O Brasil é apontado como o país com o maior número de casos de ansiedade do mundo. Especialistas avaliam o papel da espiritualidade nesse transtorno
“A ansiedade paralisa, atrapalha muito a minha vida. Já tive dores no peito, falta de ar… Acordava no meio da noite achando que ia morrer, com uma preocupação excessiva sobre coisas que, de fato, não precisava. Hoje só não estou mais vivendo assim porque estou medicada e faço tratamento psicológico”.
O relato é de uma fotógrafa, de 45 anos, diagnosticada com transtorno de ansiedade, um dos problemas de saúde mental que mais acomete pessoas em todo o planeta, e em especial no Brasil. E no meio de tanta gente estão muitos cristãos, tementes a Deus, que também sofrem e necessitam de acompanhamento e tratamento de saúde.
Os dados preocupam: a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou, em junho do ano passado, um relatório que é apontado como a maior revisão sobre a saúde mental desde a virada do século. O levantamento mostra que cerca de 1 bilhão de pessoas viviam com transtorno mental em 2019, assustadoramente 14% deles estavam na faixa etária da adolescência. No Brasil, 19 milhões de pessoas conviviam com o transtorno de ansiedade (em 2019), o maior número registrado no mundo.
E o cenário deve ser ainda pior na atualidade, considerando o fato de que o levantamento foi feito antes da pandemia da Covid-19. Dados da OMS mostram que, no primeiro ano da pandemia, a prevalência global de ansiedade e depressão aumentou em 25%. Especializada em soluções de saúde digital, a empresa Docway aponta que, no Brasil, de 2021 para 2022, houve um aumento de 1.290% nas consultas de psicologia e psiquiatria – de 2.852 atendimentos para 35.898 no ano. Desse total, houve um aumento de 36,5% no número de pacientes diagnosticados com transtornos de ansiedade e de 14% com quadros de depressão.
Quando vira um problema
A coordenadora de Psicologia da Docway, Karen Valéria da Silva, esclarece que sentir ansiedade não é problema, depende do quanto ela afeta o seu dia a dia. Segundo a especialista, a ansiedade é funcional e necessária para preparar o corpo para enfrentar uma determinada situação, para lutar ou fugir. Mas quando ela começa a ser preocupante?
“Existem momentos em que nenhuma situação de perigo está se fazendo presente, a pessoa está tranquila, em um ambiente protegido, seguro, mas está ansiosa, com o batimento cardíaco acelerado, sudorese, pensamento catastrófico, acelerado, está com aquela sensação de perigo. Isso passa a ter um impacto na vida do indivíduo e prejudicar a rotina, a vivência e muitas vezes faz com que ele evite situações, como sair de casa. Nesse caso, quando a ansiedade deixa de ser funcional e passa a limitar a vida, é necessário buscar ajuda”, destacou Karen Valéria.
Pastor presbiteriano, psicoterapeuta e doutor em Ciências da Religião, Zenon Lotufo Júnior acrescenta que o transtorno afeta também as pessoas ao redor de quem sofre a ansiedade e ressalta, inclusive, que esse mal pode paralisar projetos e sonhos de vida.
“Quando a ansiedade ultrapassa certos limites, seja em intensidade ou duração, acarreta prejuízos que podem ser graves à qualidade de vida, à saúde física, mental e espiritual da pessoa, podendo afetar também os que com ela convivem. É, aliás, notório o quanto a ansiedade, a partir de certo grau, afeta negativamente o desempenho de atletas, cantores, vestibulandos, candidatos a vagas de emprego e outros”, afirmou Lotufo, que é filósofo e um dos autores do livro “Influências da Religião sobre a Saúde Mental”.
“As causas geralmente podem estar relacionadas a ameaças reais, seja à integridade física, como acidentes, catástrofes e epidemias, seja à personalidade ou à autoestima, como ofensas, ridicularização em público, fracasso em tarefas ou atividades competitivas. Podemos abordar ainda o ‘medo do medo’”, acrescentou Zenon Lotufo Júnior.
Tecnologia e pandemia

Mas o que tem causado esse “boom” de casos pelo mundo? Análises são rotineiramente divulgadas por especialistas e, nos últimos anos, inseriu-se na lista de possíveis causadores do transtorno os impactos do avanço da tecnologia, inclusive as redes sociais, e a pandemia da Covid-19.
O médico psiquiatra e professor universitário Valdir Campos aborda as consequências do mundo tecnológico na saúde mental das pessoas, sobretudo entre os mais jovens, e vai além: falta propósito de vida.
