A Traição

Faz quebrar a confiança, leva à destruição de projetos e despedaça a família. Mas o adultério não dá a palavra final na vida do cristão. Há esperança e restauração em Cristo Jesus…

“Prometo amá-lo(a) e respeitá-lo(a), na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza. Prometo ser fiel até que a morte nos separe.” É dessa forma que muitos casamentos começam, com votos que prometem o céu na vida matrimonial, que fazem com que o início da jornada conjugal pareça um sonho, um desfrute, uma aliança que nunca será abalada.

No entanto, ao longo da caminhada, com o passar dos anos, muitos casais se deparam com uma terrível invasora, com potencial para ruir tudo que foi construído e almejado: a traição. E tal prática tem feito morada em muitos lares cristãos, visitado altares de igrejas e arrebanhado muitas ovelhas.

Uma pesquisa realizada no ano passado pela Universidade de São Paulo (USP) mostrou que a infidelidade dos brasileiros já atinge cerca de 70%. Entre os homens, o índice dos que admitem ter cometido esse ato desleal pelo menos uma vez chega a 70,6%; entre as mulheres, é de 56,4%. Somente 36,3% dos entrevistados garantiram ser fiéis.

Dentre as formas de traição, o sexo pela internet corresponde a 53,1%. O estudo não cita a religião dos consultados, mas tem sido cada vez mais comum o atendimento de cristãos em gabinetes pastorais e em salas de aconselhamento e terapia com questões referentes ao problema.

“Não tenho estatística, mas houve um aumento significativo de atendimentos envolvendo  adultério entre casais cristãos”, afirmou Neiva Ferreira, conselheira de casais da Igreja Batista, em Cariacica. Ela e o marido dão o curso “Casados para Sempre” na região e atestam que, embora o levantamento acadêmico aponte os homens como os mais infiéis, há um equilíbrio. “As mulheres procuram mais aconselhamento, mas a traição envolve equilibradamente as duas partes”, frisa.

As causas

Para o pastor batista Wilmar Smarssaro, a superficialidade dos relacionamentos e a falta de entendimento sobre o que é o amor sacrificial são a causa do crescimento dos casos de traição, e não só entre pares cristãos, mas também na sociedade como um todo – um exemplo são as músicas com essa temática que fazem sucesso na cultura popular. “Isso tem a ver com o contexto em que estamos vivendo, da superficialidade dos relacionamentos e da falta de conhecimento sobre a relação conjugal. Muitos já começam o casamento com a ideia de que ‘se der certo, continuo’.

Não existe um entendimento sobre o amor sacrificial. Vivemos numa sociedade narcisista, que só olha para si, que quer ser feliz a qualquer custo e despreza o sofrimento, que faz parte da vida e é até pedagógico. Então, quando vive uma crise no casamento, o cônjuge quer separar, pois tem o entendimento errado de que não é vontade de Deus  passar por essa turbulência. E é nesse contexto que o adultério surge como uma fuga e como um motivo de rompimento, pois, se a pessoa já aceita a ideia de separação, começa então a flertar com outras”, afirmou o pastor, que é também teólogo, psicanalista e trabalha há 10 anos orientando maridos e mulheres.

Para ele, o adultério não é a causa, e sim a consequência, o agravamento de uma crise que muitas vezes começa com coisas pequenas, como uma discussão mal resolvida, com a falta de diálogo, com uma palavra dita num tom mais áspero e com outros mínimos desentendimentos do dia a dia. “Às vezes o marido trata a esposa de forma rude, e aquilo gera uma mágoa, que vai crescendo e não é tratada. A ponto de chegar o dia em que os dois mal se falam”, contou Neiva.

Para ela, a falta de preparo de muitas igrejas em abordar a pauta  e a ausência de um grupo específico para trabalhar com casais em conflito também conduzem a situação muitas vezes a um triste desfecho, como o que leva ao divórcio. “Há muitos casos encobertos, poucos procuram ajuda. É fundamental que a igreja trate desse tema”, advertiu.

“Infelizmente, muitas lideranças não têm essa visão de cuidar da família como a base da igreja. Falta uma consciência desse comando para preparar para o casamento, proporcionando acompanhamento individual, terapia de casais, cursos, retiros. Falta orientação. Mas também não se pode colocar toda a culpa na igreja, porque estamos na era do conhecimento. Ele está disponível, e as pessoas não procuram. Há um problema estrutural na família, além da natureza pecaminosa que nos inclina à rebelião de tudo o que Deus estabeleceu.”

Fora dos planos de Deus

A traição e a consequência desse ato, o divórcio, nunca fizeram parte dos planos de Deus para os Seus filhos. Quando Ele diz em Gênesis que não era bom que o homem ficasse só (Gn 2:18), traz-lhe uma companheira. Deus também revela qual Seu plano para Adão, representando ali um projeto para todas as famílias:

“Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne” (Gn 2:24).

Jesus acentuou a revelação do primeiro livro das Escrituras ao ser indagado pelos fariseus: “Vocês não leram que, no princípio, o Criador os fez homem e mulher e disse: ‘Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne? Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne.

Portanto, o que Deus uniu, ninguém separe’” (Mt 19:4-6). E mesmo quando foi testado a respeito da liberação de Moisés para dar carta de divórcio, o Messias foi enfático: “Moisés permitiu que vocês se divorciassem de suas mulheres por causa da dureza de coração de vocês.  Mas não foi assim desde o princípio. Eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, e se casar com outra mulher, estará cometendo adultério”.

