Cambaleú e os amigos Evangelho, Pregador e Jesus Cristo

Embora fossem amigos de longa data, algo começou a mudar. E eles foram se distanciando…

Essa é a estória do encontro de Cambaleú e os amigos Evangelho, Pregador e Jesus Cristo; que foi sem dúvida um encontro histórico! Cambaleú, embora sempre muito visitado por milhares de pessoas, todos os anos, já há algum tempo não se reunia com seus amigos Evangelho, Pregador e Jesus Cristo. Eles sempre foram amigos, mas nos últimos anos ambos perceberam que houve certo distanciamento entre eles…

– Vamos nos reunir! – propôs Evangelho, ligando assim para Cambaleú, Pregador e Jesus Cristo a fim de organizar o reencontro.

Cambaleú a princípio disse que no mês de abril era impossível, pois é justamente nesse mês que ele recebe muitas pessoas em sua casa. Jesus Cristo, como sempre, meigo, mas sóbrio e com ar de apreensão, propôs que o encontro não demorasse a ocorrer.

– Eis que venho sem demora – disse Ele solenemente…

Assim, o dia do encontro aconteceu. Cambaleú chegou junto com Pregador (os dois se mantém, já há vários anos, inseparáveis) e Jesus Cristo junto com Evangelho (os dois mantém uma estreitíssima amizade). Em dado momento da conversa, Jesus tomou a palavra e com voz profunda, dirigindo-se a Cambaleú e Pregador, disse sem rodeios:

– Meus amigos! Estou preocupado com os rumos que vocês dois estão tomando. Percebo que rapidamente vocês estão se distanciando de Evangelho. Mas a influência dele sobre vocês continua sendo fundamental.

– Mas Jesus – retrucou Pregador – Você precisa entender que hoje não consigo estar mais tão próximo assim de Evangelho. E convenhamos: se eu aderir ao estilo de Evangelho perco espaço nas igrejas. Os tempos mudaram…

Cambaleú perguntou em seguida:

– Senhor, onde quer chegar com este comentário?

Jesus, novamente, com seu olhar marcante e voz como de muitas águas, disse a Cambaleú:

– Lembra de onde caíste e arrepende-te. Cambaleú, Cambaleú… Você está cambaleando e cambaleando para cair.

Pregador ficou chocado! Ele disse:

– Mas Jesus, como pode dizer isto? Cambaleú recebe tantos milhares de pessoas e tantos como eu que se esforçam para estar junto dele. Isto é sinal de que ele está fazendo tudo certo.

Evangelho então retruca:

– Mas Pregador, nem sempre o que funciona é o correto. Se pensarmos dessa forma, cairemos no pragmatismo religioso. Que tipo de compreensão da vida cristã está sendo produzida nessas pessoas? Qual o teor do que lhes está sendo dito ano após ano?

– Mas, em que estamos errando Senhor, e Evangelho? – perguntou Cambaleú.

Evangelho então é incisivo:

– Cambaleú, há vários fatores que indicam vosso afastamento de mim: Pregador se comporta como um ator durante suas ministrações. Muda a voz, assume trejeitos que não são seus, “veste” uma personalidade que não é a sua e profere clichês, “palavras proféticas” sempre de modo irrefletido. Não é possível ver sinceridade em suas ministrações. Ele se comporta como um entregador de encomendas que não são suas, e não como um despenseiro de Deus. Está claro que suas pregações são terrivelmente influenciadas pela Confissão Positiva e pela Teologia da Prosperidade e você, no entanto, não parece tomar medidas sérias e corretivas para que isso seja evitado em sua casa. Ah! E como se fala em sua casa de “topo”, “vitória”, “alcançar isso e aquilo”. Os sermões lá proferidos são fortemente marcados pelo individualismo, egoísmo, antropocentrismo e Deus não é glorificado. Quase não se fala mais de Jesus em sua casa, Cambaleú.

– Pregador! – disse Jesus em seguida – Eu também ensinei nas Escrituras que “no mundo tereis aflições”. A vida cristã não é só viver de vitória em vitória, mas é também “saber estar abatido, e também ter abundância; é ser instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome, tanto a ter abundância, como a padecer necessidade”. Você mesmo, Pregador, e você Cambaleú, parecem já ter esquecido isso.

A essa altura da conversa, Pregador se irrita, levanta e vai embora. Sai da reunião alegando que “Deus o levantou como profeta à nação brasileira” e que Jesus e Evangelho estão equivocados. A conversa estava muito pesada e Pregador não suportou as duras críticas que estavam sendo feitas à sua conduta enquanto ministro. Após Pregador ir embora, Cambaleú disse a Jesus e a Evangelho:

– Mas o que houve com vocês? Porque pensam assim a nosso respeito?

– Bem – respondeu Evangelho – Por que nós os amamos e desejamos que vocês refaçam aquele caminho trilhado antigamente, onde a preocupação era de fato anunciar Jesus aos pecadores e conduzi-los ao conhecimento das Escrituras. Sua casa, Cambaleú, não deve mais ser usada tal como está sendo hoje: para o espetáculo, exibição humana, disputas de egos, exposições prédicas vazias e sem sentido que não tocam a realidade da vida das pessoas, apenas prometem bênçãos e bênçãos sem apresentar as exigências de uma vida crucificada com nosso Mestre, Jesus.

Cambaleú simplesmente parou, ficou reflexivo, com aquele olhar distante. Houve um silêncio sepulcral à mesa. Jesus, então, ponderou novamente, como só Ele sabe fazer, dizendo à Cambaleú:

– Eu admoesto e corrijo a todos quantos amo e quero bem. Arrepende-te, pois, e volta ao primeiro amor. Lembra-te da minha ordem: Ide e pregai o Evangelho a toda a criatura. E o Evangelho é puro, simples, alicerçado nas Escrituras…

Depois de dizer isso, Jesus e Evangelho se levantam, dão um abraço demorado em Cambaleú e sinalizam que vão se retirar. Jesus diz a Cambaleú então:

– Não se preocupe! Eis que estou à porta e bato, e se você abrir eu entrarei e cearei contigo. Caso decida não voltar às primeiras obras, lembre-se, eis que breve venho e o meu galardão está comigo para dar a cada um segundo a sua obra.

Cada um tomou seu caminho e a conversa estava de fato encerrada. Os quatro voltariam a se encontrar? Os conselhos e advertências de Jesus e de Evangelho seriam acatados? São perguntas que ainda aguardam resposta… Há, contudo, esperança.


Roney Cozzer é presbítero na Assembleia de Deus Central de Porto de Santana, Cariacica (ES), Mestre em Teologia pelas Faculdades Batista do Paraná (FABAPAR), coordenador do Curso de Teologia EAD da Faculdade Unilagos, no Rio de Janeiro e palestrante nas áreas de Teologia e Educação Cristã.