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sexta-feira, 12 agosto 2022

Antes que o dinheiro os separe

A crise financeira que chegou às famílias está entre as principais causas de problemas de relacionamento e brigas entre os casais. O que fazer para fugir da pressão e proteger o seu casamento?

Um dos principais e mais temidos vilões dos relacionamentos está de volta e ganhou força para destruir casamentos. O dinheiro que pode tornar casais mais felizes, devido ao conforto que proporciona a toda família, é o mesmo que tem feito subir o gráfico de rompimentos no Brasil e no mundo. A ameaça parece ter se consolidado num período de 10 anos, quando o número de divórcios subiu 161,4%, de acordo com o IBGE. O caixa do lar parece fazer mesmo a diferença: uma recente pesquisa revela que 40% dos casais brigam por causa do dinheiro, ou seja, quatro em cada 10 matrimônios não resistem à pressão das contas que não param de chegar e sobrevivem num estado emocional limitador: o “crash”, que consiste num choque, numa colisão que especialistas acreditam ser provocada pela crise financeira que o país atravessa e que entrou dentro das nossas casas.

É o que pensa a coach eterapeuta Hilda Medeiros, que faz treinamentos em todo o Brasil. “Quando um país está em crise financeira, as pessoas são afetadas com perdas reais, perda do emprego, de rendas ou de segurança. O futuro se torna incerto. A incapacidade de manter a qualidade de vida para a família faz com que as pessoas se sintam paralisadas no medo, e ficam sem saber o que fazer, não conseguem perceber saídas, rotas alternativas para lidar com o problema. O indivíduo pode se tornar reativo, fechado, irritado. O estado emocional limitador propicia discussões ou mesmo brigas conjugais”, afirma.

Por ser um assunto tão sério, dinheiro é um dos mais comentados na Bíblia. Encontramos 2.350 versículos que tratam do tema. Das 49 parábolas usadas por Jesus, 22 abordam diretamente o dinheiro e bens; dos 109 versículos do sermão da montanha de Mateus 5 a 7, um total de 49 trata dessa questão.

Especialistas insistem que o casal deve estar em acordo sobre o orçamento familiar (Am 3:3). Defendem que Jesus falou tanto em dinheiro por se tratar de algo que afeta relacionamentos e capaz de determinar o bem-estar ou uma tragédia no lar.

Um texto bíblico que resume quatro princípios cristãos está em João 6: seja grato a Deus no muito ou no pouco (v. 11a); seja generoso, doe e reparta (v 11b); poupe o máximo que conseguir (v.12); e não seja soberbo (v.15).  Ciente da relevância do assunto, a Igreja de Cristo tem preparado treinadores da Universidade da Família (UDF) para orientar os cônjuges antes que o dinheiro os separe. Um dos que ministradores do curso de Finanças Crown e do Veredas Antigas, o casal Arnaldo Machado de Souza e Débora Moura de Souza, membro da Batista em Vitória (ES), aponta o peso da turbulência econômica do país sobre os bolsos. “Esta crise nacional tem mostrado como o povo brasileiro, inclusive os chamados “evangélicos”, não tem o hábito de fazer um planejamento financeiro doméstico.

O cenário econômico tem agravado ainda mais as dificuldades dos casais em administrar os recursos financeiros. Não há acordo na utilização dos poucos recursos decorrentes da crise que o país atravessa. Muitas vezes a frieza e a indiferença também são sintomas de que a desarmonia financeira está atingindo o casal. A igreja deve ensinar os princípios financeiros e aconselhar os casais. Mas em muitas situações vemos as congregações estimulando as dívidas”, assinala Débora.

A preocupação de Hilda e Débora tem respaldo no estudo feito pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). O levantamento concluiu, a partir de entrevistas, que 40% dos casais brigam por causa de dinheiro porque discordam sobre os gastos da casa, não têm reservas para imprevistos e não querem pagar pelos gastos do cônjuge. Outra realidade apontada é o hábito de omitir, para o(a) companheiro(a) as compras feitas. Entre os gastos mais encobertos estão os de roupas, maquiagem, perfumes ou cremes, calçados, cigarros, bebidas e substâncias ilícitas. “Somente o diálogo torna possível conciliar os interesses de cada um, respeitando as individualidades e estabelecendo metas conjuntas”, salienta José Vignoli, educador financeiro do SPC Brasil e do portal Meu Bolso Feliz.