“O plano original de Deus é que o casal não se separe, mas Ele não diz isso de forma impositiva para impedir que as pessoas sejam livres. Homem e mulher só podem entender o que é unidade se estiverem ligados um ao outro. Quando essa unidade é rompida, por meio de adultério, quebra-se a aliança. Jesus não ensinou em nenhum momento sobre o divórcio, que é pecado. Mas Ele mostra que a imoralidade sexual e a dureza de coração, em não perdoar ou de continuar na imoralidade, quebram essa aliança de unidade do casal”, disse o Pr. Wilmar.

“No caso do adultério, se não houver possibilidade de perdão e reconciliação, é uma saída viável, mas desde que todos os esforços tenham se esgotado para solucionar o problema”, comentou o professor e doutor em Teologia Francisco de Assis dos Santos.

O adultério causa dor, constrangimento e sentimento de rejeição na pessoa inocente. Golpeia a confiança e fere todos os membros da família, além de ser um pecado contra Deus. Mas há quem opte pelo perdão. E embora a maioria das igrejas tenha consenso sobre a legitimidade da separação em casos de infidelidade, nem sempre esse é o desfecho.

“Sempre existirá solução para qualquer tipo de relacionamento que tenha passado por esse tipo específico de problema, desde que o casal esteja disposto a recomeçar”, observou Francisco.

70 x 7

E houve disposição e esperança para salvar a união de uma vendedora, de 48 anos. No último dia 9 de novembro, ela, que pediu para não ser identificada, completou 20 anos de casamento. Hoje vive bem com o marido, mas nem sempre foi assim. Quando tinha a metade desse tempo de vínculo, ela descobriu que seu esposo a traía com uma amiga da família, que frequentava sua casa e até a residência de sua mãe. Foi um choque. “Nunca pensei que fosse passar por isso. Nós éramos da igreja, e a moça também. Nunca desconfiei que eles pudessem ter um caso”, disse.

A verdade só veio à tona porque a mulher que praticava o adultério decidiu abrir o jogo. “Ela estava passando mal, e eu ia sempre à casa dela para lhe dar cuidados, falar da Palavra de Deus. Tinha crise de consciência por estar me traindo. Então chamou o pastor e confessou. O pastor ligou-me e chamou a mim e a meu marido para conversar. Foi aí que meu esposo me contou toda a história. Eu já havia tido um sonho com isso, mas não queria acreditar. Quando ele confessou, fiquei sem ação, muito triste, parecia que uma carreta Scania havia me atropelado. Não acreditava que estava passando por aquilo.”

Na noite em que soube da verdade, a vendedora  nem conseguiu dormir.  Mas mesmo chateada e chorando muito, naquela mesma noite,  decidiu perdoar o companheiro.

“No outro dia, na reunião com o pastor, ele me disse que eu estava respaldada biblicamente se quisesse optar pelo divórcio, mas eu já tinha tomado a decisão na noite anterior: iria perdoá-lo, dar um voto de confiança. E Deus me ajudou, não fiquei remoendo, nem jogando na cara dele, nem desconfiando. Perdoei.”

A vendedora também procurou a moça para conversar e também lhe deu o perdão. As duas se afastaram, mas dois anos depois retomaram a amizade, depois da vendedora tê-la procurado, com uma carta, dizendo que estava pronta para restabelecer esse laço fraterno. “Nós nos abraçamos e choramos muito.”

Embora tenha prometido fidelidade, o marido voltou a trair. O segundo caso foi descoberto no final de 2015 e, como no ensinamento em que Jesus ensina a perdoar o próximo não só sete vezes, mas 70 vezes sete (Mt 18:22), assim a esposa o fez. Concedeu novamente a “anistia” ao parceiro. “Dessa vez eu estava disposta a abrir mão do casamento, a pôr um ponto final. Mas Deus falou comigo num culto, disse que trocaria o coração dele. Ele me pediu perdão, e eu resolvi perdoar.

As pessoas me perguntam como eu consigo perdoar e continuar com ele, mas o perdão vem da parte de Deus. Se Ele nos perdoa todas as vezes que nos arrependemos sinceramente, ainda que pecamos no mesmo erro, por que eu não posso também perdoar? Quando você tem intimidade com o Senhor, Ele vai trabalhando e tirando a mágoa. Hoje, meu casamento está muito bom. Não brigamos mais, estamos em harmonia. Graças a Deus.”

O professor Francisco enfatiza a função do Corpo de Cristo em ajudar casais que passam pela mesma adversidade: “A igreja muito pode contribuir no tratamento e na prevenção de situações semelhantes. É só observar o que amplamente está narrado nos Evangelhos.

O amor demonstrado por Jesus por pessoas que vivenciavam situações de extrema decepção ou até mesmo de rejeição não deixa qualquer dúvida de que algo pode ser feito para que se vença a turbulência. Por isso, terapias alternativas e aconselhamento pastoral, guardadas as devidas competências desses dois métodos, certamente farão bem”, citou.

Para o  Pr. Wilmar, é fundamental que os casais não tentem resolver sozinhos as crises no casamento, mas que busquem ajuda específica. “Há possibilidade de restabelecer a confiança, o perdão genuíno, mas é preciso ajuda de fora. Muitos olham a crise como uma ruptura que leva à separação. Mas precisamos enxergar esse conflito como uma oportunidade de reajustar, de ressignificar a relação.”

A promessa divina para o casamento continua de pé. E Aquele que a fez, que estabeleceu a aliança, é fiel para cumpri-la até o fim. Ainda que tempestades como o adultério se aproximem e destelhem a casa, Deus é a rocha que faz com que ela permaneça erguida, com seus alicerces ainda bem firmes para que possa ser reconstruída e restaurada e abrigar o maior bem do Criador para nós nesta terra: a família!

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita