A imaturidade do compromisso

As consequências do descompromisso de um cristão ao seu local de adoração têm levado a igreja a uma das maiores crises existenciais desde sua criação

Por José Ernesto Conti

Desde que Cristo criou a igreja, ela, ao longo dos séculos, sempre passou por diversas crises e ameaças que quase a destruíram, mas ela tem sobrevivido de forma vigorosa a todas essas investidas do inimigo. Com isso, dois fatos têm se tornado ameaçador: a) o Diabo, tem aumentado exponencialmente as ameaças contra a igreja; b) a Igreja em lugar de ficar mais resistente, tem se enfraquecido. Por isso tem sentido quando dizemos que as ameaças à igreja do séc. 21, tem abalado os alicerces e enfraquecido a capacidade de reação contra o mundo.

Talvez, influenciados pelo movimento “gospel”, a igreja tem experimentado uma onda que tem feito o povo evangélico a correr de porta em porta, de ministério em ministério, de comunidade em comunidade, de experimento em experimento, em uma busca sôfrega e incansável por algo novo, comunicante e diferente, que se tornou a nova identidade da igreja evangélica. Quando perguntamos a um determinado cristão: qual igreja que você pertence? A resposta preferida de 9 em cada 10: Sou assembleiano, mas vou na Batista, na Maranata, na Deus é Amor…

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E essa onda, do mesmo jeito que leva a “galera” para um lado, passado um tempo, leva o mesmo pessoal para o outro lado. Hoje pode estar na “Lagoinha”, mas amanhã pode estar na “Bola de Neve”, que pode levar para FHOP, ou para uma nova “Church”, ou para “Dunamis Movement” ou para “Casa Worship”, “Zion” … isso sem falar nas levas neopentecostais que correm atrás dos “Deives, Antônios ou Claudios”, todos se alimentando com migalhas que caem da mesa.

A pergunta que nos angustia: Esse é o caminho da igreja evangélica no séc. 21? Temos que nos acostumar com essa nova onda até que ela passe ou venha outra para ocupar seu lugar? Creio que não! Percebo que esse descompromisso que afeta a igreja de nossos dias é mais uma poderosa arma do inferno para destruir a igreja.

As escrituras mostram que desde a formação do povo de Israel, ainda o deserto, Deus faz questão que o seu povo, construa um lugar específico para encontrá-lo, para vivenciar as experiências no que se refere a comunhão com seu Criador. Deus é minucioso com todos os detalhes do que Ele chama de Tabernáculo. A palavra hebraica que é traduzida para Tabernáculo é a palavra “Mishkan” (מִשְׁכָּן), que possui o radical Shakán, que significa “habitar, morar”, em outras palavras, o lugar onde Deus habita. A mesma raiz temos a palavra Shekiná (שְׁכִינָה), que designa a presença manifesta de Deus habitando com Seu povo, assim, o Mishkan não era apenas uma tenda, mas o símbolo visível da presença de Deus no meio de Israel, foi por isso que Deus ordena a Moisés “e me farão um santuário, para que eu habite no meio deles” (Ex 25:8).

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O sonho de construir um templo magnifico sempre habitou no meio do povo. Quando Salomão constrói o templo, faz questão de ressaltar a presença de Deus naquele lugar. “E sucedeu que, saindo os sacerdotes do santuário, a nuvem encheu a casa do Senhor; de maneira que os sacerdotes não podiam permanecer ali para ministrar, por causa da nuvem, porque a glória do Senhor enchera a casa do Senhor” (1 Re 8: 10-11). Essa nuvem que simbolizava a Shekiná, a presença de Deus, é a mesma que antes habitava o Mishkan (Tabernáculo).

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É importante ressaltar que quando aquela mulher pergunta a Jesus sobre ONDE devemos adorar, se em Gerisim ou Sião, ela expõe uma questão real e importante, pois Deus sempre estabeleceu um LOCAL onde receberia seu povo. E o mais importante é a resposta de Jesus, quando acrescenta a necessidade de que aqueles que adoram a Deus, o façam verdadeiramente. É aqui que entra o entendimento que persiste até nossos dias.

Não deveríamos frequentar uma determinada igreja por razões meramente estéticas ou externas. O fato de estarmos em uma igreja, é porque Deus nos colocou ali. A semelhança da nossa salvação que é fruto de uma predestinação, antes dos tempos eternos, o local onde fomos chamados para nos encontramos com Cristo, tem um sentido e um significado fundamental em nossa fé. Ali é o nosso Gerisim ou o nosso Sião. É ali que devemos adorar de verdade, com toda a dedicação e com a certeza de que é ali que Deus nos quer, onde está nossa missão maior.

É por isso que nosso inimigo, tem plantado no seio da igreja, que não precisamos fidelizar uma igreja ou ter uma igreja para “chamar de minha”, que isso é uma espécie de “xenofobia cristã”. E faz isso, usando uma realidade (de que Deus está em todo lugar), mas que não representa toda a verdade (que não devemos adorá-lo em qualquer lugar). Deus está em todos os lugares, mas a verdade é que Ele estabeleceu um local onde quer ser adorado pelos seus adoradores, se não for assim, para que serve as igrejas? Poderíamos “adorá-lo” na praia, no churrasco, ou mesmo no botequim. Mas, definitivamente não é isso que Deus quer. Saber qual a igreja a que pertenço é fundamental para saber se de fato ali está o Deus das Escrituras. Mas se vamos esporadicamente ou quando tem alguma programação especial, ou quando der vontade, como saberemos se de fato essa igreja é verdadeira? Infelizmente, há muitos lobos no meio das ovelhas. Se temos relacionamentos superficiais, sem aprofundamento, definitivamente não conhecemos nada além de um “olá, tudo bem? – tudo bem!”.

As consequências da infidelidade de um cristão ao seu local de adoração têm levado a igreja a uma das maiores crises existenciais desde sua criação, destruindo de forma sorrateira a fé, o amor e a esperança de que temos uma intimidade com o Deus criador e mantenedor. Percebemos que boa parte dos cristãos modernos tem muito mais intimidade com os lobos do que com o Pastor das ovelhas. É essa infidelidade a sua igreja, que tem levado a uma superficialidade destruidora de cristãos que não passam da periferia de uma vida autêntica com Deus. E isso reflete quando percebemos a quantidade de cristãos imaturos, incapazes de discernir entre verdade e mentira, entre o bom e o mal, ou o certo e o errado, sendo explorados na sua fé como incautos existenciais, tudo porque decidiu abandonar a igreja que Deus lhe deu quando lhe apresentou o plano da sua salvação.

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Não saber discernir (na linguagem de Paulo as igrejas da Galácia) tem levado a igreja a pregar uma “outra” (heteros) doutrina ou a um heteros evangelho, completamente dissociado da Verdade e com isso multidões estão caminhando por caminhos que levarão a muitos outros lugares, mas nunca a presença de Deus. Me alegra quando vejo Paulo falando para a igreja de Filipos que “…considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor… para o conhecer…” (Fl 3: 8-10), porém pulando de igreja em igreja, nunca chegaremos a sublimidade do conhecimento de Cristo. Valorize sua igreja, não importa se ela não tenha parede preta, uma equipe profissional do louvor, ar-condicionado, gente pulando pela janela, um pastorzão que faz do sermão um show, mas foi ali que Deus te colocou para ser uma bênção!

José Ernesto Conti é pastor da Igreja Congregação Presbiteriana Água Viva e engenheiro mecânico ([email protected])

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