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sábado, 21 maio 2022

A tragédia no Capitólio e a lógica do livramento

Capitólio
Foto: montagem/reprodução

“Deus a livrou, esmagando outro alguém. Mas, esse outro alguém, é tão amado quanto ela. Porque deveria ser menos protegido?”

Por Marlon Max

Dez pessoas morreram no acidente em Capitólio após uma estrutura rochosa desabar sobre embarcações com turistas na região dos cânions, no Estado de Minas Gerais, na tarde do último sábado (8). Outras duas pessoas seguem desaparecidas.

As pessoas encontradas mortas estavam em uma embarcação chamada “Jesus”. Outros três barcos foram atingidos, mas as vítimas foram resgatadas e levadas a hospitais.

Tão logo o acidente aconteceu, usuários de diversas redes sociais repercutiram o assunto. Algumas pessoas relataram que “tiveram livramento de Deus”, pois estariam no local do acidente e de última hora mudaram de rota. Nesta perspectiva, muitos se perguntam: por que o Deus que livrou um permitiu que outros morressem? 

O teólogo, assistente social e missionário Gito Wendel propôs uma reflexão sobre a “lógica do livramento”. Em suas considerações, Wendel aponta como a crença de alguns cristãos se baseiam em um sistema de retribuição.

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Peritos identificaram nove das dez vítimas de acidente em Capitólio. Foto: Divulgação CBMMG

“Não consigo agradecer a Deus pelo livramento. Desculpem os teólogos, mas não me sinto privilegiado. Não percebo Deus criando situações para livrar alguns e ‘ferrar’ outros. A senhorinha sentada no primeiro banco, com idade para ser minha mãe, foi arremessada pelo vidro”, lamenta. 

A visão teológica de que Deus teria poupado alguns em detrimento de outros é parte da crença de muitos ensinos doutrinários. Mas, quando testemunhamos tragédias como a que aconteceu no Capitólio, em Minas Gerais, o teólogo apresenta uma cosmovisão completamente destoante, não para causar divergência, mas para refletir sobre o caráter de Deus.  

Em nada isso altera, para mim, a soberania de Deus que tudo pode. Podendo, inclusive, nada poder. Essa pouca interferência se dá para que tenhamos liberdade e vivamos em um mundo livre dos arranjos divinos para a eterna solução de problemas humanos, nos fazendo reféns e nunca maduros”, explica Wendel. 

Ele continua com perguntas, no mínimo intrigantes: “A gente ora para discernir como ser também resposta da própria oração. Ora, não para amolecer o coração de Deus, é preciso amolecer o nosso e saber confiar. Vi um comentário: ‘Deus fez a gente mudar a ida pro Capitólio para semana que vem, senão seria a gente debaixo dessa pedra’. Segundo a lógica dessa pessoa, Deus a livrou, esmagando outro alguém. Mas, esse outro alguém, é tão amado quanto ela. Porque deveria ser menos protegido?”, questiona. 

A história do mundo é marcada por eventos tristes onde a maldade humana sobressai a qualquer valor moral, ético ou espiritual. A própria morte de Cristo na cruz mostra isso: enquanto Ele padecia na cruz, outros zombavam, exultavam por não estarem ali e pensavam ser melhores do que o próprio Cristo, afinal, ele morreu do modo mais humilhantes, para os parâmetros da época. 

“Afinal de contas, neste mundo tereis aflições: vírus, motoristas sonolentos, mosquitos e fios desencapados. Eu tenho fé, mas também creio em coincidências e sei de leis da física. Sei que há gente no lugar e na hora errada. Sei que pedras rolam, coágulos enroscam e aviões caem. Por isso diante da dor das tragédias humanas, como essa no Capitólio, eu só posso chorar, acudir, oferecer meus braços e abraços em amor“, esclarece.

Para Gito Wendel, “ter empatia com as vítimas é jamais agradecer por não estar lá, mas se compadecer com quem estava. Esse é o maturar da Fé”, conclui. Deste modo, o livramento de Deus não é uma seleção programada e agendada por ele, mas seu amor e misericórdia pode e deve ser expressado através da comunidade que professa a fé Cristã. 

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