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segunda-feira, 21 junho 2021

A dor não é o fim! Combate ao abuso sexual infantojuvenil

O abuso sexual infantojuvenil é assustadoramente comum e extremamente prejudicial. Como se não bastasse, há um aumento significativo dos indicadores de violência durante a pandemia

Por Elen Almeidah e Priscilla Cerqueira 

A dor não é o fim! Hoje, 18 de maio, é o Dia nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e adolescentes. Quem sobreviveu ao abuso sexual, revela o caminho para superar esse trauma.

Ela sofreu abuso sexual na infância, causado por um familiar e, mais tarde, em sua juventude, vivenciou a mesma violação de direitos dentro dos limites da igreja que frequentava e que era responsável por acompanhar o seu processo de restauração.

O abuso sexual eclesiástico é velado, mas a prática é frequente em algumas comunidades cristãs. Na última década, ministérios e escolas de sexualidade vêm surgindo por todo o país como resposta ao crime que muitas vezes é travestido de afeto e cuidado.

Psicologia e ajuda

Atualmente, a rotina de Marcela Amaral – apesar do período de licença maternidade, já que Joaquim, o filho caçula completara cinco meses –, inclui palestras sobre o tema, ouvir pessoas, oferecer suporte e caminhar rumo à superação.

Marcela
Psicóloga Marcela Amaral. Foto: arquivo pessoal

A formação em Psicologia foi consequência. Ao receber ajuda por meio de aconselhamento cristão, Marcela percebeu um caminho para a cura. “A dor não é o fim”, afirma.

Quem observa Marcela, hoje psicóloga, palestrante, produtiva, esposa, mãe (o primeiro filho, Rafael, tem 3 anos), não faz ideia do seu sofrimento.

“Sem conviver com meu pai e crescendo em meio a uma família disfuncional, fui abusada por um familiar que percebeu a carência que eu sentia. Mais tarde, fugindo dessa realidade, encontrei abrigo em um ministério e novamente essa carência saltou. O líder, que me ajudava, tornou-se meu agressor.

Ele abusava e eu permitia. Havia um único momento após o abuso que eu gostava: o abraço dele”, lembra. Só mais tarde isso parecerá significativo (veja sua palestra Prevenção contra o abuso sexual infantojuvenil no YouTube).

Recomeço

Após romper o silêncio e definitivamente os laços com o abusador, Marcela recomeçou sua vida e compreendeu aqui a maior lição que poderia tirar das lutas que passou. Falar do abuso que sofria foi um mecanismo de enfrentamento que ela aprendeu ainda jovem, sem realmente entender o porquê.

Mas agora, aos 37 anos, desses 10 dedicados ao aconselhamento de cristãos, ela reconhece isso como uma maneira de pôr fim à violência e combater os sentimentos de inutilidade e vergonha que muitos sobreviventes de abuso infantil experimentam.

“Eu creio que há muitas pessoas que lerão essa reportagem e que são provas vivas do fracasso de instituições e de igrejas que aparentemente ou de fato buscavam interromper os abusos e restaurar almas. Mas compartilhar a violência, falar sobre isso, apesar dos pensamentos pejorativos e do sentimento de culpa comuns em quem sofre violência, fará com que a vítima dê um passo em direção à sua superação, independente das pessoas. Houve quem não ajudasse ou mesmo fosse agente da violência neste processo, mas há um Deus especialista em transformar o caos em paraíso. Ele levantará novas pessoas e haverá futuro, assim como houve para mim”, lembra a psicóloga.

Voluntariado

Marcela há um ano é voluntária na Missão Luz na Noite – criada em 2001 com objetivo de ajudar cristãos em sofrimento com a sua sexualidade – e auxilia no aconselhamento de jovens e adultos vítimas de violência sexual na infância.

“No aconselhamento oferecemos às vítimas e sobreviventes a chance de serem ouvidas com respeito, consideração e muita compaixão, a exemplo de Jesus. Por isso, acredito que a dor nunca é o fim.

Existe luz além do abuso”, destaca Marcela fazendo alusão à campanha criada pela Missão em 2019, por conta do 18 de maio – Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes – e que permanece no ar neste ano.

Além do aconselhamento cristão, Marcela lida com a temática e outras ligadas à família na prática clínica de seu consultório. “Hoje é um dia que fala de sofrimento, mas que traz esperança. Quem vive a realidade do abuso ou testemunha acha que tudo acabou. Mas não. Deus é Deus de recomeços”, finaliza.

O testemunho completo de Marcela encontra-se no canal do YouTube da Missão Luz na Noite e há ainda palestra sobre prevenção ao abuso sexual infantil que a psicóloga ministrou neste mês de abril durante a programação Sexo em Pauta: reflexões em família.

Estupros

Somente em 2019 foram registrados, em média, 180 estupros por dia no Brasil. As crianças de até 13 anos correspondem a 53,8% das vítimas e entram na estatística como estupro de vulnerável, segundo o 13° Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Os dados apontam que 76% das vítimas possuem algum vínculo com o abusador e que apenas 7,5% das vítimas de violência sexual no Brasil notificam a polícia — percentual que varia entre 16% e 32% nos Estados Unidos.

Com a pandemia, acredita-se que haja um aumento significativo dos indicadores de violência contra crianças e adolescentes. Mas a estatística anterior aos tempos de Covid-19 já revelava a dificuldade em contabilizar os casos, agora acentuada por conta do isolamento social.

Luz na Noite

A campanha Luz Além do Abuso, iniciativa da Missão Luz Na Noite, cobra esforço das instituições e cristãos para dar mais visibilidade ao tema e não somente para fortalecer as denúncias, mas para alcançar e amparar aqueles que ainda convivem com a violência ou mesmo a dor de terem sido vitimados.

“Falar é o primeiro passo para a superação, uma vez que o silêncio perdoa o agressor e reforça seu poder sobre a vítima ou mesmo amplia o trauma, especialmente, na vida adulta.

Além da defesa das crianças, queremos oferecer auxílio e suporte para os jovens e adultos que ainda carregam marcas do abuso que sofreram”, esclarece a coordenadora da Missão, Débora Fonseca, que é formada em Direito e Psicologia e atua há mais de 20 anos com aconselhamento cristão na área da sexualidade humana.

Sobre a data

Instituído pela Lei Federal 9.970/00, o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. A data é uma conquista que demarca a luta pelos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes no território brasileiro e que já alcançou muitos municípios.

A proposta anual da campanha, que nesse ano comemora o 20º ano de mobilização, é destacar a data para mobilizar, sensibilizar, informar e convocar toda a sociedade a participar da luta em defesa dos direitos de crianças e adolescentes

Veja o testemunho da Marcela

*Esta matéria é uma republicação da Comunhão, veiculada em maio de 2020

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