o que fazer. As diferentes vivências e experiências desses líderes, com suas distintas formações, proporcionaram visões não conflitantes, mas diferenciadas sobre o assunto.

As escolhas norteiam a vida, e a opção de “sair” da luta espiritual que se trava durante o carnaval ou “ficar” e enfrentar cara a cara o inimigo deve ser uma decisão pessoal, baseada em preceitos bíblicos. O resultado dessa conversa pode ser conferido nas próximas páginas.

Comunhão – Qual deve ser, na realidade, o papel do crente diante o carnaval? Retirar-se durante os dias da festa ou atirar-se à missão de evangelizar durante a folia mundana?

Pr João. Foto: Arquivo Comunhão

Pastor João – O inimigo vem na nossa seara, ocupa a cidade, muda o seu território, se entroniza durante esses dias e nós nos retiramos. Isso me chamou a atenção, e por dois ou três anos nós temos feito um trabalho no carnaval que tem dado muito fruto.

Nós montamos uma tenda, onde cantamos louvores, adoramos a Deus e vamos dar assistência. Levo a igreja, desde os adolescentes até os anciãos. No último carnaval, nós atendemos a 562 pessoas.

Tivemos aí quase 30% dessas famílias que foram ao culto de confraternização e, para glória de Deus, há pouco tempo foi uma pessoa na minha igreja, que é líder de jovens, e se converteu no carnaval. Então eu aprendi que é importante fazer esse tipo de trabalho, e que 30 a 40% das pessoas que estão no carnaval são desviadas do Evangelho. Eu ali atendi presbítero, evangelista, pastores, por incrível que pareça.

Pr. Alequissandre Santoro – Eu tenho uma visão do retiro como uma preparação para a igreja. Eu utilizo isso na igreja, inclusive defendo que todos os jovens, mesmo aqueles que não têm condições financeiras, possam ir. Nos quatro anos do seminário, eu trabalhei no Vital, e percebi que os jovens, os adolescentes, precisam dessa preparação antes. E acredito que temos o retiro para isso: trabalhar várias questões que não seria possível tratar com uma igreja cheia. Eu aproveito essa época, e faço de tudo para que toda a igreja vá. Eu vejo o retiro como um momento especial, quatro dias em que o pastor vai ficar junto de seu rebanho. Não convido outras pessoas para pregarem, porque ali quero eu mesmo estar tratando a minha igreja, feridas da alma e uma série de outras coisas.

Pr. Clarismundo – Quando buscamos equilíbrio nessa questão, podemos unir as duas coisas. Às vezes, a igreja está passando por uma tribulação grande, de grupinhos e divisão. Aí, é coerente que se faça um trabalho com esse rebanho, aproveitando esse tempo de folga. Por outro lado, se o rebanho está fortalecido, em condições de ir para a rua, ótimo. Creio que o pastor deve ter essa liberdade de sentir como é que está a igreja, o que fazer na ocasião. Acho que as igrejas no Espírito Santo precisam despertar para o evangelismo no carnaval, que a maioria não faz. Não vão para retiro, não evangelizam e ainda mantêm os cultos normais. Aí, os jovens ficam em casa assistindo televisão. E o que é que passa na televisão? Só carnaval. Então, se a igreja não vai para retiro, tem que fazer uma programação para os seus jovens, e buscar esse discernimento sobre o que fazer naquele momento.

Pr. Mecenas – Eu penso esse assunto muito em cima de duas questões. A primeira delas é: qual é a demanda pessoal? Qual é a demanda daquele grupo? Daquela igreja? De que adianta eu me envolver num projeto de evangelização, quando estou precisando de descanso? Descanso físico mesmo! Se eu estou com uma vida super-agitada, com a minha família estressada, e o que eu preciso é dormir, ler um bom livro e ter um tempo de reflexão? Então, se essa é a minha demanda, nem o retiro e nem o carnaval! A nossa pauta tem que passar, por exemplo, por tempo com a família, por tempo para descansar, tempo para refletir. Eu acho que a família, o indivíduo, a igreja têm que olhar para as suas demandas. A questão básica é entender que a igreja não tem que fazer uma coisa exclusivamente, e achar que quem não fizer aquilo está fora da comunhão. Nós estamos vivendo em um tempo cada vez mais complexo, e numa determinada ocasião a igreja pode caminhar em diferentes direções.

