Entenda barreiras culturais que dificultam a aceitação da fé no contexto atual
Ao contrário de outros sistemas de crença, o Ateísmo não é uma visão de mundo formal. Trata-se de uma postura ou atitude de indiferença em relação à crença em Deus. Essa perspectiva é um desafio que a apologética cristã precisa enfrentar, pois se tornou um obstáculo comum para a consideração da fé cristã.
O autor e jornalista Jonathan Rauch, em um artigo amplamente citado na revista The Atlantic, intitulado “Let It Be”, identifica-se como apateísta. Ele define o termo apatheísmo como “uma indisposição para se importar muito com a própria religião e uma indisposição ainda maior para se importar com a religião dos outros”. Para Rauch, essa postura não é um “estado de preguiça ou acomodação”, mas sim um feito sociológico. Escrevendo após os eventos de 11 de setembro de 2001, ele explica que, ao longo da história, o zelo religioso frequentemente causou divisões e violência, e vê a redução da paixão religiosa não como uma falha, mas como uma conquista.
Definição filosófica e razões para o apatheísmo
Os filósofos Trevor Hedberg e Jordan Huzarevich reforçam essa ideia: “O apatheísmo é distinto do teísmo, ateísmo e agnosticismo. O teísta acredita que Deus existe; o ateu acredita que Deus não existe; o agnóstico acredita que não podemos saber se Deus existe; o apateísta acredita que não deveríamos nos importar se Deus existe ou não” (ênfase adicionada). Hedberg e Huzarevich analisam seis razões comuns para valorizar as “questões de existência” (EQs). Exceto pela forma como a crença ou descrença em Deus poderia afetar a vida após a morte, eles consideram as motivações normais para considerar tais questões pouco convincentes e insuficientes para justificar o foco nelas.
Segundo os filósofos, “cada uma dessas objeções apresenta uma razão diferente para pensar que a crença em Deus é praticamente significativa. Cinco dessas objeções falham. A sexta, que apela para a importância prática da crença em Deus em relação ao destino após a morte, é mais promissora, mas ainda enfrenta obstáculos significativos. Como o sucesso dessa objeção é controverso, se temos bons motivos para rejeitar o apatheísmo prático também deve ser controverso, e a visão merece mais exame”.
Eles concluem que, se as respostas às “questões de existência” não têm significado prático, talvez elas mereçam menos atenção filosófica e os debates sobre elas possam ser mais leves, pois os riscos não são tão altos quanto se imagina. Assim, eles defendem que não deveríamos nos importar se Deus existe.
Desafios e barreiras para a apologética diante do apatheísmo
Kyle Beshears, pastor e estudioso que abordou o tema, destaca que o contexto cultural atual favorece o florescimento dessa atitude frente à fé. Ele identifica quatro barreiras relacionadas à crença cristã: 1. crença contestada e globalização, 2. segurança existencial sem Deus, 3. distração e 4. autonomia.
Primeiro, seguindo pensadores como Charles Taylor, James K. A. Smith e Alan Noble, Beshears aponta que a crença no mundo contemporâneo é contestada devido à globalização e ao encontro constante de diversas religiões e culturas. Isso se assemelha à ideia de “estrutura de plausibilidade” de Peter Berger, onde o contato frequente com diferentes crenças dificulta a aceitação do cristianismo como a única fé verdadeira.
Em segundo lugar, os avanços científicos, a prevalência do secularismo, o aumento da riqueza e da tecnologia criaram uma sensação de segurança existencial que não existia em épocas anteriores, quando a irrelevância de Deus era impensável. Charles Taylor explica que nos últimos 500 anos houve uma mudança significativa para o “quadro imanente”, afastando-se da crença no “mundo encantado”, onde Deus era visto como ativo e intervindo no mundo. Beshears afirma: “Quanto mais uma sociedade se sente segura e cuidada, menos importante Deus se torna. E quanto menos motivadas as pessoas estão a buscar Deus, menos elas consideram sua existência relevante”. Para os apateístas, há um sentimento comum: “segurança existencial sem Deus”.
Em terceiro lugar, além de auto-suficiente, o mundo atual é cada vez mais distraído. Com base no trabalho de Alan Noble, Beshears observa que “a distração persistente da nossa cultura impede que façamos as perguntas mais profundas e importantes sobre existência e verdade. Questões que impactam nossa alma para o Evangelho (como morte, beleza, ansiedade) podem ser rapidamente entorpecidas por uma maratona de séries de oito horas”. Ele continua: “Evitamos facilmente as maiores e mais difíceis perguntas da vida porque estamos ocupados demais”. É nesse solo de contestação, diversidade, conforto e distração que o apatheísmo não apenas cresce, mas floresce.
Por fim, Beshears sustenta que a primazia da autonomia pessoal é a causa definitiva do apatheísmo. Ele escreve: “A razão central para a existência do apatheísmo é que não queremos nos importar com Deus. Desenvolvemos uma antipatia pela contemplação espiritual porque não queremos a consequência inevitável: uma mudança fundamental em quem somos e como vivemos. Sacrificar a autonomia é um preço alto demais, então protegemos essa autonomia por meio da apatia”. Isso lembra o que Francis Schaeffer chamou de “ídolos da paz pessoal e da riqueza”. As pessoas querem ser deixadas em paz, sem serem incomodadas pelas necessidades dos outros, próximas ou distantes. Schaeffer explica que “paz pessoal” significa querer que o padrão da própria vida não seja perturbado, e “riqueza” significa uma prosperidade esmagadora e crescente — uma vida feita de coisas, coisas e mais coisas. Vividos sem limites, ambos são incompatíveis com a soberania de Cristo.
