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sexta-feira, 1 julho 2022

Bullying, como proteger seus filhos?

Aos 17 anos, ele sofreu uma terrível agressão. Por ser o filho predileto, convivia com o ciúme e as atitudes maldosas de seus irmãos, que chegaram a planejar sua morte.

Um deles achou que bastava vendê-lo como escravo a mercadores, e assim foi feito. A história de José, filho de Jacó, não é recente e representa uma situação de intimidação e humilhação que acontece até os dias de hoje: o bullying.

O termo é novo, mas seu significado não. Bullying pode ser definido como a prática em que um indivíduo se coloca em posição de poder em relação a outro com a intenção de intimidar, amedrontar, humilhar ou machucar. É bem provável que José tenha sido umas das primeiras vítimas dessa situação. “Quando os seus irmãos viram que o pai gostava mais dele do que de qualquer outro filho, odiaram-no e não conseguiam falar com ele amigavelmente” (Gn 37.4). Seus irmãos demonstravam abertamente o incômodo que sentiam, e o ápice de tal insatisfação se deu com a venda de José: “o venderam por 20 peças de prata aos ismaelitas, que o levaram para o Egito” (Gn 37.28).

Em inglês, bully significa “valentão”, ou seja, aquele que vive constantemente com essa postura, infringindo ao outro uma agressão emocional, verbal, psicológica ou até mesmo física. “A expressão bullying representa um conjunto de atitudes que uma pessoa tem no intuito de agredir o outro”, explica a psicóloga, psicanalista e terapeuta familiar Cássia Rodrigues, da Igreja Evangélica Batista de Vitória. Segundo ela, o bullying pode acontecer tanto de maneira mais branda, quanto de forma mais grave.

“O bullying muda a história de vida dos seres humanos” – Cássia Rodrigues, psicóloga, psicanalista e terapeuta familiar

Em menor grau, o bullying aparece nos apelidos que desqualificam ou denigrem a criança. “Aparentemente inofensivos, esses apelidos incomodam e acuam o indivíduo. Sempre que isso acontece, configura-se o bullying”, explica. A psicóloga alerta ainda que, ao perceber a fragilidade da vítima, o agressor ganha força e permanece com a ação, podendo chegar a praticar agressões físicas.

Os pais devem estar atentos ao comportamento das crianças, que apresentam sinais claros quando algo errado está acontecendo, ficando caladas, introspectivas, deixando de fazer as coisas de que mais gostam ou até mesmo, apresentando sintomas físicos. “As crianças vítimas de bullying podem ter insônia, dor de barriga, febre e apresentar enurese (perda do controle de urinar)”, esclarece Cássia. Segundo ela, muitas crianças também perdem a motivação para estudar e a vontade de ir para a escola.

Como proteger os filhos dessa ameaça?

Diante da ameaça do bullying, o que os pais podem fazer para proteger  seus filhos? Para o pastor da Igreja Batista em Mata da Praia, Marcelo de Aguiar, o diálogo é fundamental, bem como mostrar interesse na vida e nas atividades da criança, mantendo aberto um canal de comunicação e confiança. “Toda a força do bullying está no segredo com que o assunto é tratado. Normalmente, a criança é intimidada pelos colegas e não conta nada para os pais, pois há um consenso entre os alunos de que recorrer à ajuda dos pais é sinal de fraqueza”, avalia o pastor. Dessa forma, explica, a criança vítima de bullying tenta resolver o problema sozinha, enquanto o agressor aproveita a impunidade para continuar com a prática.

O pastor Marcelo explica que os pais podem e devem se basear na Palavra de Deus para orientar seus filhos, realizando estudos e incentivando o comportamento cristão. Ele lembra que a “regra de ouro” pronunciada por Jesus no sermão da montanha é tratar os outros como desejamos ser tratados – “Como quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles” (Lucas 6:31). “Essa passagem não fala especificamente sobre o bullying, mas reprova essa atitude e, de resto, todo o comportamento impiedoso com o semelhante”, diz o pastor.