Comunhão – Como vocês definem quem está preparado para esse confronto? Como identificam se a igreja ou os membros estão preparados para isso? Quais os critérios em que se baseiam?

Pr. João – No carnaval, nós entendemos que existe um pacto, porque o prefeito da cidade entrega a chave simbolicamente ao Rei Momo, e o Rei Momo simboliza o deus das trevas, o dinheiro, a orgia, o prazer, essas coisas proibidas. Então é um pacto, e aí é que está o perigo. Como é que nós definimos? Eu não aconselho um novo convertido a ir para um campo de batalha desses. Porque é um confronto direto, queira ou não queira. Então, o que nós fazemos? Nós preparamos os cristãos. Tem o discipulado, a gente faz uma preparação antes, e depois as pessoas decidem se estão preparadas ou não para essa batalha, porque é um confronto direto com as trevas.

Pr Mecenas. Foto: Arquivo Comunhão

Pr. Mecenas – Não sei se eu vou ser uma voz discordante, mas eu não vejo o carnaval como a única guerra que a igreja tem que enfrentar, não. Por exemplo: quer guerra maior do que ver as crianças na rua, com fome, usando drogas, colocadas nas esquinas pelos próprios pais para recolher dinheiro?

Do que vermos nosso país se render a esse número de denúncias de roubo, de corrupção, e ainda assim o povo recolocar no governo as mesmas pessoas envolvidas nesses fatos? Quer guerra maior do que ver a família e o casamento sendo atacados?

A fidelidade tratada como brincadeira? Pensar que depois do carnaval eu posso baixar as minhas armas e achar que estou vivendo em tempo de paz é um grande engano. A verdade é que nós estamos em guerra o tempo inteiro, e temos é que abrir os nossos olhos e, como igreja, nos organizar para fazer o enfrentamento de todas essas batalhas.

Pr. Clarismundo – A resposta é muito simples. A Bíblia diz que nós precisamos entregar nossa vida ao Senhor, confiar n´Ele, e o mais Ele fará. Então, a capacitação vem a partir do encontro real com Jesus, num processo de entrega genuína, em que a pessoa passa a andar em comunhão com Deus. E o segredo para nós termos vitória em qualquer batalha é esse: estar em comunhão com Deus. Essa comunhão vai nos fazer buscar conhecimento na Palavra, fortalecimento na oração, aprender mais o que Deus quer de nós. E isto faz com que nós estejamos preparados. Eu acredito que o ponto principal para quem quiser entrar na batalha, seja do dia-a-dia, seja do carnaval, é justamente estar em comunhão com Deus.

Pr. Alequissandre Santoro – Uma coisa que eu quero colocar é sobre os critérios. Vamos imaginar: qual é o objetivo do retiro? Se eu não o estou alcançando, então não tem sentido fazê-lo. Eu alcanço o objetivo da igreja em colocá-la para evangelizar no carnaval? Então, amém! Agora, existem outras datas especiais, como o Ano Novo, quando as praias estão cheias de pessoas fazendo oferendas a Iemanjá, a deuses mundanos. Como é que nós temos combatido isso no dia-a-dia? Eu acho isso uma guerra. A idolatria. Nós estamos aí com quatro pilares muito importantes, que não podemos deixar de combater, além do carnaval. A idolatria, os deuses de Baal; a luxúria, a lascívia; a riqueza, que é o deus Mamom; e a questão de Baco, que é o deus da bebida.

