Vocação ministerial precoce

“As pessoas precisam ouvir o Evangelho que salva; as pessoas precisam ouvir o Evangelho que Jesus mandou pregar, o Evangelho que incomoda”

O pastor Ednan Santos Dias da Silva, descobriu sua vocação ministerial ainda na juventude. Desde então, preocupa-se em manter ativa a maior das vocações da denominação batista: o evangelismo. Em uma conversa franca, o pastor Ednan fala sobre os rumos da denominação no Estado, a venda do Colégio Americano e da Fabavi e também sobre a polêmica envolvendo as ações da Tenda da Esperança no Estado.

O senhor nasceu em um lar cristão? Quando percebeu qual era o seu chamado?
Eu não nasci em um lar cristão, me converti aos 8 anos de idade. Recebi meu chamado para o ministério ainda na adolescência, aos 17 anos. Fui para o seminário, fiz o curso de Teologia e então fui ordenado para o ministério pastoral.

E como foi o início desse seu ministério?
O meu ministério começou na Igreja Batista em Itaquari, Cariacica. O trabalho naquele lugar foi um grande aprendizado para mim, porque conseguimos alguns feitos marcantes.

Uma das coisas que mais me marcou, por exemplo, foi a mudança do templo em que estávamos já havia algum tempo para uma nova casa. Conseguimos sair desse espaço antigo e nos mudarmos para um templo novo, construído pela faculdade Faesa.

Em uma parceria, a faculdade ficou com nosso antigo templo, enquanto nós fomos para o templo construído por eles. Esse foi um marco no início de meu ministério. Hoje, sou pastor da Segunda Igreja Batista em São Mateus, e estou nesta função há dois anos. O trabalho que desenvolvemos é muito dinâmico, nosso ministério é dividido por áreas: temos o ministério da música, do ensino, ação social, jovem e outros que, juntos, somam o ministério geral da igreja.

Em sua opinião, existe diferença entre a pregação do Evangelho antigamente para os dias de hoje? O comprometimento dos membros e líderes com a obra do Senhor é o mesmo?
Acredito que estamos sofrendo uma mudança muito grande na postura evangélica. Estamos hoje sendo forçados a viver um Evangelho mais pragmático, voltado para os resultados, e isso tem feito com que esse Evangelho seja mais atrativo, porém mais disfarçado. Em detrimento disso, o Evangelho verdadeiro, que salva, que confronta o pecado,
tem sido deixado de lado. Vemos muitas igrejas que estão deixando de lado o puro Evangelho para viver um Evangelho que não reflete o verdadeiro desejo que Jesus tem para a Igreja.

O senhor falou que descobriu seu chamado ministerial aos 17 anos. Hoje vemos cada vez mais nossa juventude se perdendo em álcool, drogas e violência. A Igreja está falhando?
Acredito que a falha é geral. Nós falhamos como família, como Igreja, como instituição e falhamos de um ponto de vista geral, e a Igreja tem que cumprir sua parte. A parte que cabe à Igreja é a de contribuir para o crescimento espiritual dos jovens e adolescentes. Neste ponto, a Igreja está falhando porque deixamos (e muitas igrejas fazem isso) de pregar sobre esse Evangelho que requer mudança, aquele que não deixa a pessoa da forma como ela está, um Evangelho que transforma. É por isso que o apóstolo Paulo recomendou ao povo de Roma. Ele rogava aos crentes que pudessem experimentar a mudança, a transformação da nossa mente.

E dentro dessa questão de deixar de lado o Evangelho puro, o senhor acredita que a Igreja também está deixando de fazer missões?
Acredito que nossos antepassados amavam mais a obra missionária. As pessoas que começaram o trabalho evangélico tinham uma consciência de que precisavam fazer algo que era o esforço sobre-humano delas, mas hoje em dia nós fazemos muito pouco em relação a isso. Nossa tarefa continua a mesma: evangelizar. Cada dia mais aumenta o número de pessoas que precisa ouvir a pregação, mas nós estamos de alguma forma errando, perdendo espaço e perdemos também a paixão e o interesse pela obra missionária.

Pesquisas revelam que no Espírito Santo, em números, os batistas estão em segundo lugar, diferentemente de outros Estados onde a denominação não tem um número tão expressivo de membros. A que o senhor atribui essa forte presença batista no Estado?
Eu acredito que a denominação batista poderia ser muito maior do que é hoje no Espírito Santo. A denominação batista é histórica, nós estamos no Estado há mais de 100 anos e nosso desejo é vermos a obra do Evangelho sendo ainda maior, vermos a obra intensificada. Como denominação batista, nós precisamos crescer e avançar mais. Nós temos representação em todos os municípios do nosso Estado, não existe hoje uma cidade no Espírito Santo que não tenha uma igreja batista.

