Vida devocional: A ginástica espiritual

Um exercício indispensável para crescermos fortes e sadios espiritualmente é o devocional diário. Por relaxamento ou desconhecimento de sua importância, ter tempo para Deus parece estar cada vez mais difícil. A intimidade com o Pai é o primeiro passo para desfrutar de uma vida cristã completa

A vida do cristão é feita de desafios diários. Suas convicções são testadas na hora de testemunhar, na disposição de dizimar, de ir à igreja, de exercer um cargo na congregação, no momento de evangelizar um parente ou amigo…Enfim, são tantas as situações que a lista cresce a cada novo passo. Só que um desafio, em especial, é latente: o de cultivar uma vida diária de comunhão com Deus.

Parece algo muito simples, mas não é – pelo menos, para um número grande de crentes, e até mesmo para alguns ministros do Evangelho. O motivo mais corriqueiro é a falta de tempo – sempre ele, a desculpa perfeita na hora do “aperto”.

Os profissionais da área da saúde constantemente alertam a população quanto aos riscos que correm os chamados “atletas de fim de semana”: aquelas pessoas que passam a semana inteira sem fazer atividades físicas e passam o domingo jogando futebol, por exemplo. Esse “atleta” é potencial candidato a um infarto repentino ou a uma bela lesão muscular.

Sem o condicionamento adequado, adquirido pela prática regular e permanente, é impossível praticar uma atividade sem riscos. Alguma semelhança com a vida devocional? Sem ser exercitado, o lado espiritual pode “enferrujar”. Muitos crentes têm uma visão limitada do que é preciso para ter comunhão diária com Deus. Pensam que aquela oração “automática” ao acordar já cumpre esse papel. Mas não é uma atitude assim que o Senhor espera de nós.

“A vida devocional precisa ser repensada, cultivada por cada servo. Deus é graça e bondade, Ele nos ouve em qualquer situação, mas correr atrás da bênção, suplicar Sua presença, separar tempo de qualidade com Deus é o nosso dever como filhos”, disse o pastor Eliseu Samuel de Matos, líder há 30 anos da Igreja Presbiteriana em Jardim Colorado, Vila Velha.

A pastora Júlia Sabatini, da Igreja Batista Ebenézer, em Vila Velha, avisa que, se o devocional diário com Deus está “no automático”, a pessoa não sabe o significado dessa prática e algo está tomando o tempo que deveria ser dedicado a Deus. “Só é possível reverter essa situação fazendo uma análise do que está sendo priorizado no lugar de Deus e reformular a agenda – o que, certamente, vai exigir um pequeno sacrifício”. Fica o alerta.

Oséias 6.3

“Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor; a Sua saída, como a alva, é certa; e Ele a nós virá como a chuva, como a chuva serôdia que rega a terra”. Conhecer e prosseguir em conhecer: isso significa ter sede de Deus.

Todo o esforço para alcançar boas condições físicas e ficar em forma pode ser desperdiçado se a pessoa abandonar o seu programa de exercícios. O mesmo princípio se aplica à vida espiritual. Alguns crentes reservam esporadicamente uma semana para jejuar, orar e buscar a Deus com fervor. Passam fome e no fim da semana sentem-se um pouquinho mais espirituais do que antes.

Mas gradualmente voltam à rotina e pouco tempo depois não se verifica nenhuma evidência de modificação em sua vida. Se desejamos caminhar com Deus, precisamos manter uma conexão com o Senhor 24  horas por dia, todos os dias, e não apenas de vez em quando para  receber uma bênção.

O pastor Eliseu de Matos afirma que devemos estar mais ligados em adorar e reconhecer Deus em Sua plenitude do que impressioná-Lo com atitudes de sacrifício. “Jesus já se sacrificou por nós. Deus espera que tenhamos uma vida de dependência e de fé renovada”.
Na opinião da pastora Júlia Sabatini, é papel da liderança da igreja constantemente alertar os membros sobre o perigo de uma vida cristã sem o devocional pessoal regular. “Atualmente o desafio é grande, pois o povo de Deus está muito engajado no ativismo. Temos incluído em nosso boletim semanal um plano diário de leitura da Bíblia, que consideramos uma forma de incentivar os membros a separar um tempo para meditar na Palavra”.

