A grande ironia é que, ao odiarmos algo no próximo, ele continuará sendo uma pessoa para nós, e isso nos “rasgará em pedaços”
Por Clovis Rosa Nery
O ódio é uma emoção negativa ambivalente. Nele, não há excludência. Quem odeia, normalmente, não repudia o outro completamente. Se não fosse assim transcender-se-ia os seus limites, e adentraria ao da rejeição.
A grande ironia é que ao odiarmos algo no próximo ele continuará sendo uma pessoa para nós, e isso nos “rasgará em pedaços”. Porém, se generalizado o sentimento nocivo, ele será visto como uma “coisa”, e ignorado. Mas esse seria outro assunto.
Então, humanamente, o ódio é um “nó afetivo” que ofusca o amor. Seus danos atingem, primeiramente e principalmente o sujeito da ação, porque a severa censura, conscientemente ou não, gera um dantesco conflito emocional.
Se “o ódio é como lama”, ele sempre sujará quem o detém, simbolizando, por analogia, uma forca de Hamã. Todavia seus danos ao outro somente ocorrerão se houver evolução do campo subjetivo para o objetivo, ou seja, se a “lama” for jogada no próximo.
O ponto nevrálgico é: como gerir esse terrível sentimento? Controlar a emoção para evitar uma ação intempestiva é fundamental, porque quando o ódio é maior que o amor, não raras vezes, torna-se gerador de grandes tragédias.
É fato que “Deus odeia o pecado, mas ama o pecador”. Pode haver antropomorfismo nessa afirmação, mas se ela não fosse realidade o Senhor seria indiferente quanto a nós. Seríamos, por assim dizer, vomitados de sua boca.
O ódio de Deus ao pecado produziu uma ação que nos permite um vislumbre da extensão imensurável de Seu amor. Em vez de agir para consumir o “autor” (o pecador), a misericórdia do Altíssimo O impulsionou a investir contra Si mesmo para salvá-lo.
No livro EU e TU, Buber (2006, p. 103) fala que “os sentimentos simplesmente acompanham o fato da relação”. Em sendo assim, a questão é de decisão. Quem quer odiar, odeia. Quem não quer odiar, não odeia. Logo em seguida, o autor afirma:
“Em nosso caminho tudo é decisão: voluntária, pressentida, secreta; esta decisão, no âmago de nosso ser, é a mais originariamente secreta e a que nos determina mais poderosamente” (BUBER, 2006, p. 106).
À luz das leis noéticas (que regem a razão) é difícil alguém amar, ou odiar, o desconhecido. Em outras palavras, os sentimentos nascem das relações, em três dimensões: com nós mesmos, com o próximo e com Deus. Ruídos interferem.
É claro que esse assunto é controverso, e cercado por montanhas de ideias. Porém, se atentarmos para o pressuposto de que a antítese é importante na consolidação e potencialização da respectiva tese não há novidade aqui.
Se os mandamentos se resumem em amar a Deus sobre todas as coisas e amar o próximo como a nós mesmos, obviamente a vida é gregária. O ambiente onde ocorrem nossos contatos é o campo de treinamento, e de desenvolvimento pessoal.
Consequentemente, é ali que somos colocados à prova, e uma vez provados e aprovados, temos a oportunidade de sermos sal e luz, legando algum sentido à vida alheia, e clarificando aos cegos de entendimento, o local dos trilhos da escuridão.
Todos aqueles que atingem, conscientemente, esse estágio sabem que nas suas vidas não há espaço para germinarem emoções negativas como o ódio, porque eles já estão ocupados pelo amor. Sua missão é refletir Deus ao mundo.
Por isso, e para isso, eles vivem felizes, pois reconhecem que, em Cristo, por amor, foram redimidos, sendo esta a sua razão de viver. Em outras palavras, uma vez ligados na terra, via conversão, foram selados para envio ao Céu, via redenção.
Clovis Rosa Nery é Psicólogo, pesquisador e escritor.

