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domingo, 24 outubro 2021

Adultério: pecado que assusta as igrejas e destrói famílias

A traição é o que mais tem levado casamentos cristãos ao colapso, mas a infidelidade conjugal é ainda um assunto pouco discutido nas igrejas

Por Elisa Rangel

Hoje, no Brasil há triste e chocante realidade vivida na sociedade e que tem também – muito mais do que se comenta e se vê – atingido as igrejas e os cristãos. O adultério, a infidelidade é um mal visto também entre o povo evangélico. É possível numerar vários casais que viveram ou estão vivendo esse pecado em seus próprios lares.

Há mais de 10 anos, uma pesquisa foi realizada em 10 países por uma escritora americana e mostrou que 12% da população do Brasil era infiel ao parceiro(a). A pesquisadora Carmita Abdo, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, traçou o perfil da sexualidade dos brasileiros e revelou que nada menos que 50% dos homens e 25% das mulheres já traíram pelo menos uma vez numa relação estável, de confiança.

Essa realidade de traição, infidelidade e até promiscuidade, assusta e atormenta inclusive casais cristãos, que cada vez mais têm se deparado com essas situações em suas vidas.

O divórcio

Para o reverendo Ashbell Simonton Rédua, pastor da Igreja Presbiteriana do Sinai em Niterói, Rio de Janeiro, e membro efetivo da Junta de Educação Teológica da Igreja Presbiteriana do Brasil, é a infidelidade o principal causador de divórcio no ambiente religioso. “O que poucos percebem é que a infidelidade existe em vários campos, mas no religioso, a infidelidade sexual é a quase única causa das separações”, disse.

Mas o que leva uma pessoa casada a flertar e envolver-se com uma outra que não seja o seu cônjuge? As diferenças de pensamento, as brigas na educação dos filhos, a insatisfação sexual, a falta de tempo para a família, as influências das tendências do mundo e, sobretudo, o esfriamento da dependência de Deus são algumas das causas apontadas. Vale destacar que homens e mulheres têm “fraquezas” diferentes: um é mais físico, o outro emocional. É nesse ponto que muitos casais não se entendem.

No livro “A Batalha de Toda Mulher”, a autora Shannon Ethridge aponta alguns dos aspectos que diferem entre os sexos. Os homens desejam intimidade física, dão amor para conseguir sexo, são estimulados pelo que vêem, o corpo pode desligar-se da mente, do coração e da alma, eles têm ciclos recorrentes de necessidades físicas e são vulneráveis à infidelidade na ausência de toque físico.

Já as mulheres desejam intimidade emocional, fazem sexo para obter amor, são estimuladas pelo que ouvem, têm o corpo, mente, coração e alma completamente interligados, têm ciclos recorrentes de necessidades emocionais e são vulneráveis à infidelidade na ausência de ligação emocional. A pastora Norma Lucia Santos Raymundo, que é médica e especializada em sexologia clínica, relata que no casamento nós precisamos sempre perguntar: “Estou fazendo meu marido/esposa feliz?”.

“Quando se fala sobre traição, o pastor passa creme em cima do câncer, quando é preciso cirurgia para extirpar a doença” – Pr. Jaime Kemp, diretor da Sociedade Religiosa Lar Cristão

“Este  é o cuidado necessário. É preciso notar que há diferenças reais, visíveis entre homens e mulheres. A mulher, por exemplo, quer ser elogiada, quer um beijo, um abraço, uma lembrança, atenção. Para ela a relação sexual é conseqüência  de toda vivência que envolve afetividade. Já  o homem aprecia o envolvimento físico sexual e a afetividade vem como conseqüência. Quando os cônjuges não suprem suas necessidades específicas ficam vulneráveis a buscar este suprimento em outras pessoas, ou até mesmo em outros projetos de vida. Os casais precisam conversar sobre suas necessidades físicas e emocionais, assim como fazer investimentos para estarem mais juntos, criando afinidade e cumplicidade, afastando assim qualquer brecha para a quebra da aliança, por exemplo, a infidelidade”, relata.

Quando o limite é ultrapassado e uma traição é concretizada, os primeiros que sofrem são os membros da família. A relação entre marido e esposa piora, mesmo o pecado ainda não sendo revelado, e o trato com os filhos também é alterado. A mentira fica latente e cada vez mais frequente. Os sentimentos de culpa e de desconfiança também são notados.

