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Após ato de 7 de Setembro, cresce pressão por anistia

• Atualizado em 25/09/2025
6 min de leitura

A Avenida Paulista se transformou nesse domingo, 7 de Setembro, em palco de um dos atos políticos mais expressivos desde o início do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF). Convocado por lideranças religiosas, entre elas o pastor Silas Malafaia, o protesto reuniu apoiadores do ex-presidente em torno de um pedido específico: anistia para os condenados pelos atos que resultaram nas manifestações de 8 de janeiro de 2023. Os protestos também aconteceram em várias outras cidades do país.

A mobilização contou com a presença de figuras centrais do campo bolsonarista, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Estimativas da Universidade de São Paulo apontam que entre 37 mil e 47 mil pessoas ocuparam a avenida em seu ponto máximo de concentração.

Silas Malafaia participa do evento Reaja Brasil, na Avenida Paulista. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil.
Silas Malafaia participa do evento Reaja Brasil, na Avenida Paulista. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil.

Embora Jair Bolsonaro não pudesse comparecer devido à prisão domiciliar, sua ausência foi preenchida por discursos de aliados. Malafaia, que está proibido de deixar o país por ordem do ministro Alexandre de Moraes, voltou a se manifestar contra o magistrado e classificou o processo contra o ex-presidente como perseguição política.

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Valdemar Costa Neto, presidente do PL, e o deputado Sóstenes Cavalcante também se revezaram no carro de som, reforçando a narrativa de que a direita brasileira está sendo alvo de excessos do Judiciário. As falas se somaram a cartazes e bandeiras erguidas pelo público, com mensagens que pediam liberdade, democracia e anistia, além de ataques diretos a Moraes e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O cientista político e pastor Gustavo Knauer, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), em Alphaville (SP), avaliou que a mobilização evidenciou a força política do ex-presidente. “Hoje o poder de mobilização de massas está nas mãos da direita e com muito mais força daqueles que consideram Bolsonaro a melhor opção para o país”.

Valdemar da Costa Neto participa do evento Reaja Brasil, na Avenida Paulista. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil.
Valdemar da Costa Neto participa do evento Reaja Brasil, na Avenida Paulista. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil.

Para Knauer, a dimensão do ato superou fronteiras locais. “Não foi uma questão regionalizada, mas com amplitude nacional”. Ele ainda destacou que os efeitos não se limitam ao Brasil. “O povo na rua deixou um registro claríssimo de qual é o desejo da população e isso tem repercussão internacional muito valiosa”.

Tarcísio de Freitas foi o principal orador entre os governadores presentes. Questionou a legalidade das provas contra Bolsonaro, disse que não houve crime no 8 de janeiro e defendeu que o ex-presidente dispute as eleições de 2026. “Tudo depende da mobilização popular”, completou Knauer, em sintonia com o discurso do governador paulista.

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Romeu Zema, por sua vez, optou pela discrição e não discursou, mas sua presença foi saudada pelo público. Já Michelle Bolsonaro emocionou apoiadores ao relatar as dificuldades enfrentadas pela família desde que o marido foi colocado em prisão domiciliar.

A ex-primeira-dama afirmou que a liberdade de Bolsonaro foi cerceada, que as restrições impostas afetam o cotidiano doméstico e que acredita em um desfecho favorável. “O desenho está muito claro, é questão de tempo e nós vamos ver a anistia aprovada e eu ouso dizer que veremos Bolsonaro na urna”, reforçou Knauer.

O pastor Marcos Gonçalves, presidente do Conselho Nacional Cristão de Participação Política (CNCPP), avaliou que o bolsonarismo demonstrou resiliência. “Ontem mais uma vez o bolsonarismo deu uma demonstração que veio para ficar, em várias manifestações pelo país, a direita manifestou o seu repúdio às decisões do STF pedindo anistia para os condenados de 8 de janeiro”.

Segundo ele, a mobilização nacional cria respaldo político em Brasília. “Essa demonstração de força e resistência da direita bolsonarista coaduna com um movimento no Congresso Nacional em pautar um projeto de lei para conceder anistia aos condenados”.

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Pastor Gonçalves ponderou, no entanto, que a pressão das ruas não deve influenciar diretamente o julgamento no Supremo. “Não acreditamos que o ato de ontem tenha alguma influência no julgamento de Bolsonaro e mais sete réus no inquérito da ‘trama golpista’. Os ministros da primeira turma estão seguros do seu posicionamento e não serão abalados por interferências externas”.

