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terça-feira, 28 maio 2024

A música que nos conecta com Deus

Foto: Reprodução
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Entre a tradição e a inovação, o louvor continua abrindo os canais para o homem falar de coração para o coração de Deus

Por Patricia Esteves Grosman

A música sempre ocupou um papel central nas celebrações religiosas, transcendendo barreiras culturais e temporais. No cerne dessa prática espiritual, encontramos uma riqueza de perspectivas e abordagens que refletem a diversidade da fé humana. Mas qual o papel do louvor para o culto religioso? Existem limites? Diante de tantas coisas que se transformaram, como saber se o louvor é agradável a Deus?

Uma maneira importante de observar a música dentro das igrejas é entendê-la como uma forma de comunicação entre os homens e Deus. Desde os textos bíblicos mais antigos, muitas são as menções em que o louvor e a adoração são citados como formas de expressão de engrandecimento e agradecimento genuíno ao Criador.

O músico Jorge Camargo, que além de cantor é também compositor, produtor musical, multi-instrumentista, arranjador e escritor brasileiro, que tem uma história extensa de mais de 40 anos de ministério musical e compôs muitos cânticos entoados em igrejas pelo Brasil e congregações no exterior, opina que a música é também uma resposta humana ao mundo e à vida. Para ele, a música tem o poder de transformar até mesmo o triste em belo, oferecendo uma visão única sobre a conexão entre arte e Deus. “Ela deve ser uma resposta natural do nosso coração, aquilo que nós contemplamos no mundo, na vida e em Deus”, resume.

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O pastor Tiago Rosas, evangelista da Igreja Assembleia de Deus em Campina Grande/PB, teólogo, articulista, autor e co-autor de vários livros, além de editor da página EBD Inteligente, entende que a música atende em síntese a dois propósitos no culto: “louvar a Deus, exaltando Sua pessoa e Seus feitos na história, mas também promovendo a edificação da igreja, encorajando o povo a confiar no Senhor e a esperar por Seu auxílio”.

Ele prossegue explicando que “a música na igreja é bidirecional: verticalmente, direcionada a Deus, como forma de adoração; horizontalmente, direcionada à Igreja, como forma de edificação”, especifica o pastor Tiago, ressaltando que, além do estudo dos Salmos, uma apreciação do texto de Colossenses 3.16 resume essa ideia, quando Paulo fala para que os cristãos ensinem e admoestem uns aos outros com hinos e lhes diz para “cantar de coração ao Senhor”.

Tradição versus inovação: um equilíbrio delicado

Dentro das igrejas, entretanto, há a necessidade do equilíbrio entre tradição e inovação. Enquanto Jorge Camargo enfatizou a necessidade de se evitar a idolatria do tradicional, Tiago Rosas observou a importância de selecionar cuidadosamente músicas que se alinhem ao caráter do culto cristão para o louvor. O evangelista reforçou que os pastores devem desempenhar um papel ativo na preparação do louvor, oferecendo orientação bíblica e teológica aos músicos e compositores da igreja.

“A música, quando bem preparada e oferecida não só com técnica, mas com fervor espiritual (o que não é sinônimo de gritaria, ressalto), é capaz de semear a Palavra de Deus nos corações, e assim já ir ‘amolecendo’ o terreno em cada alma para recepcionar a Palavra de Deus pregada. Observe que eu falei de semear a Palavra através da música, antes mesmo da pregação propriamente. Isso porque, com base no mesmo texto de Colossenses 3.16, creio que a Palavra de Deus deve dominar nossas canções na igreja. O salmista declarou: ‘A minha língua cantará a tua palavra…’ (Sl 119.172)”, instruiu Tiago.

Para ele, a música é uma ferramenta pedagógica para declaração e memorização das Verdades da Palavra: “É mais fácil decorarmos um louvor bíblico do que um capítulo bíblico integralmente”. Além disso, continua, “a música ajuda até mesmo a dar mais ‘ritmo’, mais dinamismo e brilho ao culto. Não esqueçamos que numa determinada circunstância, o profeta Eliseu pediu ‘fundo musical’ – o auxílio de um harpista para tocar enquanto ele profetizava (2Re 3.15-19)”, lembrou o pastor Tiago.

A importância da diversidade musical

Na dinâmica das comunidades cristãs, é perceptível que a música desempenha um papel central, funcionando como uma poderosa ferramenta de adoração, expressão espiritual e edificação. Jorge Camargo, inclusive, enfatiza a necessidade de se respeitar a variedade de gostos e preferências musicais dentro das congregações. “Comunidades de fé são diversas, o que se reflete numa variedade de gostos musicais. O repertório de músicas em celebrações deve ser democrático, respeitando diferentes estilos e preferências. A diversidade musical brasileira deve ser valorizada e incorporada às celebrações, para refletir a riqueza cultural do país”, concluiu o músico.