“Quando um casamento acaba por causa de um adultério, os filhos saem marcados, o cônjuge traído também. Se for cristão, o Evangelho é envergonhado e as perdas são irreparáveis. Nenhuma outra dor é maior do que a dor da traição. É uma flecha que atravessa a alma”, declara o pastor Josué Gonçalves, que é terapeuta familiar e pastor sênior do Ministério Família Debaixo da Graça, da Assembleia de Deus em Bragança Paulista, São Paulo.

E-infidelidade, a internet a favor da traição

Nas revistas, nos jornais diários, nos programas de televisão e nas novelas a gama de material sensual, de conteúdo promíscuo, de culto ao corpo, de supervalorização do sexo abrem brechas enormes para os primeiros passos do pecado da infidelidade. No entanto, atualmente o grande vilão é a internet, que divulga imagens de sexo e proporciona conversas desinibidas em salas de bate-papo. Nesse ponto, aquelas frustrações dentro de casa, ao deitar na cama com o marido/esposa, podem ser deixadas de lado por uma ilusão de que tudo pode ser diferente com o amigo ou amiga virtual.

Numa das palestras proferidas pelo reverendo Nivaldo Schneider, da Congregação Evangélica Luterana Paz, no Ibes, em Vila Velha, ele fala justamente sobre a “e-infidelidade” (a infidelidade que usa a internet como canal) e destaca uma frase que hoje já é muito ouvida: “Trair e teclar é só começar”. Para o pastor, a internet criou uma nova forma de infidelidade. “Começa com a troca de mensagens eletrônicas, o envolvimento vai crescendo e estabelece-se um vínculo íntimo. Tem todos os ingredientes de um caso extraconjugal. Em 60% dos casos a infidelidade sexual virtual termina em sexo real”, alerta.

Para o pastor Ashbell Simonton, “quem busca erotismo na internet maltrata o casamento, pois compara injustamente o cônjuge com aquele apresentado no material pornográfico, produzindo o desinteresse sexual dentro do casamento, levando conseqüentemente à traição. Tenho ouvido muitas histórias reais de pessoas fiéis que destruíram o casamento por causa de uma sala de bate-papo, orkut e sites de relacionamentos”, relata.

Já o pastor Sandro Santoro, da Primeira Igreja Batista de Vila Batista, em Vila Velha, afirma que muitas vezes a simples pergunta “Como foi o seu dia?” pode fazer surgir um interesse na pessoa que inicia uma conversa em um chat quando em casa esse cônjuge não recebe a atenção que queria. “O conteúdo online traz à realidade sonhos virtuais e mentiras. As pessoas se refugiam na internet ou em filmes para se realizarem sexualmente, e isso pode virar uma compulsão”, disse Santoro, que é mestrando em Terapia de Família.

Como a igreja aborda o assunto

Falar sobre traição nas igrejas é ainda um tabu e, enquanto casais destróem seus casamentos, líderes muitas vezes preferem fingir que nada está acontecendo. Muitas das vezes, agem dessa forma pela total falta de instrução. Faltam pastores e líderes de casais com maturidade espiritual e até conjugal para falar sobre o assunto. Essa é a análise do pastor americano Jaime Kemp, diretor da Sociedade Religiosa Lar Cristão, e um dos pioneiros no trabalho com casais e famílias no Brasil.

“O pastor tem que ser um detetive nesses problemas de casais. Ele precisa identificar a dificuldade, mas o grande mal é que não sabe fazer isso porque no seminário aprendeu apenas a realizar casamento, mensagem, funeral. Quando se fala sobre traição, o pastor passa creme em cima do câncer, quando é preciso cirurgia para extirpar a doença. A falta de instrução impede a solução dos problemas, aliada ao fato de 50% dos pastores terem sérios problemas conjugais ou com os filhos. Infelizmente, essa é uma realidade, e estamos vivendo uma epidemia de divórcios nos púlpitos. Se os pastores estão com problemas graves, não são exemplo. E como a igreja vai caminhar?”, revela e questiona Jaime Kemp.