“Temos hoje uma sociedade com quadro de ansiedade patológica e isso é também reflexo de um mundo cada vez mais tecnológico, rápido, competitivo. Essa competitividade gera um aumento da expectativa nas pessoas, e causa a ansiedade. Vivemos em um mundo pautado por questões materiais, mais do que propósito de vida e até questões espirituais. A falta de busca espiritual, de compromisso de vida, de compromisso com as pessoas, pode gerar esse quadro de ansiedade que temos visto no mundo”, afirma Campos.
A pressão que a sociedade em geral exerce sobre as pessoas, com cobranças, exigência de agilidade e produtividade, colabora e muito para gerar o quadro de ansiedade, de acordo com Karen Valéria da Silva.
“O tanto de pressão que a gente sofre hoje… Estamos fazendo mil coisas ao mesmo tempo. As redes sociais têm um papel muito importante nisso. A gente se cobra para ter uma vida perfeita, ter um momento de lazer, um salário bom, estar formado com tal idade, ser bem-sucedido, ter casa, carro, família constituída… Tudo isso gera cobranças, pressões internas, e contribui bastante para estarmos passando por uma geração que tem uma característica mais ansiosa, que tem também um sentimento de imediatismo. A gente quer as coisas, e ‘pra ontem’. Tudo isso contribui para essa geração estar nesse movimento ansioso e manifestar, inclusive, mais sofrimento e casos de ansiedade”, declarou Karen.
E se o cenário já era preocupante antes de 2020, segundo dados da OMS, após a pandemia da Covid-19 os especialistas da área não fazem boas projeções. O número de pessoas atendidas com quadros de depressão e transtorno de ansiedade no período pandêmico é alvo de avaliações no Brasil e ao redor do mundo.
O período de isolamento social e o medo de ser infectado e morrer desencadearam uma “onda” de quadros de alta ansiedade, além também das consequências socioeconômicas.
“Não significa que causou quadros ansiosos, mas a pandemia contribuiu muito com esse cenário de ansiedade, desencadeando em pessoas que já tinham uma propensão genética, dentre outros fatores. O isolamento, com as inseguranças e incertezas, o aumento do desemprego, a perda de muitas pessoas próximas, como seria o nosso próprio futuro frente a pandemia, a insegurança da nossa própria existência. Não sabíamos como seria o desfecho e o cenário foi bastante catastrófico”, relembrou a especialista.
Ansiedade em números
Relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgado em junho do ano passado mostra que cerca de 1 bilhão de pessoas viviam com transtorno mental em 2019, sendo 14% adolescentes.
No Brasil, 19 milhões de brasileiros conviviam com o transtorno, o maior número de pessoas com a doença em um país no mundo.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram ainda que, no primeiro ano da pandemia de Covid-19, os casos de ansiedade e depressão aumentaram em 25% no planeta.
Estudo realizado pela Docway, empresa especializada em soluções de saúde digital, apontou que, no Brasil, de 2021 para 2022, houve um aumento de 1.290% nas consultas de psicologia e psiquiatria, um salto de 2.852 para 35.898 atendimentos no ano. Deste total, houve um aumento de 36,5% no número de pacientes diagnosticados com transtornos de ansiedade e de 14% com quadros de depressão.
A espiritualidade no debate
A incerteza na vida é, sem dúvida, algo que tira a paz do ser humano. E muitos recorrem à religião e à espiritualidade para tentar encontrar uma solução. A Bíblia mesmo traz diversos relatos de homens de Deus que se viram em situações de ansiedade pelas circunstâncias que estavam vivenciando. No meio da tormenta, se debruçaram em oração, clamando ao Pai por respostas.
O psicólogo e pastor da Comunidade Cristã Águas Vivas, Carlos Marcelo Souza, destaca que o próprio Cristo é um testemunho disso, quando estava prestes a ser traído e preso, vindo em seguida seu julgamento e morte na cruz.
“O filho de Deus é um bom exemplo de alguém que vivenciou a ansiedade, pois diante de uma ameaça grave e verdadeira, assumiu e manejou esse sentimento de modo saudável a partir de seu relacionamento com Deus. Cinco dias antes de ser preso, torturado e morto, Jesus disse publicamente: ‘Agora, está angustiada a minha alma, e que direi eu? Pai, salva-me desta hora? Mas, precisamente com este propósito, vim para esta hora. Pai, glorifica o teu nome’, conforme relatado em João 12:27-28”, disse o pastor.
