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quarta-feira, 8 dezembro 2021

Capelania hospitalar: amparo e conforto aos que sofrem

O capelão leva a fé e a esperança que há em Cristo aos necessitados que se encontram em diferentes instituições, sejam públicas ou privadas

Por Patricia Scott

“A capelania é uma capacitação que o servo de Deus pode ter para levar com mais clareza o Reino do Senhor aos que necessitam”. A definição é do pastor Sérgio Junger, presidente da Associação dos Capelães do Estado do Espírito Santo, que afirma que todos precisam de oração, de uma Palavra de consolo. “É apresentar a Palavra para além das paredes do templo para aqueles que não podem ir à igreja”, assevera.

É importante salientar, segundo Junger, que para ser capelão é necessário fazer o curso de capelania, que pode ser básico ou avançado. “Assim, a pessoa aprende ética cristã, legislação brasileira, direitos e deveres, histórico e finalidade da capelania, técnicas e conhecimentos específicos de instituições, dentre outros conteúdos”, cita Junger, explicando ainda que os serviços prestados pelo capelão têm como finalidade um “conjunto de ações que procuram colaborar com o bem estar de pessoas e familiares, prestando assistência social, espiritual, ética e moral com base na Bíblia”.

A capelania é vista nos hospitais como um instrumento de ajuda aos pacientes e familiares, de acordo com o presbítero Antônio Carlos da Mota Silveira, presidente da Capelania Evangélica Hospitalar de Campina Grande (PB), que é parceira da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB).

“É um trabalho de encorajamento e cura também para os profissionais de saúde”, avalia. Por outro lado, salienta ele, o capelão prepara o paciente para enfrentar a morte, como a família para aceitar a perda da pessoa querida. “É preciso paciência, sensibilidade, respeito, oração, conhecimento bíblico, diálogo, flexibilidade, saber ouvir – para que o trabalho, que requer chamado, seja bem desenvolvido –, sem contar a capacitação”.

Capelães não medem esforços para levar uma porção da palavra de Deus para pacientes e familiares nos hospitais

Conheça os requisitos para se tornar capelão

O pastor Luiz Florentino elenca os requisitos para ser capelão: “é preciso ter mais de 18 anos, ser membro de igreja batizado nas águas, ter conhecimento da Palavra e uma vida de oração”. Ele cita Atos 20.35 para encorajar o povo do Senhor, que ensina: “em tudo o que fiz, mostrei-lhes que mediante trabalho árduo devemos ajudar os fracos, lembrando as palavras do próprio Senhor Jesus, que disse: ‘há maior felicidade em dar do que em receber’”.

O pastor salienta que o capelão precisa ter empatia pelo outro com uma abordagem que tenha uma linguagem adequada ao público-alvo. “O assistido preciso entender a mensagem de maneira clara. Então, não adianta ser um catedrático ou um total leigo. Mas com uma linguagem objetiva sempre baseada na Palavra”, adverte, salientando que amor por vidas é fundamental para o exercício da capelania.

“O Evangelho precisa ser pregado com amor, graça, misericórdia. Ao capelão não cabe julgar ou condenar, mas mostrar que há o perdão, o arrependimento, a libertação, a cura, a transformação, o recomeço em Cristo”, expõe o pastor Luiz Florentino.

A capelania no Brasil

Levar as Boas-Novas do Evangelho para aqueles que precisam de esperança, renovo, força, paz, coragem, ousadia, cura, libertação, restauração. Este é o papel do capelão evangélico, que está presente nas mais variadas instituições, sejam públicas ou privadas, entre elas hospitais, presídios, escolas, empresas, universidades, clubes esportivos, batalhões de polícia, centros de reabilitação.

A capelania leva fé aos necessitados e, assim, cumpre o Ide determinado por Jesus: “e disse-lhes: vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas” (Marcos 16.15). Vale destacar que devido à pandemia da covid-19, o trabalho de capelania está, provisoriamente, suspenso.
A capelania é amparada pela Constituição Brasileira no Artigo 5, Inciso VII, que declara: “é assegurado, nos termos da Lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva”. O termo não é novo nem moderno.

No Brasil, o ofício começou na área militar, em 1858, com o nome de Repartição Eclesiástica, com a Igreja Católica. O serviço foi abolido em 1899.

No entanto, durante a Segunda Guerra Mundial, em 1944, o trabalho foi restabelecido como Assistência Religiosa das Forças Armadas. No mesmo período, foi criada a Capelania Evangélica para assegurar a presença de capelães de orientação protestante. O pastor João Filson Soren, da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro, foi um grande capelão evangélico que marcou época durante a Segunda Guerra Mundial. Ele voltou são e salvo da Itália, onde esteve com a Força Expedicionária Brasileira, e permaneceu pastoreando a mesma igreja por mais de 50 anos, falecendo em 2002.