Ele contou que recebe dezenas de casais por semana em seu escritório, em São Paulo, e nas crises conjugais a infidelidade é um dos maiores problemas. Mas, buscando ajuda em um pastor, em um conselheiro familiar ou algum casal com casamento firme é possível conciliar.

“Já recebi a esposa de um pastor que chegou desesperada contando que durante uma madrugada acordou e não viu o marido na cama. Ao procurá-lo pela casa, viu que ele estava na internet assistindo a vídeos pornográficos. Isso é realidade e, mesmo que não tenha ocorrido contato físico, já é traição. A Bíblia diz ‘que qualquer que olhar com mente impura para uma mulher, já em seu coração cometeu adultério com ela’ (Mateus 5:28). A infidelidade é um problema terrível”, disse Kemp.

A igreja, em casos de traição, precisa ser um ponto de apoio e não de inquisição. Assim como entre os cônjuges, a igreja deve tratar o assunto com carinho, com amor, com diálogo, com conciliação, com perdão. A mulher e o homem cristão precisam ser ajudados e não rotulados, incluídos e não excluídos, amados e não discriminados.

Segundo o reverendo Ashbell Simonton, atualmente em apenas 27% das igrejas evangélicas há ministério específico para divorciados, incluindo solteiros e viúvos. “O assunto infidelidade é ainda um tabu para as igrejas. Isto porque apenas falar não resolve o problema. São necessárias ações mais profundas, que restaurem a dignidade humana e a capacidade de servir ao Senhor”, destacou.

“Tenho ouvido muitas histórias reais de pessoas fiéis que destruíram o casamento por causa de uma sala de bate-papo, orkut e sites de relacionamentos” – Rev. Ashbell Simonton Rédua, pastor da Igreja Presbiteriana

Existe saída: o perdão, o amor e o diálogo

“Deus pode restaurar um casamento abalado pelo adultério? Com certeza! Se pedirmos perdão a Ele, nossas vidas podem ser restauradas e o casamento reestruturado.

O primeiro passo é dedicar-se aos ensinamentos do Pai e em seguida investir no relacionamento, mantendo um bom diálogo, respeitando o cônjuge, se doando, se dedicando e se sacrificando por ele, amando-o como Deus em Cristo nos amou”. As instruções são do pastor Nilvaldo Schneider.

“Quando um cônjuge trai o outro, está vivendo fora do padrão estabelecido por Deus, está errando o alvo. Precisa ser chamado ao arrependimento e à mudança de atitude. A pessoa traída precisa de muita sabedoria e equilíbrio, pois cabe a ela decidir se luta pelo casamento, perdoando o cônjuge, ou se a quebra de confiança inviabiliza a relação. É importante que se diga que todo divórcio é pecado, mas que o pecado do divórcio tem perdão. O sacrifício de Jesus na cruz e sua ressurreição conquistaram perdão para os pecados de toda a humanidade”, complementou Schneider.

É pensando no perdão e na restauração do casamento que trabalha o Ministério Casados Para Sempre, que no Espírito Santo tem como coordenadores regionais o casal Ubiracy e Luzia Arnulfo da Fonseca, da Igreja Evangélica Batista de Vitória (IEBV). Cursos até mesmo para noivos são oferecidos para mostrar antes da troca de alianças a realidade vivida em um casamento e como enfrentar as dificuldades.

“Hoje a liberalidade da pornografia lida, vista e falada; a promiscuidade nos relacionamentos; e a televisão, a internet, as revistas, oferecendo condições, circunstâncias e oportunidades para a libertinagem, contribuem para a degradação do bem mais precioso para Deus, que é a família. Tem-se visto muitos casais, mesmo estando no meio cristão, praticando a traição. Dessa forma, o inimigo de Deus tem atacado muito ferozmente os casamentos e, por consequência, há muitas separações. Entretanto, nosso Senhor não desiste do homem e tem dado ferramentas para utilização das igrejas. Satanás sabe que famílias fortes significam igrejas fortes e por isso tenta destruí-las”, afirma Ubiracy.

O curso Casados Para Sempre é ministrado para casais que queiram batalhar pelo seu casamento, antes mesmo de se depararem com um obstáculo. São no máximo sete casais que se reúnem em uma casa por 14 semanas, trabalhando para terem seus laços fortalecidos, reconciliados, suas dores saradas.

