Viver como igreja no meu local de trabalho

Falar de Jesus aos colegas de profissão deveria ser regra geral para todos os cristãos. Você tem aproveitado sua jornada de trabalho para falar do amor de Deus?

Dentro de uma sala ou ao ar livre, as pessoas que trabalham fora convivem com outras, sejam patrões ou colegas de trabalho, em média oito horas por dia, podendo, em alguns casos, chegar a 10 ou 12 horas. Essa condição, que é a realidade da maioria da população, é ainda uma oportunidade que os cristãos não devem deixar passar em branco. Esse período também tem de ser aproveitado para apresentar a Palavra de salvação de Jesus.

E há muitos crentes que não perdem tempo. Usam cada brecha nas conversas para falar do amor de Deus, dar uma palavra de conforto ao próximo, orar com os colegas. Há até quem chegue a organizar cultos ou devocionais nos lugares onde atua profissionalmente. O espaço destinado ao trabalho, dessa forma, também se torna um ponto de pregação, um campo missionário.

O pastor Paulo Drago, da Igreja Batista do Ibes, em Vila Velha, destaca que o testemunho pessoal fala muito alto nessas horas. “Devemos começar sendo humildes e simpáticos. Precisamos conquistar os corações com amizade, amor, boa vontade em ajudar e servir aos outros, abrindo assim o caminho para um testemunho do Evangelho. O colega e o patrão precisam enxergar em nós pessoas confiáveis, honestas, íntegras. Eles precisam primeiro confiar no mensageiro, para depois confiar na mensagem”, afirma.

Drago completa dando uma dica prática para a exposição da Palavra de Deus: o importante não é falar da Bíblia em si, mas da vida. “Todos nós temos nossos dilemas e problemas, dúvidas e inquietações. Se partirmos desses temas, poderemos chegar à mensagem bíblica sem a necessidade de citar capítulos e versículos. Temos que ter muito cuidado para não parecermos ‘crentes xarope’ – enjoados e inconvenientes”, alerta.

De acordo com o pastor, “a imagem estereotipada do crente com a Bíblia na mão, querendo dar lição de moral e parecer ser melhor que os outros, não abre o caminho para a verdadeira mensagem do Evangelho”. Esse e outros conselhos são diariamente colocados em prática pelo vendedor Ruahn Costa, 24 anos, presbítero da Assembleia de Deus em Barcelona, na Serra. Apaixonado por Cristo, ele faz questão de deixar bem claro em todo lugar por onde passa que é filho de Deus e, trabalhando há apenas quatro meses em uma concessionária em Vila Velha, já deixou sua marca de cristão em cada canto da empresa.

“A gente tem que entender que as pessoas não nos olham apenas como profissionais. Elas primeiro nos olham como cristãos, e temos que dar exemplo. Aqui, todos sabem que eu sou cristão, até porque o meu vocabulário é de cristão. Não basta ser uma pessoa boa, honesta.
Isso não passa de obrigação. Ser cristão é mais que isso. Eu sempre oro com a minha equipe antes de começar a trabalhar. Faço isso todo dia, antes de iniciar o expediente. Aproveito e faço um devocional. Quem quiser participar participa. É livre, mas o pessoal gosta”, destaca.

Ruahn já virou uma espécie de conselheiro na concessionária e é chamado para dar uma mensagem ou fazer uma oração quando alguém está precisando de ajuda. “Eu não tenho vergonha da minha fé”, afirma. Com isso, tem mobilizado para o evangelismo até mesmo outros cristãos que já trabalham no local e que estavam acanhados ou já acostumados a não falar declaradamente de sua fé. “Quando há um problema espiritual, emocional, familiar, eles vêm até a mim pedindo uma oração. Eu separo um tempinho e peço a Deus por aquela pessoa. Já fui várias vezes para o setor de estoque da empresa para orar. Eu sempre lembro que quando Jesus chamou os discípulos, todos eles estavam trabalhando. É isso que temos que fazer, mostrar Jesus onde nós estivermos. Só é preciso muito cuidado para não transformar o local de trabalho em uma igreja. Eu sou Igreja de Cristo, mas o meu trabalho deve ser espaço de trabalho”, pontua o vendedor.

