Por uma nova Reforma!

reforma protestante

O mesmo contexto que distanciou a Igreja da Palavra de Deus há cinco séculos também a ameaça hoje. Quais os desvios da Reforma Protestante e o que um novo movimento precisa fazer nos dias atuais?

Ele tinha 34 anos quando passava madrugadas e madrugadas, sozinho, dentro de seu quarto, escrevendo e traduzindo com caneta-tinteiro e à luz de uma lamparina o que mudaria para sempre a Igreja. Cinco séculos se passaram desde que essa cena transformou-se no pano de fundo do movimento que culminaria no maior ato de Deus em favor do Seu povo, depois do período apostólico: a Reforma Protestante, promovida por Martinho Lutero, que consolidou textos bíblicos como o de Atos 16:31 – “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa”.

Entretanto sua tese de número 27, Sola Scriptura e Sola Fide (somente a Escritura e somente pela fé), continua denunciando uma prática repetida no meio eclesiástico hoje. Em 1517, a Igreja alegava que “no momento em que a moeda soa ao cair na caixa a alma se vai do purgatório”. Em 2017, a denúncia feita por pastores e líderes é que a instituição reproduz a mesma prática, porém em outro formato, corrompendo-se ao introduzir atividades substitutivas como troca de favores divinos e de sensação de perdão pelas culpas.

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“Alguns desvios são até maiores, como o abandono da essência do Evangelho” – Roberto Costa Oliveira, pastor da Igreja Presbiteriana de Curitiba

E disso Lutero entendia bem. Descendente de agricultores e de mineiro, ele foi submetido a uma educação severa na infância, a ponto de um dia ter sido surrado até que seu sangue escorresse, por causa de uma noz. Cresceu e tornou-se o monge inconformado com a exigência de castigos e sacrifícios impostos pela Igreja para obtenção do perdão. Foi quando fez diversas descobertas lendo a Bíblia, até livrar-se da angústia da busca por salvação. A obra da Reforma não se reduz a um episódio histórico, significa um processo contínuo, e as igrejas têm papel fundamental nesse movimento. Mas o que não está sendo considerado no conteúdo daquele documento escrito pelo monge alemão e professor universitário Martinho Lutero? O que não se pode mais comemorar no dia 31 de outubro?

O pastor Roberto Oliveira, da Igreja Presbiteriana de Curitiba (PR), afirma que vivemos desvios diferentes dos da época de Lutero, mas que produzem o mesmo peso. “Alguns desvios são até maiores, como o abandono da essência do Evangelho. O que está sendo pregado é de lei (comportamental), e não de maravilhosa graça. O Evangelho é boa-nova de perdão, graça e amor, mas a Igreja evangélica hoje é muito baseada em atividades. Isso cansa a muitos, quando na verdade deveria ser descanso e energização do Espírito.”

O pastor Marcos Granconato, da Igreja Batista Redenção em São Paulo, considera que a Igreja foi lançada “em desvirtuamentos tão graves ou até maiores do que o papismo. Líderes que se dizem inatacáveis (os famosos ‘ungidos do Senhor’, doutrinas inventadas por homens, revelações mentirosas que se sobrepõem à Palavra, superstições tolas, comércio da fé… Pequenos luteros têm que se levantar em suas comunidades e denunciar os erros promovidos há 100 anos em nosso meio”.

Jailton Lima do Nascimento, pastor na Igreja Presbiteriana em Vitória (ES), ressalta que “muitos herdeiros da Reforma foram negligentes com o legado recebido dos seus antepassados. Em busca do reconhecimento da sociedade e do aplauso da academia, importantes doutrinas bíblicas foram ‘diluídas’ ou até mesmo negadas. Os princípios redescobertos no século 16 continuam válidos e precisam de ampla e corajosa divulgação”.

A Reforma Protestante foi necessária devido à corrupção do cristianismo, num contexto que distanciou a Igreja da Palavra de Deus. Atualmente não estaria o chamado Corpo de Cristo necessitando de uma nova e substancial mudança dessa magnitude para encorajar seus membros a permanecerem naquilo que aprenderam? – 2 Tm 2:15 e 3: 14-17: “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido”.

Os reformadores argumentavam que a salvação é somente pela fé (Rm 1: 17), com ênfase na verdade bíblica de que “o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei” (Rm 3: 28). “Ao longo de 1.500 anos, a Igreja passou por um processo de deterioração, especialmente a partir do século 4, que culminou num estado de coisas insustentável em todos os aspectos. Uma reforma doutrinária, ética e institucional se tornou imprescindível. A verdade é atacada todos os dias, e isso ocorre até dentro de igrejas. E podemos esperar coisas piores, caso não haja uma reforma doutrinária e institucional nas igrejas”, alerta Pr. Marcos Granconato.

