Psicologia e fé ajudam a entender como vítimas das enchentes podem enfrentar o luto e reconstruir a vida
Por Cristiano Stefenoni
Dona Maria Aparecida Batista carrega um número que não cabe no peito: 17 parentes entre mortos e desaparecidos nas inundações que devastaram as cidades mineiras. Em meio à lama que ainda marca ruas e memórias, uma pergunta ecoa com a força das enxurradas: como seguir em frente quando quase tudo foi arrancado?
Segundo o doutor em psicologia e psicanalista, pastor Edson de Oliveira, a dor não é a mesma para todos. Ela impacta de forma diferente, por isso mesmo, precisa de estratégias diferenciadas para ser tratada.
“Há uma diferença entre aquelas pessoas que estavam no local do evento e as que estavam próximas. Então, quanto mais próximas, maior é o impacto em termos de saúde mental. Os impactos são profundos por conta dos elementos emocionais envolvidos. Não se trata de números frios. Ali é a minha mãe, meu irmão, meu vizinho. Quando há vínculo, uma relação afetiva, a situação se torna muito mais grave. A diferença entre saber de uma tragédia e viver a tragédia tem o tamanho do afeto”, explica Oliveira.
O doutor ressalta que o problema de traumas assim pode perdurar por anos após o ocorrido. “As cenas voltam com nitidez assustadora. Se passou há 10 anos, mas quando lembram, é como se fosse exatamente naquele momento. A psiquiatria classifica o quadro como ‘Transtorno de Estresse Pós-traumático’, marcado por exposição extrema, lembranças intrusivas, pesadelos e reações físicas. O coração dispara, ou seja, vai somatizar. Até o céu carregado pode acionar o alarme interno”, justifica.
De acordo com o especialista, sair dessa situação de trauma não é uma tarefa fácil e, na maioria das vezes, requer ajuda profissional. “É muito difícil as pessoas saírem dessa situação sozinhas. Essa resiliência não se limita somente ao que uma pessoa é capaz de fazer por si mesma, mas ao tipo de suporte que ela recebe. Rede de apoio é palavra-chave. O suporte em termos de saúde mental é fundamental”, ressalta o doutor.
Oliveira cita o neuropsiquiatra austríaco Viktor Frankl ao justificar a necessidade de uma apoio pautado na paciência e compreensão: “Diante de situações anormais, reações anormais são normais”. E orienta: “Primeiro é ajudar a pessoa a entender o que está acontecendo com ela, as reações que está tendo. Tenha uma escuta muito acolhedora, deixe a pessoa falar. Só depois vem o direcionamento. Você tem que escutar primeiro, acolher e depois dar esse suporte”, afirma.
Para o doutor, também é preciso ajudar a pessoa a se “desligar” da internet, da televisão, para que evite a repetição de imagens que só trarão mais dor e sofrimento, além de piorar a recuperação, o recomeço.
“Essas pessoas acabam sendo expostas, de forma repetida, a detalhes aversivos desse evento traumático, e a mídia brasileira é muito cruel em relação a isso. A repetição pode ampliar o sofrimento, inclusive, de quem não estava no epicentro. Em tempos de telas onipresentes, proteger a mente é parte do cuidado”, alerta.
Para o presidente da Primeira Igreja Batista de São Paulo, pastor Paulo Eduardo Gomes Vieira, a tragédia convoca todos à compaixão e ressalta que o cristão tem o dever de ajudar de alguma forma. “A perda brutal de pessoas amadas pode impactar em todos os aspectos da vida. E não há espaço para indiferença. Absolutamente ninguém pode ficar alheio, indiferente. Jesus compadeceu-se das multidões”, lembra.
O pastor enfatiza que seguir adiante exigirá fôlego. “Requer muita coragem, confiança que é possível, sim, reconstruir, recomeçar. Mas coragem não nasce no vácuo. É importantíssimo que a compaixão se traduza em generosidade, doações, mãos estendidas, ações concretas. Para quem, da noite para o dia perdeu tudo, a ajuda precisa ser visível”, afirma.
Segundo Vieira, a fé não apaga a dor, mas oferece sentido. “Quando você tem um bom ‘por quê’, pode suportar quase todo ‘como’. Mas ‘sentido’ não é minimizar o sofrimento. A espiritualidade precisa equilibrar razão e emoção, preparar para terra e para o céu, oferecer estrutura para enfrentar injustiças aqui e esperança para o amanhã”, ressalta.
O pastor lembra que seguir a Cristo implica em agir. “A palavra generosidade vem de gene, de vida. Ou seja, quando eu divido o que tenho, compartilho, estou contribuindo com a vida, estou enfrentando a morte”, diz.
Para dona Maria Aparecida e tantos outros, o luto será uma travessia longa. “Coragem com a solidariedade dos que estão em volta, com muita fé em Deus, vencerão, vão ultrapassar, reconstruir”, conclui o pastor.


