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sábado, 20 abril 2024

A politização do filme Som da Liberdade

A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) durante a estreia do filme Som da Liberdade: “Deus ouviu o clamor das crianças”. Foto: Montagem/ Reprodução internet

Sucesso de bilheteria em todo o mundo, temática do longa tem servido para discussões entre alas da esquerda e da direita.

Por Cristiano Stefenoni

Era para ser apenas mais um filme, como tantos outros que estreiam semanalmente nos cinemas brasileiros. Mas o Som da Liberdade (Sound of Freedom) virou uma ferramenta para discursos ideológicos e políticos. Ingressos foram distribuídos para igrejas, militares e ONGs. Parlamentares da extrema-direita foram às salas de exibição e postaram, em suas redes sociais, mensagens em defesa dos valores da família. Mas, até que ponto essa politização é benéfica?

O filme é um sucesso inegável. A produção já atingiu a marca de 218 milhões de dólares em bilheteria em todo o mundo, algo superior a 1 bilhão de reais. Só no Brasil, o longa caminha para atingir a marca de dois milhões de espectadores, segundo a distribuidora Paris Filmes.

O roteiro é baseado em fatos e conta a história do ex-agente especial da Segurança Nacional dos Estados Unidos, Tim Ballard, no combate ao tráfico humano e à exploração sexual infantil. Tema que, segundo a visão de alguns políticos, é “escondido” por parte da grande mídia, o que teria motivado as campanhas em prol do longa.

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Para completar, o lançamento da obra aconteceu em meio ao turbilhão que envolveu a discussão sobre a descriminalização do aborto no país, cujo julgamento está suspenso no Supremo Tribunal Federal (STF), no aguardo de que se aprove ou não a interrupção da gravidez até a 12ª semana de gestação, independentemente do motivo.

Na estreia, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) postou em suas redes sociais uma foto, dentro do cinema, e comentou: “Não é coincidência que este filme está em cartaz neste momento. Deus ouviu o clamor das crianças”, disse.

A Associação Nacional dos Servidores da Polícia Federal (Ansef) teria distribuído mais de 5 mil ingressos para seus associados e familiares. Uma nota no próprio site da instituição fornece a justificativa:

“É com grande satisfação que a Paris Filmes, em colaboração com a Angel Studios e com a Ansef Nacional, oferece uma oportunidade única aos valorosos servidores da Polícia Federal e seus familiares. Considerando a relevância e impacto global do filme “Som da Liberdade” (Sound of Freedom), que aborda o trágico e urgente tema do tráfico internacional de crianças, achamos pertinente engajar aqueles que, em sua linha de trabalho, enfrentam desafios similares na luta contra crimes transnacionais”.

Redes sociais e polarização seriam estopim da politização

Para o teólogo e empresário Fábio Hertel, todo esse frenesi em torno do filme se dá, basicamente, por causa de dois fatores: o crescimento das mídias sociais e as disputas ideológicas inflamadas atualmente presentes no país.

“Temos que tomar cuidado para não servirmos de massa de manobra. Parece que o Som da Liberdade tomou uma proporção irreal. Coisas que acontecem nessa era digital, midiática e polarizada. Daí, uma faísca se torna uma coisa sem precedentes. Algo aconteceu que ativou os movimentos ideológicos, ditos de esquerda e de direita”, explica. Para ele, outro fator preponderante que teria exaltado os ânimos no Brasil seria a prática, quase naturalizada, de se “copiar” aquilo que gera debate nos Estados Unidos.

“Tudo começou nos Estados Unidos, e nós, como bons brasileiros, absorvemos de forma muito passiva o que acontece por lá. Após Donald Trump elogiar o filme, a esquerda ficou em polvorosa, achando que o filme estaria levantando bandeiras de direita. Na verdade, o longa não defende nenhum lado, apenas denuncia uma prática e tenta colocar em pauta uma questão humanitária, que é o tráfico de crianças, que existe de fato”, afirma Hertel.

A politização do filme Som da Liberdade
O ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assiste ‘Sound of Freedom’ ao lado do protagonista do filme, o ator Jim Caviezel. Foto: Reprodução internet/redes sociais

Para o teólogo, nesse fogo cruzado, quem mais se beneficia é a própria produtora do filme, que está faturando milhões de dólares. “No fundo, quem tem se beneficiado com essa polêmica é o próprio filme, que está arrebentando nas bilheterias. Por que não pensar que essa foi uma estratégia de marketing, inclusive, para polarizar o negócio e o tema do filme vir à tona para vender mais ingressos?”, especula. Hertel faz questão de ressaltar que é preciso ficar atento para não se gastar energia com discussões desnecessárias.

“Devemos sim nos posicionar, levantar as bandeiras que acreditamos ser da pauta conservadora, que preservam os valores da família, que denunciam práticas criminosas. Mas ficar questionando se há algum posicionamento político no filme é perda de tempo”, acredita.

Cuidados para não mudar o foco

Já o pastor e professor acadêmico Geraldo Moyses Gazolli Junior, mestre em Ciências da Religião e doutorando em Teologia, alerta para o risco de se polemizar demais o filme e se esquecer da sua mensagem de alerta.

“O filme tem um tema polêmico e necessário, que busca mover à conscientização. O problema é quando partimos em defesa do longa-metragem e não de suas ideias. Daí corremos o perigo de voltarmos ao período feudal, quando se realizavam concílios eclesiásticos para definir quantos anjos cabiam na cabeça de um alfinete. Não podemos entrar nesse mesmo nível de superficialidade teológica”, afirma Gazolli Junior.

Sobre a politização, o pastor diz que tomar partido sobre pontos de vista diferentes faz parte da natureza humana, mas é preciso ter maturidade e consciência sobre o que se está fazendo, e não apenas seguir uma tendência ou um comportamento de grupo.

“Politizar algo em nossos tempos exige que você decida estar de um lado. Ambas as agendas têm interesses e pautas diferentes. O problema é que para toda ação existe uma reação, logo, o conflito se torna cada vez mais escandaloso, e o filme, que possui excelente mensagem reflexiva, fica em segundo plano”, finaliza.

 Assista ao trailer do filme Som da Liberdade

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