Por onde começar

O pastor José Bruno, da Assembleia de Deus do bairro Santa Marta, em Vitória, dá algumas orientações importantes para quem quer começar a anunciar de fato o plano de salvação no local de trabalho. A primeira é estar em comunhão com Cristo. A segunda é dar bom testemunho. A terceira é estar disponível para ouvir e orar pelas pessoas. “E sempre estar atento às conversas dos colegas. Se tiver uma brecha, coloque Jesus no meio. As pessoas sempre falam sobre saúde, família, trabalho, ética… Você pode colocar Cristo em todas essas áreas. É só estar atento”, afirma. Já para quem sonha em um dia ter um espaço definido para louvar a Deus, José Bruno lista algumas “regras” básicas: “Peça primeiro liberação do chefe e aproveite esse período para mostrar que Cristo é o nosso Salvador. Não entre em questões doutrinárias. Um dos principais erros é sair ‘pregando’ a sua denominação”.

A preocupação de não criar uma “guerra de religiões” na empresa onde atua é lembrada constantemente por Silmar Calheiros, da Igreja Batista Paz e Vida, em Novo Porto Canoa, na Serra. Ele trabalha há quatro anos como almoxarife na JL Metalúrgica, em Civit II, no mesmo município, e toda segunda-feira pela manhã desenvolve no refeitório da empresa um devocional, que reúne em média 12 pessoas.

“A gente costuma contar testemunhos de vida e mostrar que só Jesus salva. Falamos do que Deus pode fazer para restaurar a família, melhorar a criação dos filhos, o relacionamento conjugal. Mostramos os valores à luz da Bíblia, a honestidade. Não tenho que falar dessa ou daquela religião. É preciso respeitar isso, senão se cria uma batalha de religiões. Eu tenho que mostrar Cristo. Acredito que esse trabalho é o de um semeador. A gente joga a semente e mais à frente vamos colher os frutos”, declara.

Além disso, Silmar destaca que não é apenas com o culto/devocional que tudo vai ficar bom. “Um culto não vai resolver nada. É o dia a dia que vai fazer as pessoas olharem para você diferente e saberem que podem contar com um cristão de fato quando precisarem. O culto é só uma oportunidade de comunhão em conjunto”.

O pastor Roberto Henrique Alvarenga, da Igreja Quadrangular de Bela Aurora, em Cariacica, é um daqueles pregadores que costumam ser chamados por empresas para apresentar um trecho da Bíblia para funcionários uma vez por semana. Ele normalmente está toda segunda-feira nas empresas Duralev e Durafort, que se juntam para cultuar a Deus. “Reunimos umas 60 pessoas e o público é misto, com diversas religiões. Já tivemos várias conversões e também reconciliações.

Isso é o mais gratificante: a gente vê os frutos, vê os resultados. A Palavra não volta vazia e é preciso ter determinação e dedicação para não deixar o trabalho parar ou diminuir, mas sempre lembrando que o funcionário está lá para trabalhar para a empresa. Não podemos atrapalhar isso”, orientou.

Quando é hora de recuar

A empolgação com os frutos colhidos em um trabalho evangelístico dentro do local de trabalho deve ser controlada, principalmente quando fica claro que há algum descontentamento ou barreira criada para impedir a pregação da Palavra. O alerta é do pastor Fábio Duarte, diretor de Evangelismo e Comunicação da Área Centro-Norte da Igreja Adventista no Espírito Santo. “Isso é válido, sobretudo, para quando não há um culto organizado e a Bíblia é pregada um a um. Se houver empecilho por parte de um colega de trabalho, não insista tanto. Recue e passe a orar muito por aquela pessoa. Aos poucos, Deus vai abrindo as portas. Se o cristão insistir em continuar, forçar a barra, pode surtir um efeito contrário, uma repulsa. Deixe Deus trabalhar e mostre Jesus através dos seus atos. O testemunho fala mais alto que mil palavras”, diz o pastor Fábio.

Uma dica dele para evangelizar os colegas de profissão é sempre ter por perto, à mostra, um folheto, compartilhar músicas e livros cristãos, e até enviar e-mails com mensagens curtas de Deus. “A Palavra, quando houver oportunidade, deve ser pregada sempre”, declara.

O apóstolo Paulo, na segunda carta a Timóteo, deixa claro que é importante evangelizar a qualquer momento: “Prega a Palavra, insta a tempo e fora de tempo, admoesta, repreende, exorta, com toda a longanimidade e ensino” (II Timóteo 4:2). Esteja onde estiver, um cristão tem que refletir Cristo. Sem isso, perde a essência dessa condição. É preciso ser cristão verdadeiro, ser templo do Espírito Santo, ser igreja de Jesus onde quer que pise, e isso inclui a casa, a rua, a vizinhança, o lazer e também o local de trabalho.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.