Tema foi debatido em um podcast promovido pela editora Edições Vida Nova, com base na obra de Erkki Koskenniemi, “Toda vida pertence a Deus”
Por Cristiano Stefenoni
Em tempos de debate sobre a descriminalização do aborto, o assunto tem tomado as discussões nas redes sociais. O destaque desta semana fica por conta do podcast da editora Edições Vida Nova, que traz como tema, exatamente um de seus títulos, o livro “Toda vida pertence a Deus”, de Erkki Koskenniemi e que trata a questão do aborto como algo milenar. Para comentar a obra, o bate-papo com Saor Lucena contou com o teólogo Lourenço Stelio Rega, Ph.D. em Ciências da Religião.
De acordo com Rega, o livro, que fala da ética judaica e cristã sobre o aborto e o infanticídio no mundo antigo, trata o aborto como um problema desde os tempos bíblicos, apesar de ser utilizado outros termos na época como interrupção da gravidez, rejeição ou abandono do bebê, algo como um “aborto seletivo”.
“Na antiguidade clássica, gregos e romanos expunham e/ou matavam bebês. Se os pais achavam que aquele recém-nascido não merecia viver ou não era aceito por algum motivo, a criança era exposta ao mundo, abandonada para morrer. E os motivos para isso eram vários, desde a questão das guerras que geravam muitas dificuldades econômicas, até as crendices na época, com presságios sobre a criança”, afirma.
O teólogo lembra que Deus já tinha essa preocupação desde os tempos dos patriarcas, quando orientou o povo a “não matar”, o que incluía aí, os bebês e as crianças. “Na percepção judaica, no Antigo Testamento, você vê um dos princípios essenciais dos 10 Mandamentos, que diz respeito a não matar, o homicídio. Isso já traz essa cosmovisão judaica da valorização da vida”, ressalta.
Outro ponto crucial do livro e que está em amplo debate no cenário atual sobre a descriminalização do aborto é exatamente sobre a origem da vida, por conta do debate sobre a interrupção da gravidez na 12ª semana de gestação.
Na opinião do teólogo, horas após a fecundação, começa o processo de divisão celular, que já tem a sua identidade genética que permanecerá até a morte do indivíduo, ou seja, elas trazem o código genético que marcaria o início da identidade do ser.
“Esse processo marca o início da identidade do ser, inicia aí a vida. Qualquer interrupção desse processo, horas depois da fecundação, você já está interrompendo uma vida, praticando um ‘assassinato’ daquela identidade. O Biodireito defende a ideia de que esse sujeito não adquiriu toda a sua personalidade jurídica. Mas um recém-nascido também não o adquiriu. Quer dizer, então, que ela pode ser morta? Esse argumento não tem como ser aceito no sentido da lógica”, destaca Rega.