E como está a Igreja Batista hoje? Quais suas perspectivas para os próximos anos?
A denominação batista vive um momento de reflexão. Precisamos voltar os nossos olhos para a evangelização, para as pessoas que necessitam da pregação e do Evangelho integral. Nós entendemos que podemos fazer obra de ação social, transformar vidas com ensino, mas nossa função primária é a evangelização. Nossa função é mudar a pessoa pela pregação da Palavra e nós queremos voltar ao foco que anteriormente era o foco da denominação: nossos missionários, homens e mulheres que tinham em seus corações o amor e a paixão por missões.

Nós queremos voltar a isso, queremos que as nossas igrejas amem missões e se apaixonem por essa obra de evangelização. Nossas metas e perspectivas giram em torno da evangelização. Queremos que as igrejas batistas cresçam cada vez mais, que visualizem a obra missionária como algo necessário para o crescimento das igrejas e como a missão que Jesus Cristo deixou para nós. Precisamos de uma vez por todas retomar a nossa postura de uma denominação evangelizadora, de uma denominação que fala do amor de Jesus, que anuncia o evangelho de Jesus.

As mudanças na sociedade e a movimentação cultural têm modificado a forma e a administração das igrejas. Como a denominação batista tem vivenciado e reagido
a esse momento?
As mudanças tecnológicas e científicas são necessárias. Entretanto, acredito que não devemos mudar a essência do Evangelho. Não podemos, de maneira alguma, nos conformar com o mundo.

A igreja, de forma geral, tem que abolir de seus arraiais tudo aquilo que diz respeito ao mundanismo, ao secularismo e tudo aquilo que tem a cara do mundo hoje. Nós devemos, de forma contundente, abolir tudo o que parece um acordo com o mundo, tudo aquilo que parece algo que distorce o que Jesus tem para a Igreja. Uma das imagens que a Bíblia apresenta para a Igreja é a noiva, que tem um símbolo de pureza. E a noiva para Jesus tem que estar pura, não pode se contaminar com o mundo, com as coisas que o mundo oferece.

O Colégio Americano Batista, com mais de 100 anos de história, foi vendido para a Rede Doctum de ensino. Como a denominação batista se sente perdendo um de seus principais símbolos?
Este tema me entristece. O Colégio Americano e a Faculdade Batista são temas que mexem com o coração de todos os batistas do Espírito Santo. Agora, entendemos que o momento que a denominação vive é diferenciado. O Conselho da denominação, nas últimas reuniões, entendeu que, de agora em diante, o foco da denominação deve se voltar para a evangelização. Entendemos que o ensino secular não seria mais alvo do nosso planejamento, da nossa estratégia.

Nós vamos focar, de maneira definitiva, a evangelização, o crescimento das igrejas e os projetos missionários. O Colégio Americano serviu durante mais de 100 anos à comunidade capixaba, por intermédio dos batistas do Espírito Santo, mas estava deixando a essência que motivou seu início, que era a evangelização. Nós perdemos esse foco de evangelizar dentro dos colégios e isso, com certeza, fez com que perdêssemos poder, força e consequentemente chegássemos aonde chegamos, que foi a desvinculação do ensino e a missão da Igreja.

Mas não havia uma possibilidade de voltar com a missão inicial, sem abrir mão do colégio e da faculdade?
Analisando vários pontos estratégicos, dentre eles a questão financeira, entendemos que a melhor saída era fazer a incorporação com a Rede Doctum. E essa incorporação veio, de forma geral, levantar o nome da faculdade. E hoje não vemos a falência da faculdade e do colégio, mas sim o investimento de capital de terceiros, que chega para alavancar a instituição.

Em uma análise curta e geral, a Fabavi e o Colégio Batista foram salvos, mas não pela injeção de recursos da denominação batista, mas sim por uma incorporação, uma estratégia em que nós contamos com o apoio da Doctum. A rede de ensino veio para somar forças e alavancar a instituição.

Como está sendo a relação entre a denominação batista e a Rede Doctum? Os valores da denominação serão mantidos?
Sim. A Doctum também é uma instituição centenária de princípios cristãos, e os mesmos princípios cristãos, morais e éticos que estiveram presentes no Colégio e na Faculdade Batista permanecerão com a Rede Doctum. Essa é uma instituição coirmã, com valores cristãos que vão manter a nossa postura em frente à faculdade e ao colégio.
A sociedade capixaba só tem a ganhar, pois os valores que permearam a instituição continuam com a Doctum, só que, agora, com uma instituição mais consolidada, mais saneada e que tem condições de investir mais recursos, algo que nós, batistas, não podíamos fazer.

Após o processo de vendas, a Rede Doctum está honrando os termos ajustados?
Neste curto período de quatro meses de negociação, a Doctum tem seguido todos os preâmbulos e itens do nosso contrato, inclusive superando nossas expectativas. Eles estão honrando os compromissos assumidos anteriormente.