Geralmente a mulher tem um rada mais atento. É quem mais procura recursos e aponta soluções.” Hilda Medeiros, coach e terapeuta

Para o Pr. Paulo Drago, Igreja Batista do Ibes, em Vila Velha (ES), o desemprego é outro grande inimigo. “O c enário econômico produzido pela irresponsabilidade de anos e anos de um governo incompetente e corrupto produziu a maior crise financeira que o Brasil já enfrentou em sua história. Hoje temos mais de 13 milhões de desempregados. Isso afeta diretamente as famílias. Sem recursos financeiros suficientes para pagar as contas e para manter o padrão de consumo a que estavam habituadas, vêm o estresse e os conflitos.”
Drago explica que a melhor estratégia é fazer do dinheiro um servo nosso. “Se ele for servo, será sempre bênção em nossas vidas. Mas se for senhor, será uma tragédia. Como senhor, o dinheiro é cruel e destruidor. E como saber se o dinheiro é senhor ou servo meu? Se consigo fazer um orçamento e viver dentro dele, se consigo economizar e investir parte do que ganho todo mês sistematicamente, se sou dizimista fiel, o dinheiro está debaixo de meu controle. Ele é meu servo, e eu desfruto de liberdade financeira, sou livre. Se não consigo fazer essas coisas simples, ele é que está no controle, ele é o senhor e eu, o escravo.”

Segundo o pastor, pessoas com dívidas se sentem infelizes, inseguranças, irritadas e em desespero. “A autoestima delas é afetada, e as consequências são mau humor e atitude negativa, o que leva a agressões verbais a familiares e amigos. Os problemas financeiros destroem a paz, quebram relacionamentos e rompem nossa comunhão com Deus.”

Fuja do caos

Não importa o tipo de instituição: uma família, uma igreja, ou um governo precisam ter um orçamento e sempre gastar menos do que ganham. O que está acontecendo hoje no Brasil é resultado da medida caótica de se gastar imensamente mais do que se arrecada. Por isso, necessitamos de reformas urgentes, antes que o o país quebre. Em muitas famílias, é exatamente isso o que está acontecendo. Sem controle financeiro, gastam mais do que ganham; a saída de recursos é maior que as entradas. E aí não tem jeito, a tragédia vai chegar. A riqueza não está relacionada a quanto se ganha, mas a quanto se consome.
Para sair do vermelho, é possível que seja preciso mudar para um imóvel com um custo mais baixo, vender o carro, não comer fora durante um tempo, procurar substituir itens necessários por produtos mais baratos, abrir mão de algumas compras, reduzir o padrão de vida e, consequentemente, a demanda financeira da casa.

Contador e preletor na área familiar e de finanças pessoais e corporativas, o pastor da Igreja Batista em Ataíde, Vila Velha (ES), Sandro Aurélio Santos, acredita que a falta de dinheiro e o desemprego podem levar ao divórcio se essas questões não forem tratadas da forma devida. “E mesmo aqueles que não chegam ao extremo do divórcio, podem viver um casamento infeliz, sem perspectiva e esperança, o que contribui para uma série de outras consequências tão danosas quanto o adultério, a violência doméstica e o distanciamento”, alerta o líder ministerial, que também é treinador do curso de Finanças Crown da Universidade da Família.

“Nãi dúvidas de que o principal fator no distanciamento de casais é financeiro” Sandro Aurélio, pastor e contador

Sandro argumenta que não é exagero dizer que os casamentos correm o perigo de também “falirem”. “O crescente aumento dos divórcios nas pesquisas é a prova clara disso. Não há dúvidas de que o principal fator no distanciamento de casais é financeiro. Todavia, é fundamental esclarecer que esse elemento não se origina do dia para a noite. A falta de esclarecimento e preparo sobre como identificar, tratar e sanar o desequilíbrio financeiro é que resulta nas crises conjugais. Existem números mundiais ainda mais alarmantes. Cerca de 55% dos divórcios no planeta têm origem em crises financeiras. Isso é assustador!”, avalia.
E ele tem razão a respeito da taxa nacional alarmante, pois o Brasil não está longe dessa cifra, uma vez que registrou 341,1 mil divórcios em 2014, contra 130,5 mil em 2004, o que representa um salto de 161,4% em 10 anos. Os dados são do IBGE.