Essas quatro barreiras — crença contestada e globalização, segurança existencial sem Deus, distração e autonomia — são alvos essenciais para a apologética diante do apatheísmo.
Considerações finais sobre o apatheísmo
Existem observações importantes sobre o apatheísmo que merecem destaque. Primeiramente, apesar de não ser um sistema de crença desenvolvido, o apatheísmo é uma forma de crença. Como Beshears destaca: “Pergunte a um apateísta por que ele não se interessa por Deus e a resposta provavelmente será que eles não acreditam que Deus seja relevante para suas vidas”. O problema é que eles também não acreditam que as perguntas sobre Deus valham a pena ser feitas, mesmo que o teísmo cristão tenha impactado positivamente grande parte do mundo e tenha sido crucial para a formação da cultura e sociedade ocidentais.
Em segundo lugar, longe de ser virtuoso, há boas razões para considerar o apatheísmo como intelectualmente e moralmente prejudicial. Tawa Anderson afirma que “o apatheísmo conduz aos vícios da acídia (falta de cuidado com coisas que merecem atenção) e da misologia (ódio a argumentos racionais)”. Paul Copan critica da mesma forma: “Do ponto de vista espiritual, racional e moral, é como não se importar com o câncer. Ou como uma criança que não vê sentido em uma boa educação”. As palavras de C. S. Lewis são apropriadas: “O cristianismo, se falso, não tem importância, e se verdadeiro, tem importância infinita. A única coisa que não pode ser é moderadamente importante”.
Em terceiro lugar, o senso de “progresso” do apatheísmo é o que Lewis chamou de “esnobismo cronológico”. Esse termo define a crença acrítica na superioridade da própria época e cultura, e o desprezo pelo passado. Lewis reconheceu que havia abraçado esse pensamento cegamente até ser desafiado por Owen Barfield, o que foi um obstáculo para sua conversão ao cristianismo. Ele defende que devemos estar conscientes do nosso contexto cultural e analisar os argumentos sobre crenças específicas: “Foi alguma vez refutado (e se sim, por quem, onde e quão conclusivamente) ou simplesmente caiu em desuso como modismos? Se foi o último, isso não diz nada sobre sua verdade ou falsidade”.
Essa crítica pode ser aplicada ao artigo de Hedberg e Huzarevich. É duvidoso que o texto tenha “refutado conclusivamente” ou substituído o poder explicativo do teísmo para sistemas éticos objetivos ou para fundamentar o significado objetivo da vida com modelos seculares. Outros pontos apresentados parecem triviais do ponto de vista cristão (como acreditar em orações atendidas) ou mal aplicados (como ser motivado eticamente sem o teísmo).
O problema da ética não teísta não é se é possível ter motivação ética sem Deus — os cristãos reconhecem que não teístas podem ser morais. A questão é se o naturalismo, como visão de mundo, explica melhor os valores e deveres morais do que o teísmo, ou se o cristianismo oferece uma base e justificativa mais sólida para padrões objetivos de moralidade.
Quarto, a possibilidade de Deus como o Maior Ser Concebível exige a atenção da mente moral e intelectualmente sensível. A recusa em considerar tais questões pode indicar que a pessoa não possui as faculdades adequadamente sensíveis ou ordenadas. Por exemplo, alguém pode ter pouco ou nenhum respeito pela vida humana, mas isso não diminui o valor real de um ser humano. Nesses casos, as emoções ou o intelecto da pessoa são moralmente deficientes. A indiferença do apatheísmo a Deus lembra a surpreendente confissão de Lewis em The Abolition of Man, quando admitiu que não gostava da presença de crianças. Contudo, Lewis reconheceu essa deficiência moral em si mesmo, quando julgada à luz do Tao (doutrina do valor objetivo), que sustenta que certas atitudes são realmente verdadeiras e outras falsas, conforme a natureza do universo e dos seres humanos. Em tal visão, as emoções são reconhecimentos de valores objetivos. Quando bem ordenadas, emoções virtuosas indicam o que deve ser aprovado.
Adam Pelser observa que essa visão tem recebido apoio crescente na filosofia e psicologia. Ele explica: “Emoções são experiências semelhantes à percepção de valores objetivos. Em contas perceptuais, emoções, como sensações, podem estar certas ou erradas, e a pessoa sábia e virtuosa não apenas fará julgamentos morais e estéticos apropriados, mas também ‘verá’ o valor no mundo corretamente por meio das emoções”.
Lewis e pensadores antigos, em diversos contextos culturais e religiosos, acreditavam que os sentimentos podiam e deviam ser cultivados por meio de exemplos. Pelser acrescenta: “Ao ‘regar’ os corações áridos dos nossos alunos… podemos libertá-los para experimentar ou ‘ver’ a injustiça do apartheid, a desumanidade do genocídio, a beleza de uma sinfonia de Beethoven, a elegância das leis físicas do universo, a dignidade das pessoas, o nosso próprio pecado e até mesmo a graça e bondade de Deus por meio das percepções emocionais bem formadas — por meio, em particular, da indignação, horror moral, admiração estética, maravilha, amor, contrição e gratidão”.
Diferentemente de Lewis, que reconheceu sua falta de afeição como uma deficiência moral, os apateístas se mostram satisfeitos, e em alguns casos orgulhosos, de sua indiferença para com aquele que Anselmo chamou adequadamente de “aquele do qual nada maior pode ser concebido”. (Com informações de Jonathan Parker – Christianpost)