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Fonte: Entrevistados da matéria e Igreja Presbiteriana do Campo Belo (SP)

Tudo isso mostra um cenário muito semelhante ao que Lutero e outros reformadores como Calvino e John Wesley encontraram. “Nesse contexto, identificamos desde os desvios doutrinários mais grosseiros até a exploração financeira dos simples. E esse mal está presente tanto em denominações definidas como pentecostais como também nas tradicionais históricas e na vida particular de seus membros. Porém, conheço pequenos reformadores que se levantam dentro das congregações locais corrompidas e atacam todos os desvios e abusos que veem. Como ocorreu com Lutero, eles também são expulsos dessas igrejas e dão início a novas comunidades, integradas por crentes sérios. Essas vozes, contudo, são de pessoas que não estão dispostas a ir mais fundo na sua luta contra o erro, pagando o preço por isso.”

Na visão do pastor Ivan Saraiva, do Ministério Está Escrito, da Igreja Adventista do Sétimo Dia, o catolicismo também se beneficiou da Reforma, pois a venda das indulgências caiu absurdamente. “Temos ainda algumas comercializações pontuais em nossos dias, mas é uma exceção. A Igreja Católica não vende mais abertamente esse tipo de coisa”, disse.
Homens e mulheres de fé arriscaram literalmente a vida. Eles começaram a ler as Escrituras, e lá estava Martinho Lutero traduzindo-as do hebraico, do aramaico e do grego para o alemão, colocando a Bíblia na língua do povo para que hoje tivéssemos essa diversidade de exemplares produzidos e vendidos no mundo, a fim de que textos como os de Hebreus 10: 38 (“O justo viverá pela fé”), Efésios 2: 8 (“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus”) e Mateus 10:8 (De graça recebestes, de graça dai”) chegassem ao conhecimento de todos.

Mudança de foco

Qual teria sido o principal desvio da reforma religiosa do século 16 praticado pela Igreja do século 21? Quais das 95 proposições (teses) fixadas nas portas da catedral da cidade de Winttemberg nos remetem a um contexto similar ao de hoje? A Igreja contemporânea teria mudado o foco do trabalho interpretativo?

Granconato diz que sim. “Nos dias dos reformadores, o foco estava na intenção autoral. Os intérpretes tentavam descobrir por todos os meios (em especial, pelo estudo das línguas originais) o que o autor bíblico quis dizer. Hoje, por causa do impacto da pós-modernidade, o foco está no leitor. As pessoas acreditam que o que vale é o seu modo particular de interpretar e alegam que essa sua interpretação pessoal deve ser ‘respeitada’. Assim o texto bíblico perde sua autoridade, ficando sujeito ao significado que cada um pretende atribuir a ele. Isso esvaziou a Bíblia de força na correção do erro e fez da pregação o simples compartilhar das percepções pessoais do pastor.”

“A Igreja foi lançada em desvios tão graves ou até maiores do que o papismo por líderes que se dizem inatacáveis” – Marcos Granconato, pastor da Igreja Batista Redenção em São Paulo

Outra diferença é que hoje, dadas as novas circunstâncias, a reforma tem que ocorrer no âmbito individual e nas igrejas locais. Entretanto Pr. Ivan Saraiva observa que a Igreja nutre algumas preocupações diferentes das de Deus. “Jesus disse ‘A minha comida e a minha bebida é fazer a vontade de Deus’, mas nós só estamos preocupados em viver a vida. A gente não mata ninguém, não rouba, então está tudo certo, mas o fato é que precisamos dizer como Lutero: ‘Eu vou lá e vou pregar o Evangelho’. Eu não só creio nisso como também clamo por isso, sobretudo na minha vida. A gente precisa buscar uma sinceridade muito grande dentro de si. Essa reforma toda tem que passar por mim e por você. O tempo que eu fico ao celular é muito maior que aquele que passo lendo a Bíblia. Então, como é que vai existir uma reforma?”

Pastor Ariovaldo Ramos, da Missão Integral de São Paulo, considera que a Igreja evangélica está se omitindo e terceirizando suas responsabilidades a outros poderes. “Estamos sonegando participação histórica no tempo que vivemos. Trata-se de um grande pecado, por isso precisamos de uma nova Reforma no sentido de assumirmos nosso papel social também”, frisa.

Com a ênfase na interpretação individual, Pr. Ivan Saraiva aponta sua maior apreensão. “São 40 mil denominações cristãs catalogadas. É mais fácil se abrir uma igreja do que uma microempresa. Cada um tem uma igreja, não tem imposto. Quer lugar mais fácil de se conseguir dinheiro do que isso?”.

Granconato ousa indicar o que nos falta. “O povo de Deus não tem líderes de verdade. As ovelhas estão espalhadas por falta de pastores. O que temos são homens despreparados ou golpistas fraudulentos à frente das igrejas. O que esperar de gente assim? O povo sofre, é enganado e destruído. Precisamos de uma nova geração de expositores que trovejem a Palavra de Deus com o sangue fervendo nas veias.”

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Fonte: Entrevistados da matéria e Igreja Presbiteriana do Campo Belo (SP)
Modernidade ou apostasia?