Ao abraçar uma ampla gama de estilos musicais e instrumentos, as igrejas não apenas espelham a diversidade de seus membros, mas também enriquecem a experiência espiritual, promovendo um ambiente inclusivo onde todos podem encontrar significado, conexão e inspiração na música que ecoa através de seus corredores e corações. “Eu sou um entusiasta do uso dos mais variados ritmos nas celebrações, que reflitam justamente a diversidade de nossa nação e de nossa herança cultural”, defende também o pastor Tiago.

“Como estou inserido num contexto pentecostal, usamos uma variedade de ritmos para adorar ao Senhor com a música no culto. Alguém já classificou a música pentecostal como ‘energizada’. São hinos geralmente mais ritmados e que cantam temas comuns da nossa fé, que se resumem nessa mensagem quadrangular: Jesus salva, cura, batiza no Espírito Santo e breve voltará. Mas nossa igreja também tem uma tradição de uso do mais popular hinário em Língua Portuguesa, a Harpa Cristã, com hinos menos ritmados, bem cadenciados e com letras rigorosamente bíblicas”, complementou Rosas, explicando que sua congregação inicia os momentos de celebração com hinos fáceis de aprender e cantar, hinos “que são por natureza congregacionais e carregados de bela poesia”.

Música como expressão e liberdade

“A música deve ser uma resposta natural do coração, refletindo a vida, a fé e os valores”, é dessa maneira que o músico Jorge Camargo defende que a música congregacional e de louvor deva ser. Para ele, até mesmo música mão cristã, mas que contenha mensagens alinhadas aos valores do Reino de Deus pode ser aceitável, desde que apropriada para contextos e momentos específicos. “Acredito que devamos nos perguntar se existe algum inconveniente ou algo inapropriado. Não vejo problema nisso, até porque tem muita música religiosa ruim sendo utilizada em nossas celebrações”, defende o compositor.

Já o pastor Tiago Rosas tem um posicionamento bastante divergente sobre o assunto. Para ele, existe problema quando líderes religiosos trazem músicas de sucesso do mundo secular e dão a elas uma “roupagem” gospel para, então, dar-lhes espaço no culto. “Por exemplo, músicas românticas de cantores não convertidos, que são agora reinterpretadas como se fossem palavras de Cristo para a sua Noiva, ou vice-versa.” Rosas relata que soube até que a música ‘Anunciação’, de um famoso compositor popular brasileiro, foi cantada em um culto como se fosse a Igreja declarando sua esperança na vinda de Cristo. “Falta de atenção?”, ele indaga, “ou seria aquela ‘escorregada’ de quem ainda anda com um pé no Egito? Cada um se examine”, realçou Tiago.

“Não temos 66 livros da Bíblia para nos inspirar na produção de hinos que exaltem a Cristo? O Espírito Santo cessou sua inspiração musical na igreja? Creio que não. Uma igreja cheia do Espírito, nos termos de Paulo, é uma igreja que oferece ao Senhor ‘salmos, hinos e cânticos espirituais’ (Ef 5.18,19). Atentemos para esse último predicado: ‘espirituais’”, reforça o pastor.

Desafios e transições na arte e na música

No cenário contemporâneo da arte e da música existem desafios e transições significativas que, de alguma maneira, interferem no cotidiano das igrejas. E embora frequentemente permeie tudo isso, a revolução tecnológica – uma força transformadora e ao mesmo tempo desafiadora -, ainda não foi entendida completamente. Seus múltiplos aspectos incluem o acesso facilitado a músicas e partituras, oferecendo benefícios, mas também podendo ameaçar a sensibilidade artística e a criatividade, tornando indispensável equilibrar esses avanços com a expressão genuína.

“O novo está sempre chegando. O que penso é que deve haver espaço para a diversidade, tanto para o novo quanto para o tradicional, e ambos devem ser cultivados de maneira saudável, sem transformar o tradicional em um ídolo, como tantas vezes acontece”, falou Jorge Camargo.

A introdução de novos estilos musicais e instrumentos, embora cause polêmicas, representa uma necessária evolução na adoração, enquanto é essencial manter o equilíbrio e a reverência no ambiente de louvor a Deus. “A arte em geral está passando por um momento de transição devido à revolução tecnológica global. Embora saibamos que essa revolução começou, é difícil prever para aonde nos levará. É algo grandioso e ao mesmo tempo veloz, desafiando até mesmo os estudiosos e teóricos dessas revoluções. A música, como parte integrante da arte, também está imersa nesse processo de mudança constante”, concluiu o cantor Jorge Camargo.

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