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quinta-feira, 15 DE janeiro DE 2026

“A” estratégia de Jesus

 

“A” estratégia de Jesus

Discipulado é mais do que uma ordem, é “A” estratégia que Jesus estabeleceu para que vidas possam ser transformadas e serem transformadoras

Por Lourenço Stelio Rega

Ao longo do tempo fomos desenvolvendo inúmeras estratégias, programas e atividades para que a igreja fosse cumprindo o seu papel nas mais variadas frentes de atuação: cultos nos lares, Escola Bíblica Dominical, cultos ao ar livre, cruzadas evangelísticas. Algumas dessas estratégias possuem elevado desempenho e resultados, algumas foram sendo ajustadas e algumas, infelizmente, acabaram ficando em plano menor, como a Escola Bíblica Dominical (EBD) e outras já nem estão mais na lista de atividades normais.

Me lembro de um colega pastor que me demonstrou que sua estratégia era manter o povo ocupado, pois igreja que trabalha não dava trabalho. Ao longo do tempo também é possível notar que as pessoas falam sempre no domingo como o dia de trabalho na igreja e até a concepção do que seja igreja ficou restrita a um espaço físico e a um dia da semana.

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E isso nos leva a um estágio mais profundo de compreensão do que seja ser salvo, membro de uma igreja. Normalmente aprendemos que após a conversão somos salvos, então já temos garantido o nosso ingresso no céu e devemos seguir uma trilha que nos leva à preparação ao batismo, depois engajamento nas no trabalho dominical da igreja, onde vamos para “assistir ao culto”, frequentar reuniões de trabalho, mas também o culto de oração, exercer algum cargo na estrutura da igreja e assim vamos vivendo a nossa vida eclesiástica.

Já tive a oportunidade de ter contato com seminários que preparam alunos em seu conteúdo curricular para desenvolverem especificamente esse tipo de atuação na liderança de uma igreja. Por isso será fundamental compreendermos mais profundamente esse tema, pois, a depender de nossa conclusão poderemos ter a necessidade de revisitar essa estratégia de formação teológica.

No artigo anterior desta coluna mencionei o missiólogo Ed Stetzer que poderá nos ajudar ao afirmar que “se vivo uma vida missional, vivo uma vida moldada pela missão de Deus (missĭo Dei).” E o que é essa missĭo Dei? É o alvo de Deus em resgatar toda criação e criatura de seu estado de rebelião trazendo de volta para si, para o Plano da Criação o qual foi abandonado.

Me permita relembrar a citação que fiz de Chris Wright que nos lembra que “… nossa tendência é reduzir o Evangelho a uma solução para o problema do nosso pecado individual e a um cartão magnético para abrir a porta do céu, de modo que substituiremos essa impressão reducionista por uma mensagem que tem a ver com o reino cósmico de Deus, em Cristo, que, no final, erradicará o mal do universo de Deus e resolverá nosso problema de pecado individual, obviamente”.

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Assim, se converter ao Evangelho é mais do que conseguir um cartão magnético para entrar na Nova Jerusalém, é adotar uma nova forma de vida, à luz da missĭo Dei (Rm 12.1ss; Gl 2.20) e isso em tempo integral (Lc 9.23). O missiólogo Goheen afirma que “não há um centímetro quadrado da vida sobre o qual ele [Jesus] não diz: ‘Isto é meu!’”.

A partir disso, é possível deduzir que, se vivo uma vida missional, vivo uma vida moldada pela missão de Deus (missĭo Dei) que vai além de ser frequentante de uma igreja, pois, a partir de minha conversão, a minha agenda e o meu projeto de vida passam a ser direta e completamente conectados ao projeto da missão de Deus e eu me entrego a ele para que, em sua missão de restaurar toda criação, inclusive o indivíduo, me tenha como seu instrumento e ferramenta.

Algo a mais que nos leva a considerar a profundidade de nossa experiência de conversão e vida é quando consideramos a igreja como a nova humanidade, que também já descrevemos aqui nesta coluna. Assim “a igreja não é um corpo religioso, mas a nova humanidade que é uma imagem da vontade de Deus no final da história universal para trazer unidade a todas as coisas no céu e na terra sob Cristo [Ef 1.10; 2.11- 22]” (Goheen, Tornando-se uma igreja missional). Embora esta expressão não esteja literalmente no Novo Testamento (assim também como a Trindade), esta figura descreve que nós como igreja estamos presentes em diversos momentos da vida demonstrando nosso estado de novas criaturas (2Co 5.17; 1Co 15.45-49) que são chamadas para deixar o antigo padrão ou cosmovisão de vida, para assumir um novo modo de viver, à luz do Plano da Criação, abandonado quando da rebeldia no Éden (Gn 3).

Como pertencentes a uma nova humanidade “os discípulos devem causar uma impressão na terra como sal, e no mundo como luz. Devem também impressionar a humanidade como praticantes de boas obras” (David E. Garland). E isso nos leva a compreender que “essas três imagens bíblicas definem os discípulos como ‘a comunidade de contraste de Deus’” (John Driver).

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Veja que quando nos convertemos nosso papel na vida é radicalmente mudado, nossa agenda passa a ser a agenda do reino de Deus. Com Lohfink aprendemos que “se Mateus 5.13-16 [sal e luz] é lido em seu contexto e dentro do pano de fundo do Antigo Testamento, fica claro que a cidade radiante na colina é um símbolo para a igreja como uma sociedade de contraste e, que precisamente como sociedade de contraste, transforma o mundo”.

