“Pela fé, entendemos que o Universo foi criado pela palavra de Deus, de maneira que o visível foi feito de coisas invisíveis” (Hebreus 11: 3).
O mundo material (ou físico) é dependente de uma realidade subjacente. A solidez da matéria decorre de ação de forças invisíveis, como os campos eletromagnéticos e as forças nucleares. Portanto, a matéria é energia condensada. Paralelamente, o ser humano possui uma dimensão espiritual invisível aos nossos sentidos, os quais não processam eventos fenomenológicos naturalmente. Daí se explica, em parte, a nossa cegueira nessa questão.
Consequentemente, passados quase dois mil anos desde que a Epístola aos Hebreus foi escrita, a ciência continua engatinhando quanto ao que escapa à nossa percepção natural. Estudos mostram que em torno de 95% da composição do cosmos, a denominada matéria e energia escuras, ainda é totalmente desconhecida.
Ademais, esse tecido misterioso é invisível: a matéria escura não emite, não reflete e não absorve luz. Já a energia escura, operando em oposição à força gravitacional, viabiliza a expansão do Universo. A Cosmologia moderna desconhece a natureza desse enigmático processo macrocósmico.
Até aqui esse relato praticamente tratou de coisas imanentes. Todavia, quando pensamos a respeito das realidades transcendentes, um novo e complexo componente é adicionado. O cristianismo, por exemplo, concebe os anjos como seres de uma dimensão exclusivamente espiritual. Quanto a isso, a ciência também não tem explicação.
Assim, é razoável conceber a coexistência de dois mundos. Um, até certo ponto, observável e imanente; outro, inobservável e transcendente. O primeiro é físico, composto de planetas, galáxias e matéria. O segundo é espiritual, situado além das dimensões de tempo e espaço, constituindo-se, como causa primária e geradora do primeiro.
A esta altura, deparamo-nos com um “ponto cego” entre a ciência e a teologia. Aquela, com suas limitações metodológicas pertinentes, embasada nas leis da física, tenta decifrar o mundo material. A teologia fundamentada na revelação transcendente procura explicar o mundo espiritual, e suas multifacetadas dimensões.
Diante disso, não há dúvidas: existem duas realidades. Aliás, o próprio Jesus Cristo disse a Pilatos: “Meu reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas agora, meu Reino não é daqui” (João 18: 36). O Mestre deixa claro que há outro mundo, de onde Ele provém.
No que tange à vida, em si, a ciência embasa-se na física, química e biologia para encontrar respostas. A própria astrobiologia vem buscando evidências de vida em condições extremas ou exóticas, testando nossos limites biológicos, enquanto a teologia testa nossos limites e propósitos morais.
Sabemos que o genoma do chimpanzé é cerca de 98% a 99% idêntico ao DNA humano. Se apenas 1% a 2% foi suficiente para cravar essa distância existencial brutal entre nós e aquele primata, imaginem quão distantes poderíamos estar de outras eventuais formas de vida e inteligência mais elevadas na ordem da criação.
Nesse sentido, nossa cegueira é eletromagnética. Contudo, ao integrarmos a percepção espiritual às constatações científicas, surge uma lente interpretativa ante o invisível, descortinando novos significados. Nessa jornada de busca pelo conhecimento, três virtudes são indispensáveis: discernimento, fé e humildade.
O discernimento resulta de um exame sério de tudo, e da retenção do que é crível. A fé é o combustível nessa caminhada peregrina para horizontes além da matéria. A humildade permite o esvaziamento do ego para a assimilação de novas possibilidades. Assim, crendo, vislumbramos o Reino invisível que somente poderá ser compreendido quando olharmos para dentro de nós, onde ele está (Lucas 17: 21).
Clovis Rosa Nery é graduado em psicologia, pesquisador e escritor