Enquanto os religiosos da época defendiam a autoridade da hierarquia da Igreja, do papa e dos sacerdotes, os reformadores pregavam a centralidade das Escrituras na vida cristã. A mensagem continua a mesma. Variantes textuais encontradas após o tempo da Reforma não têm conteúdo capaz de alterar substancialmente a Bíblia usada por Lutero ou o Novo Testamento grego. Mas a modernização aparentemente boa pode se tornar um risco aos princípios originais da mobilização protestante.

Para o pastor Marcos, as palavras “abertura” e “modernização” não passam de eufemismos para “apostasia”. “Muitas pessoas amam o mundo e querem conviver em paz com ele. No entanto, não desejam ficar com a pecha de ‘desviados’. Então, usam esse vocabulário atraente para esconder seu real objetivo de ser mundanos, continuar com o nome de ‘cristãos’ e ter o amor, o aplauso e a admiração do mundo. Muitos crentes de hoje não conhecem a realidade destacada por Inácio de Antioquia, que dizia que a nossa grandeza consiste precisamente nisto: em sermos odiados pelo mundo.”

Professor de História do ensino médio, Roberto Martins pontua que igrejas evangélicas têm se utilizado da mercantilização da “Palavra Sagrada”, algo contrário ao próprio ato originário da Reforma: a contestação luterana à prática da simonia (venda ou negociação do sagrado) e em especial ao comércio de indulgências (o perdão dos pecados).

Para exemplificar, ele cita a venda de CDs gospel, a exploração dos fiéis e o envolvimento de igrejas com a administração de bens imóveis. Seria por isso que o IBGE registrou que 15 milhões de pessoas se declararam sem religião no Censo de 2010, o que representa 8% dos brasileiros? Em 2000, esse grupo tinha 12,5 milhões, o equivalente a 7,3% da população.

Enquanto isso, em países onde o Evangelho é proibido, como Coreia do Norte, existem igrejas secretas. Essas comunidades tão severamente perseguidas não se dissolvem, porque sabem que são responsáveis por preservar a verdade bíblica do Evangelho que, naqueles países, se propaga sutilmente em meio às sombras.

A Reforma do agora

Vindos de heranças religiosas diferentes, muitos estudiosos revisitaram o passado para entender o presente e o futuro da Igreja, especialmente naquilo em que é preciso ser mudado, após 500 anos de Reforma.

Embora seja verdade que a Igreja evangélica e a católica aderiram a vários aspectos ritualísticos estimulados por Lutero – valorização dos cânticos, uso da língua nacional, estímulo à leitura dos textos bíblicos… –, é fato também que houve perda nesse processo.
Os reformadores, lidando com questões mais urgentes relativas à soteriologia (doutrina da salvação) e à eclesiologia (doutrina da Igreja), não refletiram acerca do impacto da hermenêutica (teoria da interpretação) histórica sobre a escatologia (doutrina das coisas que devem acontecer no fim dos tempos). Isso fez com que o método alegórico interpretativo católico medieval se perpetuasse no meio protestante em seu trato com a profecia bíblica.

Dica de leitura

uma nova reformaAs 95 teses e a Essência da Igreja

Editora Vida
Martinho Lutero

 

 

 

uma nova reformaUma Nova Reforma

Editora Mundo Cristão 
24 autores

 

 

 

uma nova reformaClássicos da Reforma – Uma coletânea de escritos

Editora Vida Nova
Martinho Lutero

 

 

 


 

Agora, há um anseio por uma nova Reforma, já que nem tudo vai bem na Igreja deste século. Nossos entrevistados são unânimes em apontar pelo menos três questões centrais para se iniciar uma nova Reforma e corrigir os rumos da Igreja.

O primeiro passo seria o retorno às Escrituras Sagradas. É preciso um esforço coletivo de volta à Bíblia, eliminando ênfases dadas a “amuletos” ou a teorias que diminuem a mensagem pura do Evangelho.

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“Em busca do reconhecimento e do aplauso da academia, importantes doutrinas bíblicas foram diluídas ou negadas” Jailton Lima do Nascimento, pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória

O segundo seria a inclusão da Igreja na realidade social em que está inserida, tornando-a mais participativa e influente nos espaços seculares. É preciso uma redenção também palpável das necessidades humanas e físicas, conforme apontada pelos profetas, e não somente uma salvação baseada na ideia de almas no céu.

A terceira ação seria o confronto com os movimentos religiosos que distorcem a sã doutrina bíblica e enganam usando de misticismos, como aconteceu no século 16. A Reforma de agora seria chamar, mobilizar e convocar as igrejas a abandonarem tais práticas e ter a única referência que deve nortear a vida do cristão, as Sagradas Escrituras.

O pastor Jailton Lima defende: “Para nós, protestantes, a Bíblia é a única regra de fé e prática, inspirada, inerrante e suficiente. As mudanças adotadas atestam declínio e decomposição nas esferas da ética, da moral e do relacionamento com Deus”.


Augustus Nicodemus fala sobre a Reforma:


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