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quinta-feira, 25 DE julho DE 2024

A dor é minha. Não julgue!

Pastor e psicólogo Marcos Guimarães. Foto: Divulgação

Ainda é muito comum ouvir que depressão é frescura ou que a pessoa tem que parar de se vitimizar. Essa dor acontece também entre pastores e líderes religiosos.

Por Lilia Barros

Frases como: “você precisa se levantar e fazer alguma coisa”; “no meu tempo, isso se curava no cabo da enxada”; “você não pode ficar assim” e outras tantas, ainda são ouvidas por pessoas que estão em um quadro de depressão, nesse caso, geralmente grave.

Por mais bem intencionadas que sejam essas falas, elas não ajudam. Por não vermos a “ferida”, pode dar-nos a sensação de que a pessoa está fingindo, se esquivando de trabalhar ou de assumir seus compromissos, mas não é necessariamente verdade. A pessoa com depressão pode não ter a resistência ou o ânimo necessários para se levantar da cama, pentear os cabelos, arrumar a casa, sair para estudar, cuidar dos filhos, fazer sexo, comer

No caso de pastores, exercer seu ministério pode se tornar um fardo e culminar em esgotamento e até suicídio, porque depressão é doença. O que há em comum na hora de gerir uma empresa e uma igreja? Comunhão entrevistou o pastor e psicólogo Marcos Guimarães que atua em Vitória e Serra, no Espírito Santo. Segundo ele, “O que menos essa pessoa precisa é de outras lhe julgando, principalmente daquelas que são mais próximas. Depressão é doença.”

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Confira a entrevista:

Comunhão: Gerir uma empresa & Pastorear uma igreja. Faça um paralelo entre as duas funções. Aponte o que há de comum entre a sobrecarga de um pastor e de um empresário?

Pastor e psicólogo Marcos Guimarães: No que tange as questões administrativas, há muita semelhança. Sobretudo se considerarmos as denominações chamadas tradicionais e/ou históricas. As questões burocráticas que envolvem manejo de pessoal, contas a pagar, dificuldade com baixas receitas, cobrança por resultados. Infelizmente há uma área de muita semelhança nos dois ambientes, o assédio moral. Seja em uma empresa ou em uma igreja, é muito comum quando conversamos com os funcionários, inclusive o pastor, percebermos que em reuniões ou em conversas privadas, existem comportamentos da diretoria ou por parte de algum membro, comportamentos de assédio ou de diminuição do trabalho pastoral ou do próprio pastor.

O que difere em grande medida é que, além desse cenário de similaridade, há as chamadas responsabilidades espirituais e o cuidado pessoal. Por exemplo, o diretor de uma empresa não costuma receber seu funcionário no meio do expediente para falar sobre problema de seus filhos ou no seu casamento. Vejo um outro problema que é muito grave em minha análise. O fato de o pastor trabalhar todos os domingos do mês, meses seguidos. Advogo que no máximo a cada dois meses o pastor tire o final de semana de folga para manutenção de sua saúde física e mental e cuidado de sua família – vale ressaltar aqui que a Lei brasileira não permite que uma pessoa trabalhe três domingos seguidos (Art. 386 da CLT). Nisso a igreja difere das empresas.

Fazer uma intervenção intencional e madura entendendo a necessidade do líder espiritual, fará toda a diferença nesses contextos. Penso que o pastor também deve procurar nos acordos iniciais com a igreja, deixar claro questões que são importantes para ele gerir seu autocuidado, porém, caso isso não tenha acontecido, é importante que haja espaço para negociação entre as partes, pois um funcionário adoecido, seja na empresa ou na igreja, não renderá o que pode.

Comunhão: A igreja está preparada para uma conversa sobre esgotamento e suicídio entre pastores? Por quê?

Penso que ainda não totalmente, mas vejo que algumas comunidades têm procurado conhecer mais sobre o tema e tentado ver seus líderes como pessoas que também têm dificuldades, inclusive no âmbito da saúde mental.

Comunhão: Como se dá a espiritualidade no campo da saúde? Esse é um assunto bíblico?

A espiritualidade é uma das formas de enfrentamento de doenças, demoniada como estratégia de coping. A espiritualidade ajuda o indivíduo a ter mais cuidado com seu corpo, com as escolhas que faz, com as decisões que toma. Levar em conta a espiritualidade e a fé na tomada de decisões tem se mostrado extremamente salutar e se considerarmos o ensinamento do apóstolo Paulo sobre o corpo ser o templo do Espírito, isso faz com que, para muitos o cuidado do corpo (físico e mental) seja uma prioridade.

Comunhão: Fazer terapia ainda é um tabu? As pessoas entendem ser falta de fé?

Sim, infelizmente para muitas comunidades de fé e para muitos líderes eclesiásticos ainda é um tabu. Associar ansiedade e depressão a ações malignas continua sendo a tônica em vários círculos religiosos e isso atrapalha a pessoa a buscar ajuda. A má compreensão de alguns textos bíblicos por parte de alguns expositores aprisiona as pessoas e as faz pensar que essas coisas não acontecem se você não estiver em algum tipo de pecado.

Comunhão: Estamos vivendo uma pandemia de depressão no meio cristão? Na sua visão, os pastores e líderes evangélicos estão capacitados para um ministério nessa área?

Acredito que, como a igreja é uma extensão da sociedade, no aspecto de grupo, sim, estamos em um nível acentuado de casos de depressão nos contextos cristãos, pois essa é uma realidade mundial. Penso que muitos pastores e líderes estejam capacitados, sim. O problema maior é com a parte que não está capacitada, pois pode dar informações que não ajudam a pessoa a buscar ajuda adequada. É necessário, urgente que as doenças emocionais sejam encaradas da mesma forma que são encaradas as doenças físicas. 

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