Capelães também atuam em presídios

Os servos levam consolo e refrigério aos que estão encarcerados

A Sociedade Bíblia do Brasil (SBB), desde a fundação, em 1948, realiza parcerias com trabalhos de capelania, em todo o Brasil, nos mais variados ambientes. Atualmente, a instituição conta com mais de 150 capelanias conveniadas pelo país. “Enviamos material, gratuitamente, para que sejam distribuídos. A organizações parceiras prestam contas à SBB, para que saibamos, principalmente, qual impacto a ação tem gerado na vida das pessoas”, explica a assistente social Emilene Oliveira Araújo, gerente de Projetos Sociais e Arrecadação de Fundos da SBB.

Na opinião de Emilene, a capelania é fundamental para a sociedade, porque atinge pessoas que, em sua maioria, estão desesperadas por uma palavra de consolo, conforto, fé. “Poucas pessoas estão dispostas a irem levar refrigério até esses espaços. Até porque lidarão com situações difíceis e complexas”, pontua. No entanto, ela diz que o trabalho tem sido desenvolvido e proporcionado novas oportunidades para as pessoas.

“A Bíblia é fundamental nesse processo, para que o indivíduo entenda que há uma nova chance, perdão, restauração”, analisa Emilene, completando que a SBB incentiva as igrejas a abraçarem essa obra, “orando, contribuindo financeiramente, capacitando e treinando os membros para esse serviço”.

No entendimento do pastor Luiz Florentino, presidente da Ordem dos Capelães Evangélicos do Brasil e no Exterior (Ocebe), as igrejas precisam se envolver mais com o ministério de capelania. “Devem incentivar os membros a fazerem o curso e dedicarem-se a essa obra, que não leva placa denominacional, mas o amor de Jesus e o Reino de Deus”, observa.

Libertação aos cativos

Em todo o Brasil, segundo Monitor da Violência, 687.546 pessoas estão presas, enquanto o sistema penitenciário nacional tem 440.530 vagas em presídios. De 2020 para cá, o Brasil criou 17.141 vagas, o que foi insuficiente para acabar com o problema da superlotação, que está torno de 56,1%. O total não considera os presos em regime aberto e os que estão em carceragens de delegacias da Polícia Civil. Se forem contabilizados esses detentos, o número passa de 750 mil, no país, de acordo com o levantamento.

“Poucas pessoas estão dispostas a irem levar refrigério até esses espaços. Até porque lidarão com situações difíceis e complexas” – Emilene Oliveira Araújo, assistente social e gerente de Projetos Sociais e Arrecadação de Fundos da SBB

O Brasil é o 26º País que mais prende no mundo. Dez estados, além do Distrito Federal, registraram aumento da população carcerária, em 2021. O Paraná aparece com a quinta maior taxa, empatado com o Rio Grande do Norte. Amazonas, mato Grosso do Sul, Pernambuco, Alagoas e Distrito Federal são as localidades que com presídios com maior superlotação. Diante desse quadro alarmante, a capelania prisional torna-se de suma importância para o processe do resgate dessas pessoas.

O presbítero Antônio Carlos da Rosa Silva Jr., coordenador do curso de Capelania, Direito e Religião, assegura que o trabalho junto aos presos deve ser baseado no discipulado. “Utilizamos o material da SBB para os oito encontros, que temos com os presos, com duração de três horas cada. São grupos de 15 detentos. Abordamos os assuntos do livro e, depois, já na cela. Eles respondem ao questionário que encontram ao final de cada capítulo”, explica Antônio Carlos. Na semana seguinte, o preso devolve o questionário respondido, e o capelão levanta outro tema. “As respostas são enviadas para a nossa igreja. Lá, temos irmãos que respondem, por carta, a cada detento com base nas respostas dos questionários”.

Em toda abordagem, a partir dos assuntos tratados, eles sãos “confrontados”, de acordo com o presbítero, e não vistos como vítimas a partir das justificavas que apresentam. “Cada apenado preciso compreender que tem a oportunidade de reconstruir a vida, mudar de mentalidade. Assim, quando sair terá a chance de recomeçar”, assevera. No entanto, como diz Antônio Carlos, ao ganhar a liberdade cada um deve fazer suas escolhas.

“Explicamos que estamos proporcionando a cada um as ferramentas necessárias, para que possam verdadeiramente optar por novas escolhas. Cabe a eles decidirem se agarrarão a oportunidade ou a desperdiçarão”, enfatiza o presbítero, que finaliza: “sempre digo aos presos que choro não demostra arrependimento, mas emoção. Arrependimento requer mudança de mentalidade e atitude”.

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