Com o interesse pelo universo prisional em alta, capelão fala sobre quais desafios enfrentam e como seu trabalho influencia a vida de detentos
Por Karina Garcia
O sucesso de produções audiovisuais que retratam o sistema prisional reacende, como a série Tremembé, vez ou outra, o interesse público pelas prisões brasileiras. Longe das câmeras, porém, há um trabalho constante, discreto e profundamente humano que atravessa há décadas os corredores de ferro das unidades prisionais do Espírito Santo: a capelania prisional.
Garantida pela Lei de Execução Penal e regulamentada no estado pela Portaria nº 1.135-R, a assistência religiosa atua como suporte espiritual e emocional para pessoas privadas de liberdade. Em muitos casos, é o primeiro contato real com a possibilidade de mudança, alcançando espaços onde nenhuma outra política pública consegue chegar.
Uma rotina de escuta e Palavra

Pelo menos uma vez por semana, antes mesmo da abertura das celas, o pastor Sérgio Junger percorre unidades prisionais com uma Bíblia e uma pequena caixa de som. Do outro lado das grades, estão homens que raramente recebem visitas e que aguardam por uma conversa que não envolva violência, ameaça ou cobrança.
O tempo é curto, cerca de 30 a 40 minutos por ala, mas suficiente para marcar a rotina de quem está preso. O culto é simples, direto e precisa respeitar rigorosamente as normas do presídio. Há louvor, leitura bíblica, oração e, sobretudo, escuta. Para Sérgio, ouvir sem julgar é, muitas vezes, o gesto mais transformador.
“Muitas vezes é a primeira vez que alguém se dispõe a ouvir essas pessoas sem condená-las”, afirma.
Organização, preparo e responsabilidade
Atualmente, mais de três mil voluntários, ligados a 59 instituições religiosas, atuam no sistema prisional capixaba, sob supervisão do Grupo Interconfessional do Sistema Penal (Ginter). Para participar, é necessário passar por capacitação, apresentar documentação e estar vinculado a uma instituição religiosa.
Segundo o pastor Sérgio, esse rigor é essencial. “O presídio é um ambiente de ordem absoluta. Quando alguém entra sem preparo, fala errado, desrespeita regra, cria problema. A direção não resiste à Palavra, resiste à bagunça”, explica.
A capelania atua nas unidades de média complexidade e nos centros de detenção provisória. Os participantes dos cultos são definidos pelos próprios policiais penais, que avaliam o comportamento dos internos. “A gente não escolhe quem quer atender. Eles liberam quem está apto naquele dia”, relata.
Entre os pedidos de oração, um se repete: a família. A maioria dos internos tem entre 18 e 22 anos, e muitos carregam o peso de saber que suas escolhas afetaram pessoas fora das grades.
Mais do que um culto semanal, a capelania se estabelece como uma presença constante em um ambiente marcado pela ruptura de vínculos. É nesse solo improvável que histórias de transformação começam a germinar — tema que ganha ainda mais força quando se observa os frutos desse trabalho.