O líder ministerial lembra a tímida atuação da Igreja contra essa problemática. “Tenho percebido que igrejas sérias estão com medo de falar sobre finanças. Falam, mas poucas com fidelidade bíblica e equilíbrio.” Por ter se tornado empresário bem antes de ser empossado como pastor, Sandro Aurélio tem seu maior “know-how” nos negócios, especialmente depois de passar a maior crise financeira de sua vida. “Montei meu escritório de contabilidade com 23 anos e sempre trabalhei muito para alcançar meus objetivos. Aos 26, já elencava em meu escritório empresas de médio e grande porte do Espírito Santo e de outros estados. Tudo parecia ir muito bem, até que uma crise atingiu meu negócio. Em cerca de dois meses, perdi 80% de minha carteira de clientes e consequentemente meu conforto.”

Um mês depois, sua esposa, Elisa, perdeu um dos empregos. Para agravar a situação, o carro zero quilômetro do casal, comprado no máximo de prestações possíveis, foi roubado na porta da igreja, no momento do culto. “Como ter paz em meio à crise? Como achar Deus em meio à dor? Foi nesse momento que busquei o socorro do céu e senti o frescor da instrução do Espírito Santo no texto de João 6:1-15. Fiz o curso Crown e com minha esposa e nosso filho, Lucas, poupamos o suficiente para comprar à vista um outro carro zero; e reformamos nossa casa sem usar um centavo de financiamento. Aquela crise mudou a minha vida, salvou o meu casamento e me ensinou a educar os meus filhos. Crises vêm e vão e são oportunidades de mostrar o que está errado e de sermos transformados pela graça de Deus.”

Para quem está interessado em ter ajuda na organização financeira simples, existem muitos aplicativos gratuitos para smartphones e tablets. Normalmente são ferramentas fáceis de usar, assim como a planilha de Excel, outra alternativa viável. Uma opção mais “analógica” é a caderneta, em que se pode se anotar todas as despesas, incluindo os pequenos gastos. Enfim, não importa o método, o que vale é fazer os custos caberem no orçamento.

Armadilhas

Algumas posturas denunciam que o casal caiu na armadilha do dinheiro: o cônjuge não diz quanto ganha e quanto gasta; despesas não são partilhadas no ambiente familiar; não existe o interesse em se ter uma conta conjunta no banco; um ambiente de medo é instaurado toda vez que se fala sobre dinheiro; começam as comparações com as conquistas materiais de casais próximos e as acusações mútuas.

O diálogo cessa com a preocupação financeira, por medo de falência e do temor em ser demitido, o que faz com que as pessoas passem muitas horas no trabalho e sacrifiquem momentos de lazer, saúde e convívio familiar. Nesses casos, elas se tornam reativas, fechadas, e incapazes de pensar com clareza. Em vez de abrirem o jogo, de dialogarem com seu cônjuge, acabam afastando seu parceiro, usando linguagem agressiva e cheia de carga emocional com gestos provocativos, falta de paciência, mau humor e pessimismo. O ciclo se torna vicioso.

Fonte: IBGE, Serasa, CDL, Sandro Aurélio e Paulo Drago

Mas de quem é a responsabilidade de equilibrar as contas? Hilda Medeiros afirma que é de ambos, marido e mulher. No entanto, ela defende que, se um dos cônjuges tiver maior habilidade em lidar com as finanças, pode ficar à frente e apontar os caminhos.   “Geralmente a mulher tem um radar mais atento quando o assunto é relacionamento. É quem mais procura recursos e quem mais aponta soluções. Indico o programa on-line www.academiadorelacionamento.com.br. Nesse sentido percebo a adesão maior das mulheres. No entanto, acredito que o mais importante é o casal caminhar junto.
Quando Jesus é o Senhor, a nossa casa passa pelas tempestades, mas não cai com elas. Temos visto muitas situações em que a história da viúva de II Reis 4 tem se repetido e o milagre do azeite tem surpreendido a muitos.”

Paulo Drago ressalta que esta deve ser uma responsabilidade compartilhada. “O casal precisa sentar, fazer um orçamento e concordar em viver dentro dele. Deve concordar em jamais gastar mais do que ganha.”  Débora e Arnaldo analisam que a administração financeira diária pode ficar com o cônjuge que tiver mais habilidade e tempo para fazer as compras e os pagamentos.

No entanto, ponderam, o acompanhamento da situação necessita ser feito por ambos.
“Se o esposo não tem tempo ou jeito para as questões financeiras, não há problema que a esposa tome as providências dessa área.” Sandro avisa que essa discussão pode não terminar bem. “Tenho visto muitos casais em conflito por essa questão de quem vai administrar o dinheiro. Por exemplo, com o discurso: ‘O dinheiro é meu, mas a dívida é sua!’ Isso acaba com a relação. O ideal é unir a família para planejar as finanças.”

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