Pr. João – Gostaria de abrir um parêntese: tem coisas que são prejudiciais a longo prazo. O problema do carnaval é que é a maior festa do Brasil. Não tem no país outra festa igual. Então, é um saldo imediato. É uma guerra, meu irmão. Eu acho que nós deveríamos deixar nossas divergências de lado e mobilizar um plano de confronto, porque só a igreja pode fazer isso. Quando nós olhamos a cidade de Salvador construir uma maternidade só para as mães adolescentes vítimas do carnaval fora de época, pôxa! O que é isso?! Eu acho que é bom a igreja estar se retirando. Mas, nem sempre o retiro é bom: “Era tempo de guerra e Davi estava descansando”. Estava lá tranqüilo, e daí a pouco aconteceu o que não deveria acontecer. Então, tempo de guerra é tempo de guerra. Acho que não é tempo de descansar, não. Tem tantas outras épocas. Em tempo de guerra, você estar descansando é meio perigoso para a vida espiritual.

Comunhão – Qual é o posicionamento dos senhores em relação à formação de blocos evangélicos? É uma fórmula válida? Não é uma amoldagem ao mundo?

Pr. Mecenas – Nós temos a tendência de assumir duas posições: ou a crítica – porque eu não faço, então critico quem faz –, ou fazer porque está todo mundo fazendo. Essa é uma questão que precisa ter uma reflexão profunda. Como vou entrar numa situação dessa e não me contaminar? Qual a diferença entre dançar ao som da Ivete Sangalo ou de algum louvor? Claro, sabemos que algumas palavras pronunciadas nessas músicas contêm adoração a deuses, a demônios etc. Mas eu pergunto em relação à sensualidade. Porque quando um grupo de jovens está pulando, dançando, a sensualidade pode estar presente. Eu acho que, para se envolver numa coisa dessas, tão no limite, é preciso um preparo e uma conscientização muito grandes. Eu me preocupo com o efeito na santidade e consagração dos jovens e adultos envolvidos nesse processo.

Pr. João – Para mim, tudo que é novo é perigoso. E eu acho que nós não devemos imitar o mundo, mas o mundo imitar a nós. A Bíblia diz para sermos imitadores de Cristo como filhos amados. Então, na minha percepção hoje sou radicalmente contra esses grupos que vão para o carnaval.

Pr. Clarismundo. Foto: Arquivo Comunhão

Pr. Clarismundo – É um perigo muito grande! A advertência de Jesus quando diz para sermos sal da Terra e luz do mundo é que o sal tem duas finalidades. A primeira é temperar, e a gente está fazendo isso. Estamos nas faculdades, rádio, televisão, revistas, dando entrevista.

O cristão, hoje, está temperando as coisas. Mas o segundo significado, que é dar sede, para que as pessoas, ao olharem para sua vida, não queiram mais viver aquilo que viviam, e tenham sede de Jesus, aí, não sei, não…

Não adianta o jovem se converter à religiosidade, ir para a igreja e chegar lá e dizer: pode vir para cá porque aqui também vai ter o que tem lá no mundo. Isso aí é misturar as coisas. Existe a forma de evangelização musical, que é para isso que o funk gospel foi criado, para isso que o pagode gospel foi criado. Para evangelização. Não foi para que ninguém caísse no samba, não foi para fazer baile funk gospel. É outra visão. E o Diabo vai colocando isso na mentalidade das pessoas, mudando o foco.

Pr. Alequissandre Santoro – Lendo o texto de I Coríntios 6:12 (“Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas me convêm; todas as coisas me são lícitas, mas não vou me deixar dominar por nenhuma delas”), o que eu penso é que não podemos seguir a onda só porque todo mundo está fazendo.

Tem que ter uma análise do que realmente é melhor para minha igreja naquele momento. Mas, por outro lado, não podemos condenar os que estão fazendo, porque nós não os conhecemos.

Aqui no ES tem um grupo que trabalha com missões urbanas que qualquer crente das igrejas mais tradicionais vai olhar e achar que eles não são crentes, porque usam piercing, roupas escuras etc. Se eu me colocar como juiz deles, eu vou estar tomando o lugar do Espírito Santo. Então, eu não vou participar de todos esses trabalhos, por causa da minha convicção de que todos esses movimentos são lícitos, mas muitos não me convêm. Mas vou estar na interseção e também na análise para instruir aqueles que estão sob a minha liderança.