“Algumas instituições negam ou minimizam o problema, mas principal atitude é não negar o fato” – Leslie Guimarães de Moraes, coordenadora pedagógica do colégio Adventista de Vitória

Ao estudar a Palavra de Deus é possível encontrar exemplos de situações atuais. A história de José, mesmo tão antiga, reflete a perseguição que muitas crianças e jovens sofrem com o bullying. O pastor Marcelo explica que os pais precisam conhecer a Bíblia e também fazê-la conhecida de seus filhos, para que saibam como agir ante tal situação.

“Se queremos um exemplo bíblico de bullying, podemos nos reportar à experiência de Daniel e seus três amigos. Ainda adolescentes, eles foram levados para a Babilônia, a fim de estudar ‘a letra e a língua dos caldeus’. Aquela era considerada a ‘universidade’ daquele tempo e era também um local de terríveis perseguições. Os quatro amigos tiveram suas convicções religiosas questionadas e seus nomes – que tinham significados nobres – trocados por outros com significados depreciativos. Ora, claramente, isso é uma forma de bullying”, conta o pastor. Segundo ele, Daniel e seus amigos não apenas sobreviveram, mas também prosperaram naquele lugar (Dn 1:3-21).

De acordo com o pastor, Daniel e os amigos venceram as dificuldades e os desafios impostos por confiarem em Deus, seguirem Seus ensinamentos e permanecerem unidos. “O bullying atinge com mais facilidade quem não tem amigos, ou seja, as crianças solitárias que, por isso mesmo, são vítimas mais fáceis. Contar sempre com Deus e cercar-se de amigos e irmãos que possam nos proteger é uma lição que podemos aprender com a experiência de Daniel para derrotar o bullying”, ensina pastor Marcelo.

As igrejas são importantes aliadas dos pais no combate ao bullying, orientando e debatendo o tema entre crianças, adolescentes e jovens. “Quando a igreja transmite os conceitos bíblicos de respeito, amor e dignidade, já está prevenindo o bullying. Está ensinando o valor de todos os seres humanos, o que significa que não podemos tratar os outros indignamente nem permitir que sejamos tratados assim”, afirma Marcelo. A igreja onde ele atua, por exemplo, realizou um treinamento voltado para os adolescentes que abordava o bullying virtual e os perigos da internet, orientando sobre as providências a serem tomadas nesses casos. “Essa é uma orientação valiosa que a igreja deve proporcionar às crianças, aos adolescentes e aos jovens”, pontua.

O papel da escola

O bullying pode acontecer em qualquer lugar, mas o cenário onde ocorre com maior frequência e gravidade é a escola. Por isso, muitas instituições de ensino já debatem o tema com os alunos. O bullying escolar, como é chamado, preocupa educadores e psicólogos pelo fato de as crianças e adolescentes estarem em fase de formação de caráter e personalidade, e uma experiência de agressão pode gerar um trauma para a vida adulta. “O bullying muda a história de vida do ser humano. Uma pessoa que poderia ter uma construção emocional de autoestima equilibrada, com o bullying passa por uma frustração e rejeição sem necessidade”, alerta a psicóloga.

De acordo com a coordenadora pedagógica do Colégio Adventista de Vitória, Leslie Guimarães de Moraes, atualmente todas as escolas na Capital, independente do nível social dos alunos ou localização, registram casos de bullying. “Algumas instituições negam ou minimizam o problema, mas a principal atitude é não negar o fato”, avalia a pedagoga. Ela explica que o procedimento tomado pelas escolas, após identificar o bullying, começa com a intervenção docente, realizada por professores, orientadores e coordenadores. Em caso de reincidência, os pais dos alunos são chamados ao colégio para desenvolver uma parceria com a instituição com objetivo de mudar o entendimento e a atitude do agente de bullying. “Somente em último caso acionamos o apoio do Conselho Tutelar”, esclarece Leslie, que diz ainda que as escolas indicam especialistas para o acompanhamento dos alunos que sofrem ou praticam o bullying.

A psicóloga Cássia Rodrigues destaca a importância dos educadores em identificar a prática do bullying, tomando as providências cabíveis sempre que necessário. “Os professores devem estar atentos ao comportamento das crianças, que, nessa fase, são ativas, bagunceiras e alegres. Quando uma delas passa a ficar muito quieta, acuada, é porque algo errado pode estar acontecendo”, explica.