Josué 24.15

A vida devocional é a disciplina mais importante da vida cristã. Levar isso a sério só traz vantagens para o crente. O pedreiro Francisco de Assis Torres, que mora em Vila Velha, é um exemplo vivo disso. Além de manter sua conexão diária pessoal com Deus por meio da oração e leitura da Palavra, ele reserva um dia da semana, especialmente as sextas-feiras, para um momento de estudo bíblico em família. Casado, pai de sete filhos com idades entre 24 e 10 anos, Francisco se alegra em cumprir o que orientam as Escrituras: “ensinar a criança no caminho em que ela deve andar”.

“Sou convertido há 30 anos e desde esse dia estar na presença de Deus é minha maior alegria. Transmito essa mesma alegria para meus filhos. O resultado é recompensador. Filhos de bom caráter, amáveis, obedientes, que têm prazer no serviço ao Reino”, disse Francisco.

Ele conta também que, devido a um estudo específico sobre boas obras, seus filhos e amigos se animaram a pelo menos uma vez por semana fazer um lanche e distribuir para pessoas que vivem nas ruas. “Saímos animados, conscientes de que estamos fazendo aquilo que Deus espera de nós. Não apenas oferecemos o alimento para a alma, mas também para o corpo”, completou.

A prática do pedreiro Francisco desperta um tema importante. A vida devocional em família possui um efeito fantástico, não apenas na vida pessoal de seus integrantes, mas na igreja e na sociedade. Famílias fortes, igrejas fortes. O lar que não busca a Deus abre precedentes para o ataque do inimigo: divórcios, filhos perdidos, uso de drogas, abandono. Muitos dos problemas enfrentados pelas famílias hoje seriam diminuídos se cultivassem uma vida devocional mais constante.

A família é o principal núcleo de ensino que existe. As crianças aprendem observando tudo ao seu redor e só vão adquirir o hábito de fazer um devocional diário se virem os seus pais praticarem. “O devocional em família é uma ótima alternativa para envolver todos. Deve ser um momento descontraído e prazeroso, em que todos tenham liberdade para expressar a sua adoração. Esse momento nos aproxima mais de Deus e dos nossos familiares”, lembrou a pastora Júlia.

O funcionário público Léo Carvalho, morador de Vila Velha, orientou os filhos nessa prática e até hoje não abre mão do seu devocional pessoal diário. Habituado a ler a Bíblia toda frequentemente, ele diz que deve ao estudo da Palavra o equilíbrio que alcança para lidar com as dificuldades do dia a dia. “Desfrutar da Palavra de Deus todos os dias não tem preço.
Lendo, aprendo bastante sobre como ter um bom relacionamento com Deus e com o próximo. Ao colocar em prática o que aprendemos, estamos falando de Jesus por meio das nossas atitudes também”, disse.

II Crônicas 7.14

Muitas pessoas estão tão distantes da presença do Senhor que é necessário um acidente ou morte, uma emergência ou problema mais grave para acontecer um “estalo” que as façam reconhecer que precisam dEle. Enquanto tudo vai bem, deixam Deus completamente de fora de suas decisões, pensamentos e ações.

Quem desenvolve comunhão com Deus fortalece o espírito.  “Praticar o devocional não é difícil. Requer disposição e disciplina. É um passo de fé. Ore, leia a Palavra, louve, memorize passagens bíblicas. Evite repetir mecanicamente o que leu. Busque temas variados para a leitura, com o objetivo de enriquecer sua bagagem espiritual. Não se permita cair numa rotina”, pontuou o pastor Eliseu de Matos.

Jesus, em seu ministério terreno, demonstrou, em todos os momentos, o quão importante é estar em comunhão com Deus. Quando oramos, demonstramos nossa dependência e, assim, damos um golpe certeiro na autossuficiência – um grande inimigo da alma.

No momento mais crítico do Seu ministério, quando se aproximava a crucificação, Jesus sentiu o peso das pressões que haviam sido colocadas sobre Ele. Buscou a Deus em agonia e foi consolado (Lucas 22.42-44). “Não podemos ser autossuficientes. Não suportaremos as pressões se não formos fortalecidos em Deus”, lembra a pastora Júlia Sabatini.

Sem intimidade com Deus, mesmo boas obras podem tornar-se vãs. Em Mateus 7.22, Jesus disse: “Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em Teu nome, e em Teu nome não expelimos demônios, e em Teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi explicitamente: Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade”. A palavra firme de Jesus mostra que apesar das boas obras, faltou àquele povo a comunhão efetiva com Deus.

Quando oramos, e quanto mais o fazemos, mais claro fica o quanto precisamos de Deus para nos orientar em todas as esferas de nossa vida. E vale lembrar a admoestação de Martinho Lutero: “Quando você não sente o desejo de orar, aí é que você deve orar”.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita

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