Comunhão – O crente tem outra alternativa que não seja se retirar ou fazer missão?

Pr. Clarismundo – Existe a questão do se retirar ou ficar. Para quem fica, existe a alternativa de estar na igreja, fazer os cultos normais, convidar as pessoas, e nos horários do carnaval as igrejas estarem abertas. Outra questão é a igreja se preparar para o carnaval. Não sair para evangelizar, mas estar preparada, em vigília de oração, orando pelo que está acontecendo lá. Eu vejo que esta é a questão. Agora no Vital, nós colocamos a igreja de Mata da Praia orando. A igreja não saiu, mas ficou lá orando. É uma forma de lutar.

Pr. João – Eu digo sempre que aprendemos bem o que é pecado: adulterar, matar, mentir, mas não aprendemos muito que a omissão também é pecado. Jesus disse “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura”. Paulo, que foi o campeão da evangelização na sua época, no capítulo 15 de Coríntios, versículo 34, diz “muitos ainda não têm o conhecimento de Deus, digo-o para vergonha vossa”. Quer dizer, para vergonha sua, minha, da igreja. Nós podemos contextualizar a mensagem de Paulo para nossos dias. Muitos não têm o conhecimento de Deus, para vergonha nossa. Acho que é hora de arregaçar as mangas. Como eu já falei, estar ocioso tempo de guerra é perigoso.

Pr. Alequissandre Santoro. Foto: Arquivo Comunhão

Pr. Alequissandre Santoro – É importante observar o que é estratégia de evangelismo e o que é essência da igreja. Há momentos em que a gente tem que sair, marchar, guerrear, e há momentos em que a gente precisar fazer um evangelismo de paz, de porta em porta. Há também o momento de estar na igreja.

Eu acho lindo as igrejas que ficam abertas o dia inteiro, que fazem cultos 24h por dia. Isso é uma estratégia. Eles fazem cultos de madrugada. Quem freqüenta esses cultos são os mendigos, as prostitutas, os perdidos… aquelas pessoas excluídas da sociedade.

A igreja vai estar cheia dessas pessoas, e eu vou criticar essas igrejas? Vou fazer como os fariseus? De maneira alguma! A gente tem que ver quais são as estratégias que Deus nos deu! Jesus sempre aproveitou essas oportunidades, falou com prostituta, com fariseu, com publicano, alcançou todas essas pessoas, usou parábolas, figuras de linguagem, e Paulo também fazia o possível para conquistar alguns, mas sem perder a essência. Nós devemos olhar para essas estratégias de evangelização com muito amor, porque esses ministérios têm ajudado muito as igrejas. Senão, vamos agir como fariseus, achar que somos melhores do que eles, e não é assim. Estratégia é uma coisa, essência é outra. Na essência da igreja está determinado que nós devemos amar as pessoas como a nós mesmos. Então, vamos olhar para esses ministérios de forma mais amorosa.

Pr. Mecenas – Como eu já disse em outro momento, acho que você não tem de viver esse dualismo. Às vezes, Deus quer que eu tenha um tempo de qualidade sozinho, ou com minha família, ou para reconstruir algo. Se são estas a sua demanda e a vontade de Deus, você estará sendo abençoado da mesma forma. O Reino não é edificado apenas quando eu faço retiro ou missão. Deus é criativo e tem muitas formas de edificar o seu Reino. Eu tenho de manter meus olhos em Deus e na minha necessidade.

Com este debate, Comunhão espera ter contribuído para que o leitor possa chegar às suas próprias conclusões e tomar posição acerca do que fazer no próximo carnaval. Isso, claro, mediante meditação, oração, direção da Palavra de Deus e os propósitos de sua igreja.

A MATÉRIA ACIMA É UMA REPUBLICAÇÃO DA REVISTA COMUNHÃO. FATOS, COMENTÁRIOS E OPINIÕES CONTIDOS NO TEXTO SE REFEREM À ÉPOCA EM QUE A MATÉRIA FOI ESCRITA


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