A partir daqui poderemos compreender um dos principais motivos pelos quais o “fazer discípulos” está no modo imperativo em uma das principais versões da chamada Grande Comissão. Não há como ser uma sociedade de contraste, ou, para utilizar outra figura, um povo-tradução do reino de Deus, sem que esse mesmo povo e cada membro desse povo, tenha um estilo de vida, uma cosmovisão, transformada que possa ser espelho e vitrine para mostrar o verdadeiro e real sentido de vida conectado com o Plano da Criação abandonado lá na rebelião no Éden, de modo que as pessoas deste mundo possam ser a atraídas para terem sede das Boas Novas por meio do único caminho de volta que já havia sido prometido pelo Criador no protoevangelho (Gn 3.15).

Portanto, discipulado é mais do que uma ordem, é A estratégia que Jesus estabeleceu para que vidas possam ser transformadas e serem transformadoras.

Com o tempo tem sido possível ver o discipulado sendo transformado como mais uma opção de atividades e trabalho na igreja, a encontros facilitadores, a estudo bíblico, a mentoria, a estratégia programática para o crescimento numérico da igreja, a preparação para o batismo e a tantos outros programas.

Não há discipulado se não houver em primeiro lugar a intencionalidade de mudança de vida a partir de um modelo transmitido por alguém que já tem vida transformada pelo Evangelho. Paulo nos ensinou: “sejam meus imitadores, como eu sou de Cristo” (1Co 11.1) e isso não foi meramente algo cognitivo, doutrinário, foi mais longe, mudança radical de vida. Por isso chamo discipulado de processo de transfusão vivencial.

É bem interessante que por muito tempo em um dos principais textos da Grande Comissão (Mt 28.18-20) o foco foi no verbo IR (IDE) como se fosse um imperativo, mas que nem está no modo imperativo (está no aoristo particípio) e, na gramática grega o particípio quando está em uma construção que tem como verbo principal conjugado no modo imperativo (FAZ\EI DISCÍPULOS) indica a maneira como o imperativo vai ser realizado. Já vi uma certa interpretação que indica que o verbo “ir” (ide) está no particípio de consequência, isto é, aponta para uma ação concomitante com a realização do verbo que está no imperativo e por isso adquire o mesmo significado que o imperativo. Aqui, em geral, é citada uma gramática (Wallace) que tem um equívoco primário, pois a ideia de uma ação de consequência está no campo de significado temporal e não significado modal, que é o caso do imperativo que é um modo e não um tempo verbal. A ideia com este equívoco é manter o sentido imperativo do IR (IDE). Mas mesmo se considerarmos esse particípio do verbo “ir” como consequente, a tradução desta parte do versículo deveria ser “à medida que vocês forem, façam discípulos” ou “ao irem, façam discípulos” em que a ideia do imperativo (IDE) não aparece.

E isso se torna por demais importante, pois torna o discipulado algo NATURAL, INTENCIONAL, que alcança o modo de vida natural de quem é convertido que, à medida que a pessoa vai vivendo a vida (“à medida que vocês forem”), seja no trabalho, na vida cidadã, na escola, enfim na vida pública no ambiente em que vive, a sua história de vida deverá ser um modelo a ser seguido, uma vitrine e tradução do reino que se expresse por meio de suas decisões e ações a partir da cosmovisão bíblica. E quando as pessoas forem atraídas pelo agradável perfume de Deus (2Co 2.14-16) manifesto nesse modo de viver e aceitarem as Boas Novas, terá essa pessoa como modelo para seguir, ser seu mestre. Essa pessoa seguirá esse mestre se unindo à sua igreja para participar da comunhão e adoração familiar, ter a oportunidade em crescer no estudo da Palavra de Deus, descobrir e desenvolver seus dons etc. Isso demonstra que para “fazer discípulos” não preciso ter um dom, deverá ser algo natural na vida de todo cristão.

O interessante é que para participarmos em estruturas, programas, eventos etc., não nos é requerido necessariamente que sejamos modelo de vida, basta ir e fazer o trabalho, cumprir calendário, envolver pessoas etc. Mas, para discipular é fundamental ser exemplo na vida, ter maturidade emocional, espiritual, saber lidar com as dificuldades da vida, ter equilíbrio no falar, no relacionamento, ter fortalecida sua compreensão doutrinária à luz da Bíblia. Então, parece-me que a transformação de vidas tem sido substituída por performance demonstrada na ação e ativismo de final de semana.

Jesus não deixou outra estratégia, pois o discipulado é A estratégia. “Se alguém quer vir após mim, negue a si mesmo, a cada dia tome a sua cruz e siga-me” (Lc 9.23). “A cada dia” aponta para uma vida integral, um estilo integral. Tomar a cruz indica o início do caminho, seguir a Jesus nesse caminho indica a cruz, mas também aponta para a ressurreição, pois a cruz não foi o final do caminho. Paulo ensina que se fomos crucificados em Cristo também devemos nos considerar sermos ressuscitados por ele em novidade de vida (Rm 6.4).

Lourenço Stelio Rega é eticista e Especialista em Bioética pelo Albert Einstein Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa (Hospital Albert Einstein)

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