“O maior problema dos casamentos que terminam em divórcio é que ouviram a opinião de todo mundo, mas não levaram em conta o que Deus fala sobre o assunto. O plano original de Deus para o casamento não incluía a separação ou divórcio. Deus quer as famílias estruturadas”, destacou Luzia.

A pastora Norma, que é da Igreja Apostólica Brasileira, em Jardim Camburi, Vitória, aponta alguns passos para a restauração dos laços conjugais após um caso de infidelidade. É preciso primeiro perdoar, e o cônjuge que caiu em pecado deve pedir perdão a Deus, perdão ao companheiro(a) e a ele mesmo. Em seguida precisam decidir se há disposição para permanecer juntos e quais os investimentos necessários para a restauração deste casamento. Vale ressaltar que Jesus Cristo através do poder do Espírito de Deus tem poder para restaurar vidas e casamentos.

Além dessas análises e decisões, é preciso ter mudança de comportamento. O pecado confessado é perdoado, mas haverá as consequências deste erro, e o casal vai necessitar de acompanhamento, que pode ser realizado por seus líderes, ou até mesmo por profissionais idôneos.

”O diálogo é imprescindível, por isso o casal não pode excluir Jesus do centro deste relacionamento. A rotina também não pode tomar conta. Casal precisa sair sozinho para passear, conversar. É claro que mesmo havendo uma reconciliação, houve pecado, e Deus diz que há consequências. Cada caso deve ser analisado separadamente, mas a pessoa que traiu vai ser movida pelo Espírito Santo para expor a situação. Se não fizer, vai viver sob tensão, sob a sombra de um fantasma, sem paz”, afirma a sexóloga.

Ninguém deve se iludir achando que Deus vai deixar de lado esse pecado. Todo pecado tem consequência, assim como está escrito em Gálatas 5:19-21: “Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus.”

O pastor Jaime Kemp destaca a importância do acompanhamento de líderes de casais no momento da reconciliação e diz que reconquistar a confiança da pessoa traída é o grande trabalho a ser feito. “Isso pode demorar de um a dois anos, por isso deve haver na igreja um ministério bem estruturado para casais, que se baseie profundamente no perdão e no relacionamento com Deus”, disse.

Mas o que acontece com uma pessoa que não consegue perdoar o cônjuge que a traiu? O perdão não é obrigatório, e muitos maridos e esposas não vão conseguir conviver com o outro sabendo de uma traição no passado. Nesses casos, é preciso avaliar a questão da separação, do divórcio. Segundo o pastor Sandro Santoro, a pessoa traída, se não exercer o perdão, pode sofrer consequências emocionais, além de espirituais.

“Ela vai ter complexo de inferioridade, porque, muitas vezes, acaba colocando a culpa em si própria, e será atacada por uma confusão de sentimentos, não mais conseguindo discernir o que é amor, carinho. Vai achar que todo mundo agora vai traí-la e por isso vai ter dificuldades em confiar novamente em alguém. O perdão é voluntário e a Bíblia diz que aquilo que você perdoar será perdoado”, disse o pastor.

Como é maravilhoso ver problemas que até então pareciam sem solução serem transformados e resolvidos, e isso só é possível com a graça do Pai. Deus exige fidelidade no casamento e a colocou na lista dos frutos do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, mansidão, domínio próprio e fidelidade. Há deveres conjugais a serem cumpridos, conforme o apóstolo Paulo descreve em Efésios capítulo 5, mas há também a promessa de que “o amor cobrirá a multidão de pecados” (I Pedro 4:8). Deus quer famílias firmes, casais que amem e saibam perdoar.

O diálogo, a constante doação, o respeito, o investimento no relacionamento, a confiança no Pai e a busca desenfreada de forças para vencer as tentações, orando e estudando a Palavra de Deus, são ações preventivas que os casais devem adotar para evitar o pecado da infidelidade. É preciso lutar pelo casamento e terapeutas de casais já afirmam: “Casamento não é coisa para preguiçosos”. É um doar-se diário, buscando sempre a sua alegria na alegria do outro e exercendo o amor a todo tempo, como orienta a Bíblia.

Esta matéria é uma republicação exibida na Revista Comunhão – Agosto/2007, produzido pela jornalista Elisa Rangel e atualizada em 2021 (Priscilla Cerqueira). Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi originalmente escrita.

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