Meu filho é vítima de bullying

Tão importante quanto prevenir essa situação é saber o que fazer quando o filho é vítima de bullying. Para o pastor Marcelo de Aguiar, os pais devem conversar com os filhos mostrando que isso não é aceitável e que o bullying não é culpa de quem o sofre. “Os pais devem fazer a criança perceber que essa situação deve ser denunciada e assumirem eles, os pais, a responsabilidade pela denúncia”, alerta.

“Com muita calma, os pais devem fazer com que a criança perceba que o bullying é uma situação que deve ser denunciada e assumirem a responsabilidade pela denúncia.” – Pastor Marcelo de Aguiar, Igreja Batista em Mata da Praia

Conforme o pastor explica, as crianças têm medo de contar sobre a agressão aos pais e sofrerem retaliações dos colegas. “Se houver retaliações e a escola não fizer nada para impedi-las, o pai não deve hesitar em tirar o seu filho dessa escola. Ela terá provado que é indigna da confiança do pai e que não merece que o seu filho estude nela”, afirma o pastor.

A psicóloga Cássia Rodrigues destaca que quando o bullying acontece é porque a criança, de alguma forma, não sabe como se defender. “As famílias devem gerar nos filhos essa capacidade, pois é ela quem primeiro prepara o indivíduo para o mundo, e o bullying é uma frustração que está no mundo”, avalia Cássia. A psicóloga incentiva os pais a procurarem ajuda profissional nesses casos, para que as crianças não levem para a fase adulta os traumas causados pelo bullying. “Quem sofre bullying na infância será um adulto inseguro, terá inconstâncias nos relacionamentos, baixa autoestima, será retraído e sem coragem para ousar ou encarar desafios. Além disso, em casos mais graves, poderá desenvolver fobias, como depressão, síndrome do pânico e transtorno de ansiedade”, explica Cássia.

Meu filho pratica o bullying

Muito se fala em quem é vítima de bullying, mas o agente, ou seja, quem infringe a agressão, também deve receber atenção e acompanhamento. Para Cássia Rodrigues, na maioria das vezes, a criança agente de bullying reflete em suas atitudes alguma deficiência no ambiente familiar. “Não necessariamente a criança que pratica o bullying sofre agressões em casa, muitas vezes, os pais são ausentes e os filhos tentam a todo custo chamar a atenção”, esclarece. De acordo com ela, um adulto que tenha praticado bullying na infância tende a ser intolerante. “O agente de bullying cresce acreditando que pode ganhar as coisas no grito, no enfrentamento, e isso traz consequências sérias, como desvios de conduta”, alerta a psicóloga.

Para o pastor Marcelo, a criança que pratica o bullying pode estar sofrendo a influência de um grupo de colegas ou ter problemas com a autoestima, perseguindo as outras como forma de se autoafirmar. “Em qualquer uma das situações, os pais precisam ficar atentos e conversar, verificar o que está errado no relacionamento familiar e corrigir a questão”, diz. Ele alerta que os filhos devem ser criados dentro de limites estabelecidos, respeitando as diferenças. Para ele, a partir do instante em que os pais são avisados que o filho é um agente de bullying, devem tomar providências imediatas. “Esse filho precisa sofrer alguma forma de penalidade, caso contrário, os pais estarão criando um grande problema para si mesmos e para a sociedade”, conclui o pastor.

A Bíblia mostra que tanto Daniel quanto José foram vencedores. Independente do desânimo que possam ter sentido, sempre fizeram o melhor que podiam, buscavam o Senhor em momentos de crise e escolhiam o caminho correto. José, vendido como escravo pelos próprios irmãos, venceu a amargura e escolheu ver além das atitudes de seus irmãos, enxergando a mão de Deus em sua vida (Gn 45:8). Esse é o exemplo que precisa ser seguido por quem é vítima de bullying. Afinal, acima dos agressores está um Deus que ama todos os seus filhos incondicionalmente.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.

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