Carlos Marcelo, que também é palestrante corporativo e autor do livro “Marcas que Transformam”, ressalta ainda a recomendação, que continua atual, dada pelo apóstolo Paulo aos cristãos da cidade de Filipos: “Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus” (Filipenses 4:6 e 7).
No entanto, o pastor traz uma outra reflexão, a respeito de quando questões espirituais são, na verdade, a razão de muitos quadros de ansiedade. “Dúvidas sobre vida após a morte, sobre a condição espiritual das pessoas que amamos e até mesmo incerteza sobre a salvação pessoal podem provocar ansiedade. Por isso, é muito importante que a pessoa esteja segura de sua fé e, como cristã, conheça as Escrituras e permaneça firme nas promessas de Deus”, conclui.
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O doutor Zenon Lotufo Júnior, que em breve vai lançar o livro “A Democracia Começa em Casa”, obra conjunta com a filha Patrícia, faz uma análise sobre essa relação entre religiosidade e ansiedade. “A religião pode ter papel tanto gerador como curador da ansiedade. Uma fé saudável em um Deus bondoso e que nos ama incondicionalmente é um porto seguro contra os vendavais da ansiedade. Por outro lado, uma fé que se apoia em doutrinas, ameaças ou em uma espécie de comércio ‘toma-lá-dá-cá’ com Deus, só pode produzir uma paz enganosa, resultante de verdadeira anestesia das consciências”, declarou.
Mas todos os especialistas são categóricos ao alertar que pessoas que estão com quadro de transtorno de ansiedade precisam de acompanhamento de saúde especializado. A coordenadora de Psicologia da Docway é enfática ao declarar que é importante ter cuidado e discernimento ao colocar religião e ansiedade no mesmo bojo. “A religiosidade, a espiritualidade, tem um papel importante na vida do indivíduo, podendo ser considerada um fator de proteção. Mas há ainda as relações interpessoais, a assistência médica, psicológica, assim como os outros pilares da vida do indivíduo. Não é a religião que vai curar ou prevenir nenhum transtorno mental. O transtorno mental é fisiológico e psicológico e está relacionado a questões científicas”, afirma Karen Valéria da Silva.
O pastor Carlos Marcelo complementa: “A espiritualidade pode ser um fator de proteção e um importante recurso de enfrentamento da ansiedade. A fé pode ajudar muito, pois incentiva o fortalecimento de emoções positivas como gratidão, esperança e amor, é fortalece a rede de apoio. A religião só não faz bem quando negligencia ou substitui os cuidados físicos ou mentais”.
Venda de antidepressivos dispara

Se por um lado cresce o número de pessoas com quadro de ansiedade crônica, consequentemente aumenta também a venda e o uso de antidepressivos. Um levantamento feito pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF) mostra que a venda de antidepressivos e estabilizadores de humor disparou no Brasil a partir da pandemia de Covid-19. De 2019 a 2022, o número de unidades comercializadas desses medicamentos aumentou de 82.667.898 para 112.797.268, ou seja, 36%.
De 2014 a 2021, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária identificou que as farmácias venderam em média 123 mil caixas de calmantes por dia. Nesses oito anos, mais de 5 mil caixas de ansiolíticos foram vendidas por hora!
“Alguns especialistas chamam a atenção para o que chamam de ‘medicalização da sociedade’. É a busca de ‘salvação química’, e que se reflete no crescente consumo de medicamentos – que se usados com critério são muito úteis – como também nas drogas legais e ilegais. A grande questão é que, tanto o uso indiscriminado de medicamentos quanto das substâncias psicoativas, pode resultar no mascaramento de problemas, individuais ou coletivos, que requerem outro tipo de abordagem para sua solução ou atenuação”, alertou o doutor Zenon Lotufo Júnior.
Já Karen Valéria da Silva faz uma outra análise sobre a questão dos fármacos: “A venda de antidepressivos teve um aumento exponencial e isso é mais um alerta sobre como a nossa geração está doente. E faço um alerta sobre o quanto a gente precisa falar sobre saúde mental, porque o fato de a venda de antidepressivos ter aumentado não necessariamente significa que essa venda está sendo realizada de forma correta. Muitas medicações são vendidas de forma ilegal, não prescritas. Outro ponto é a deficiência na saúde, já que nem todas as pessoas têm acesso adequado aos cuidados em saúde mental”.
A matéria acima é um conteúdo da edição Comunhão n°308/2023. Clique aqui para ler a revista completa.


