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segunda-feira, 21 junho 2021

A Igreja e a cultura de guerra

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Israel busca apoio da Igreja brasileira para seus projetos, como o dos assentamentos ilegais em terras palestinas

Por Magno Paganelli

No início de maio um vergonhoso episódio do conflito entre israelenses e palestinos teve reinício. As últimas informações dão conta de centenas de feridos de ambos os lados, além de mortos. A Igreja brasileira precisa compreender melhor essa situação.

Em 2014, no final da minha primeira pesquisa de pós-graduação sobre o conflito Israel-Palestina, o Hamas palestino e as Forças de Defesa de Israel guerreavam. Na ocasião afirmei que havia uma regularidade nesses atritos e indiquei que os veríamos com frequência, pois há como um “plano de governo” em Israel que visa o extermínio dos palestinos nos territórios hoje ocupados. David ben Gurion, que leu a Declaração da Independência do Estado de Israel em 14 de maio de 1948, afirmou: “Os palestinos devem ir embora desta terra. Precisamos de uma oportunidade para fazer isto, como uma guerra”.

Avi Schlaim, historiador judeu, em A Muralha de Ferro, expôs o plano de Vladimir “Zeev” Jabotinsky, para construir como que uma muralha bélica robusta contra os povos árabes. A muralha também visava criar situações para conflitos com os árabes. Diante disso, evangélicos se levantam e repetem o jargão impreciso de que árabes e palestinos querem destruir Israel, “lançando-os ao mar”. A frase é do presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, dita antes da Guerra de 1967.

Depois dele, Anwar al Saddat, que sucedeu-o na presidência do Egito, fez a paz com Israel e visitou Jerusalém. Desde então, árabes usam a frase para expressar a raiva contra os judeus e os “anti-árabes” (evangélicos incluídos) a usam para defender a ideia de que Israel deve atacar árabes e palestinos. Na prática, não só há árabes querendo o fim do movimento sionista (e dos judeus), mas há um Estado empenhado no extermínio (genocídio) palestino.

Na Igreja, uma confusão. Como demonstrei em pesquisa posterior (2018), Israel busca apoio da Igreja brasileira para seus projetos, como o dos assentamentos ilegais em terras palestinas. A igreja tupiniquim desinformada faz uma leitura distorcida de porções da Bíblia, da situação social na região (como ignorar os cristãos palestinos), e pouco ou nada sabe sobre o direito internacional, os acordos internacionais e resoluções sobre o conflito.

Após a invasão da cultura judaica na Igreja, textos do Novo Testamento sobre a paz são ignorados. Esqueça “bem-aventurados os pacificadores”, “amai os vossos inimigos”, “segui a paz com todos” e “quando entrardes numa casa, saudai-a com a paz”.

Nos últimos 25 anos evangélicos querem o templo profetizado por Ezequiel no Monte do Templo, onde está o Domo da Rocha e a Mesquita de al Acsa. Nem entre os judeus há consenso sobre essa construção e o Novo Testamento fala da inutilidade de um templo para a adoração.

O que a Igreja brasileira tem cultivado em relação a esse cenário? Uma cultura estranha ao espírito evangélico, importando modelos que não encontram fundamento cristão e tem dado péssimo testemunho, negligenciando os esforços missionários entre os povos árabes. Precisamos resgatar a nossa identidade como Igreja para que a nossa voz seja ouvida com atenção.

Magno Paganelli é doutor em História Social (USP) e mestre em Ciências da Religião (Mackenzie)

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