Na avaliação dele, a estratégia jurídica seguirá seu curso, independente do barulho das ruas. “A técnica jurídica suplanta os devaneios emocionais, não se vence com emoção, e sim, com inteligência”.

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Já o pastor da comunidade profética Novo Tempo, Rogério Rodrigues, advogado e Conselheiro da OAB de São João de Meriti, RJ, destacou a polarização visível nas comemorações da Independência. “As celebrações do dia da independência que ocorreram no 7 de Setembro foram diferenciadas este ano. Foram marcadas por manifestações da esquerda e da direita”.

Rodrigues avaliou que a mobilização bolsonarista superou a capacidade de articulação do campo adversário. “A esquerda até se esforçou para reunir seus apoiadores, mas se mostrou pífia, enquanto a direita conseguiu reunir boa quantidade em todo o país, mostrando força e união”.

Na leitura dele, esse movimento pressiona até mesmo o Legislativo. “Tanto é que até mesmo o presidente da Câmara Hugo Motta, que participou do desfile do lado do presidente Lula, em entrevista, foi muito dúbio, numa fala conciliadora, pois percebeu a força das ruas”.

Rodrigues entende que a questão da anistia ganhou corpo político. “Ficou demonstrado que a anistia é o desejo de muitos e a pressão foi enviada. Pode não ser aprovada na sua plenitude, mas certamente acontecerá”.

Para Knauer, o protagonismo do Congresso é inevitável. “Acredito que não será mais possível para Hugo Motta resistir a colocar em pauta a questão da anistia”.

O ato na Avenida Paulista foi parte de uma mobilização nacional, com manifestações semelhantes em diferentes capitais, organizadas sob a bandeira do movimento “Reaja Brasil”. A cena em São Paulo reforçou a simbologia característica do bolsonarismo, com bandeiras do Brasil, dos Estados Unidos e de Israel, além da execução do Hino Nacional acompanhada por vaias contra o governo federal e gritos de “Fora Moraes”.

Pessoas participam do evento Reaja Brasil, na Avenida Paulista. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil.
Pessoas participam do evento Reaja Brasil, na Avenida Paulista. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil.

O professor Guilherme Falcão, psicólogo, filósofo e pastor em Curitiba (PR), interpretou de forma crítica o uso desses símbolos. “Ver uma bandeira gigantesca dos Estados Unidos no 7 de Setembro é um ato de traição ao Brasil. É um recado de que o país precisaria dos Estados Unidos e de Trump para ser independente, o que é inconstitucional e contra o amor à nação brasileira”.

Falcão apontou limites no alcance do movimento. “Essa mobilização revela que o bolsonarismo ainda detém cerca de 30% dos brasileiros, mas uma anistia ampla, geral e irrestrita é impossível”. Para ele, a ausência de ministros do STF no desfile oficial de Brasília também foi significativa. 

Enquanto isso, em Brasília, o desfile oficial do 7 de Setembro ocorreu em tom solene, com a presença do presidente Lula, ministros de Estado e autoridades militares. A ausência dos ministros do STF foi notada como gesto de distanciamento institucional.

Ao lado de Lula, chamaram atenção os ministros André Fufuca (Esportes) e Celso Sabino (Turismo), pressionados por seus partidos, PP e União Brasil, a entregarem os cargos que ocupam no governo. O movimento simboliza o afastamento formal do Centrão da administração petista, reforçando a imagem de um país dividido.

“O Brasil está muito dividido entre aqueles que apoiam Lula e aqueles que apoiam Bolsonaro”, sintetizou Falcão.

As imagens do domingo revelam um Brasil em disputa. De um lado, apoiadores de Bolsonaro tentam pressionar o Congresso a aprovar uma anistia e recolocar o ex-presidente no jogo eleitoral. Do outro, o governo federal busca consolidar sua autoridade em meio a um ambiente de instabilidade política.

Knauer resume essa correlação de forças com otimismo. “É um baita recado para o mundo de que o brasileiro está mobilizado e quer que a anistia seja aprovada e que Bolsonaro possa concorrer às eleições”.

A tensão tende a se intensificar nesta terça-feira (09), quando o STF retoma o julgamento que pode resultar em condenações de até 43 anos de prisão para Jair Bolsonaro. Nesse cenário, a leitura das ruas e das instituições indica que a democracia brasileira segue atravessando uma das fases mais turbulentas desde a redemocratização.

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