A formação de líderes sempre foi um traço muito forte da denominação batista. Com a venda do colégio Americano Batista e da Fabavi, como fica a situação do Centro de Educação Teológica Batista no Estado (Cetebes)? A denominação pretende investir nesse braço de formação?
O Cetebes, que é o nosso seminário, continua sendo nosso ponto principal. Queremos investir em liderança. Se queremos crescer e evangelizar, precisamos investir em líderes.
E o Cetebes continua sendo prioridade para nós. Com a perda do foco no ensino secular, nós estamos voltando nossos olhos definitivamente para o ensino teológico, para a preparação de pastores, de líderes. Queremos investir pesado na formação de pastores, na capacitação de obreiros e na preparação de líderes locais para as igrejas, não só na formação teológica, mas na formação de liderança nas igrejas locais. Queremos que o Cetebes seja referência em formação integral, e não só formação teológica.

Recentemente, notícias sobre a realização do projeto Tenda da Esperança, inédito no Espírito Santo, geraram grande polêmica. Por que o senhor acredita que isso aconteceu?
Creio que foi por uma interpretação errada do objetivo geral do projeto. Nosso desejo é levar esperança às pessoas e nosso desejo maior é que elas conheçam Jesus através desse trabalho da Tenda da Esperança. O entendimento errado e a falta de compreensão do objetivo desse projeto fizeram com que esse embaraço acontecesse. Nós não temos o objetivo de confrontar, não temos o objetivo de baderna ou de afronta, mas sim o de levar uma mensagem de paz e de esperança a qualquer pessoa. Acredito que existam pessoas nas igrejas batistas que precisam ser evangelizadas.

Da mesma forma, acredito que existam pessoas nas igrejas evangélicas de modo geral que ainda não conhecem verdadeiramente Jesus. Então, não é o rótulo de igreja ou denominação que faz uma pessoa ser evangelizada ou não, e sim sua condição e desejo de conhecer Jesus. Inclusive, eu já conheci pastores que não tinham a certeza de sua salvação. Sendo assim, não é o fato de pertencer a uma denominação ou igreja que faz de você uma pessoa salva ou uma pessoa que não precisa ser evangelizada, mas é sua experiência pessoal com Jesus.

O senhor acha que houve um exagero na divulgação das informações?
Acredito que houve uma supervalorização de algo que nós não estamos dispostos a fazer. Nós não estamos dispostos a fazer um enfrentamento, não estamos dispostos a nos envolvermos dentro de locais pré-estabelecidos e pré-determinados, nunca intentamos isso. Não queremos tumultuar e esses termos que foram colocados nunca foram citados por nós. Nunca nos dispomos a tumultuar e atrapalhar. De alguma forma, isso foi cogitado, mas não queremos impedir, boicotar ou atrapalhar nada, em nenhum momento.

Jesus ensina “ide e pregai o Evangelho a toda criatura”, mas não pela força e sim pelo Espírito de Deus. Esse é o ensinamento que rege as ações da Tenda da Esperança?
Sim. A Tenda da Esperança visa a cumprir o ide de Jesus, porque Jesus disse: “ide e ensinai a todas as nações”. E o todo que Jesus colocou é realmente geral. Nós devemos pregar e ensinar o Evangelho a toda criatura, independente da sua posição e credo religioso.
E a conversão não é algo que acontece por força; a conversão é o agir do Espírito Santo dentro da pessoa. A Bíblia diz que o Espírito Santo é quem convence o homem do pecado, da justiça e do juízo.

Porém, a Bíblia diz também que a fé vem pelo ouvir. As pessoas precisam ouvir o Evangelho que salva; as pessoas precisam ouvir o Evangelho que Jesus mandou pregar, o Evangelho que incomoda. Eu acho que podemos falar também às igrejas. Muitas delas estão preocupadas em pregar um Evangelho que não muda, que não incomoda, um Evangelho light, água com açúcar. E Jesus não mandou pregar um Evangelho assim. Jesus mandou pregar um Evangelho que confronta, um Evangelho que muda verdadeiramente a vida das pessoas. Essas pessoas precisam ouvir o verdadeiro Evangelho que Jesus mandou que pregássemos.

Como essa questão está sendo resolvida com a liderança católica no Estado?
Acredito que não houve nenhum tipo de atrito entre os batistas e a liderança católica. Somos amigos dos católicos e também de outras denominações, de outros segmentos religiosos. Os batistas têm por preceitos praticar o amor, anunciar e viver a paz. Não houve qualquer tipo de afronta com as lideranças católicas. Em nenhum momento, fomos retaliados nem retaliamos nenhuma liderança católica. Sempre entendemos que a nossa função é promover a paz e não criamos esse tipo de constrangimento com ninguém, nem com padres, nem com bispos, com ninguém da liderança católica.

Nossa posição de sermos receptivos e de procurarmos o outro sempre vai existir. Queremos conviver harmonicamente com essas lideranças. Entendemos que precisamos ter ações conjuntas no nosso Estado com lideranças interdenominacionais e autoridades religiosas, não só batistas, mas de outras religiões, inclusive os católicos, no sentido de fazermos diferença junto aos poderes constituídos, reivindicando mudanças e ações que promovam a vida. Estamos dispostos a caminhar nessa direção, contrariando o que está sendo anunciado por aí. Não há um clima de guerra ou revanchismo, nem tampouco estamos nos colocando como inimigos de católicos ou de quem quer que seja.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.

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