A mulher foi formada não para completar o homem macho simplesmente, mas para trazer o que faltava para a humanidade ser humana, composta por macho e fêmea
Por Lourenço Stelio Rega
Um dos pontos essenciais para a compreensão da vida é estudá-la, especialmente, a partir da narrativa da criação, em que temos preciosos “construtos” (ideias fundantes) para compreendermos diversos assuntos que temos na Bíblia e na vida. Assim, vamos tratar sobre o conceito fundante da mulher na criação.
Em primeiro lugar, é necessário levar em conta a forma da construção literária da narrativa da criação, que segue, em geral, um princípio da composição hebraica de uma narrativa. Na criação, temos em Gn. 1.1 A narrativa geral – Deus criou o universo. Depois temos o destaque sobre como foi a criação da Terra e seus componentes, inclusive o ser humano (Gn. 1.2-2.1). Em seguida, o detalhamento da criação do homem e da mulher (Gn. 2.3-25) e seus primeiros momentos na vida. Veja que a narrativa começa com uma menção geral, depois vai “afunilando” o tratamento do tema até chegar ao ponto culminante da criação – o ser humano com quem Deus passaria a se relacionar.
É notório levarmos em conta a primeira menção da criação do ser humano que ocorre em Gn. 1.27: “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus, o criou; homem e mulher os criaram”. Temos aqui três frases literariamente construídas de modo a repetir a mesma ideia, considerando três fatos – Deus, como agente criador; o ser humano, como ser criado; e a qualificação ou atributo da criação aplicado ao ser criado – imagem de Deus. A primeira frase se dedica a identificar o criador, mas também menciona o que é criado e em que condições.
Na segunda frase, a ênfase está na condição ou qualificação da criação do ser humano (a palavra hebraica é “adam”) – ter sido feito à imagem de Deus. E, na terceira frase, temos o ser humano qualificado em macho (no hebraico, zacar) e fêmea (hebraico, n@quebah). A primeira lição que aprendemos aqui, em outras palavras, é que tanto o homem quanto a mulher foram criados à imagem de Deus, portanto, como seres iguais. Poderíamos também entender de forma geral o texto como Deus criou a humanidade (adama: macho e fêmea) à sua semelhança. Temos aqui a heterossexualidade.
A palavra hebraica “adam” significa não necessariamente homem (macho), mas ser humano, raça humana. Nessa parte do Gênesis, temos o uso dessa palavra em alguns textos ligados à ideia de homem (macho). Alguns comentadores tentam explicar que aqui temos diversos textos que foram colecionados, prefiro tratar aqui de outro modo, entendendo o texto de forma plana, isto é, uma narrativa uniforme. Noto também que quando a palavra “adam” está sozinha, poderá até significar homem-macho, mas quando está com a ideia de homem (macho) e mulher, tem geralmente o significado de natureza humana, ser humano.
Com isso em mente, podemos avançar um pouco mais e entender que, dentro do programa de ação para suas vidas, Deus deu tanto ao homem macho quanto à mulher a tarefa de gerir a obra da criação – claro que dentro de seus limites humanos (Gn. 1.28). O verbo dominar aqui (radar) significa governar. Como aqui está conjugado no imperativo, podemos entender que é tarefa que faz parte determinante da ação humana. Estando conjugado, no qual pode dar a ideia de raspar, retirar, indicando que tanto homem quanto mulher devem atuar na natureza de modo a retirar dela seus recursos para a sobrevivência. Aliás, o texto até menciona a natureza como sua fonte de alimentação (no começo era vegetariana).
Mas também acredito nela descobrir suas fontes para gerir a vida. Penso que aqui a ciência tenha o seu papel, quando descobrimos elementos da natureza para fabricar remédios, construir equipamentos (ferro, silício etc.).
Aprendemos, então, mais um fato – o imperativo da gestão dos fatos e fenômenos da natureza é um mandado também para homem e mulher e não apenas para o homem macho.
No terceiro momento da narrativa da criação, temos a descrição de como Deus operacionalizou o surgimento da mulher. Deus pega uma costela (tsela) do homem (aqui “adam”) da qual “constrói” a mulher, que hoje poderíamos chamar de clonagem humana. Vemos aqui a palavra “adam” sendo utilizada como se referindo ao macho, como anteriormente explicamos.
Essa parte é introduzida por Gn. 2.18 que diz “… não é bom que o homem (adam, no hebraico) viva só; far-lhe-ei uma auxiliadora (ezer) que lhe seja idônea (kenegdo)”, ideia repetida no versículo 20. O texto original hebraico é revelador, pois a palavra hebraica que traduzimos por “auxiliadora” (que, no português, dá a ideia de hierarquia) é “ezer”, que significa ajuda, socorro e também é utilizada para descrever Deus como nosso socorro. Veja, por exemplo, nos Salmos 20.2; 121.1,2; 124.8. De modo que “ezer” não tem conotação hierárquica, mas, em socorro, trazer algo que falta. Então, esse texto não está colocando a mulher numa posição hierárquica inferior ao homem antes da queda, mas no papel de alguém que foi um socorro ao homem (adam) para que ele não ficasse sozinho, para trazer o que faltava.
Ainda mais, a palavra hebraica “kenegdo” (neged), traduzida por “idônea” (que lhe fosse idônea), significa estar diante de, dando a ideia de que a mulher foi colocada diante do homem (adam), não abaixo nem ao lado do macho.
O que podemos aprender com tudo isso é que a mulher foi formada não para completar o homem macho simplesmente, mas para trazer o que faltava para a humanidade ser humana – composta por macho e fêmea. Veja o paralelo sobre a imagem de Deus no homem (adam) – macho e fêmea (Gn. 1.27).
Além disso, kenegdo (neged) dá a ideia de que a mulher e o homem estariam diante um do outro e não um sobre o outro e, sendo uma só carne (Gn. 2.24), viveriam colegiadamente, isso é, tomariam decisões sobre a vida em conjunto, num ambiente de diálogo face a face. O senso da hierarquia e subjugação viria depois com a queda (Gn. 3.16), de modo que podemos concluir que a liderança hierárquica não estava presente na criação, mas depois da rebeldia do ser humano contra Deus. Antes da queda, os dois – macho e fêmea – andariam juntos (uma só carne), face a face, e dominariam juntos a natureza. Depois da queda, o macho é colocado sobre a mulher para lhe comandar, como consequência da queda.
Resumindo, na narrativa da criação, temos a humanidade como composta de macho e fêmea, portanto, heterossexual. Tanto o homem quanto a mulher possuíam a imagem de Deus, foram criados para viverem e decidirem colegiadamente, para gerenciarem juntos a natureza e os fenômenos da natureza. Com isso, inicia-se um processo de ruptura com o plano original de Deus e o domínio do homem sobre a mulher se instala. Cabe-nos discutir depois disso se com o Evangelho houve ou não a restauração também dessa relação.
Lourenço Stelio Rega é teólogo, escritor e especialista em Bioética e Ética.

