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terça-feira, 18 janeiro 2022

África: pastores cobram para “curar” crianças-bruxas

O governo local criou uma lei condenando a bruxificação de crianças, mas não teve efeito prático devido a forte influência dos lideres religiosos na Nigéria

Por Marlon Max

A “bruxificação” de crianças, como ficou conhecido o fenômeno, acontece em diversas vilas do país. Todos os casos têm algo em comum: uma mega-igreja e um líder religioso que, supostamente, descobre uma ‘criança-bruxa’ na comunidade. A partir daí, crianças de todas idades passam a ser torturadas, e com sorte, conseguem fugir até que encontrem refúgio seguro em alguma instituição humanitária.

Um missionário brasileiro viveu de perto o dia a dia de dezenas de crianças bruxificadas. Gito Wendel, além de missionário, é teólogo e assistente social. No país africano, atuou na ONG inglesa Way To The Nations, que se dedica a resgatar crianças em risco, após serem estigmatizadas. Há relatos de membros da própria família que acreditaram no que foi dito pelo líder religioso e prenderam, torturaram e mataram seus próprios entes.

Na comunidade, uma vez que uma criança foi apontada como uma bruxa, todos os males do local — como doenças, fome, miséria — passam a ser culpa daquela criança. De acordo com Wendel, a orientação dos pastores locais para “tirar a maldição” do lugarejo é submeter a criança a um processo de “cura”, que custa bastante dinheiro para a realidade das famílias. Não sendo possível exorcizar a criança, ela é abandonada, perseguida e muitas vezes torturada e morta.

Após anos de trabalho local diretamente com as crianças bruxificadas, tendo sobrevivido um caso severo de malária, o missionário Gito Wendel voltou para o Brasil e contou em um livro, que ele afirma ser ficção, histórias semelhantes a este fenômeno desconhecido para a maioria das pessoas no mundo. Em “O Filho de Abasi”, Wendel narra com detalhes a história de uma criança que sofre diversos abusos, após ser estigmatizada, mas consegue fugir de sua vila.

Teologia da Prosperidade e cura de crianças-bruxas

A permanência crescente das desigualdades sociais, da pobreza e da enfermidade colaboram para o avanço da chamada Teologia da Prosperidade, que tem sua origem nos Estados Unidos e se espalhou pelo mundo em poucas décadas. Em países com baixo IDH, alguns lideres exploram a fragilidade do povo.

Surge a idealização de que os males, a pobreza e doenças se tratam de uma maldição diabólica ou da falta de fé do sujeito que está permeado por condições precárias de vida. É nessa lacuna que lideres religiosos dessa vertente na Nigéria entram.

Dinheiro por cura

Quando uma criança é apontada como amaldiçoada, ou denunciada como bruxa, a família pode tentar recorrer ao processo de “cura”. O trabalho é feito pelos próprios líderes religiosos, por um preço extremamente elevado para as condições econômicas do lugar – chegando a equivaler a mais de um ano de renda de algumas famílias. Segundo o jornal britânico The Telegraph, o preço gira em torno de 170 libras, enquanto milhões de habitantes são forçados a viver com menos de uma libra por dia.

Durante as cerimônias, as crianças são sacudidas de forma violenta e recebem poções que acreditam auxiliar o processo – nos olhos, ouvidos, ou mesmo via oral. Caso o ritual não obtenha sucesso, a criança deve ser mandada embora ou morta. Muitas delas são apreendidas em condições sub-humanas, nas próprias igrejas, atadas por correntes e privadas de comida até que confessem serem bruxas.

Tal barbárie acontece com o conhecimento do governo. Porém, Gito Wendel destaca a influência dos pastores da teologia da prosperidade na política do país e o poderio econômico.

Em 2008, o governo nigeriano, por pressão internacional, aprovou a legislação que considerava crime rotular as crianças como bruxas. Mas devido à imposição cultural-religiosa, a ignorância populacional e a consideração ínfima do ordenamento jurídico local, essa lei foi totalmente desconsiderada e os casos continuaram, pela omissão estatal e forte influência das mega-igrejas no país.

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